O equilíbrio entre o ambiente e a técnica usada na construção civil passa necessariamente por um projeto de arquitetura consciente
Inexorável: o velho dá lugar ao novo. Sempre foi assim na natureza. Mas o curso da renovação urbana tem exigido um planejamento exímio de engenheiros e o traço habilidoso de arquitetos para confirmar outra tese: a de que o novo suplantará em qualidade e estilo aquilo que foi levado ao chão e promoverá uma melhor integração entre o humano e o ambiental.
Antes de janeiro de 2010, quando se iniciou a obra que dará lugar ao Museu de Imagem e do Som (MIS) no Rio de Janeiro, a preocupação com a geração de resíduos e os materiais do projeto de renovação arquitetônica já estava posta.
Em sua primeira participação no país, técnicos da entidade inglesa BREEAM ajudaram na identificação de materiais existentes na antiga discoteca em Copacabana, o que permitiu à empresa Caenge Ambiental, parceira no trabalho de renovação, destinasse 98% dos resíduos para reciclagem ou disposição final de maneira ambientalmente correta. Sob os escombros do velho prédio da discoteca HELP da Avenida Atlântica não ficariam nem as memórias baladeiras, seguramente já recicladas por antigos clientes do local.
Os especialistas ligados ao Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) alertam para um futuro de escassez de materiais. Esse alerta atinge diretamente a construção civil. No centro das iniciativas por uma Economia Verde, a entidade sugere a desvinculação (decoupling, em inglês) entre a permanente busca por crescimento econômico e o uso irracional de matérias primas.
“Para reduzirmos a pegada carbônica da construção deveremos mudar o foco da eficiência energética e produtividade de mão-de-obra para a chamada produtividade dos materiais, ou em palavras mais simples, construir mais com menos material,“ diz o engenheiro e arquiteto holandês Ewoud van Schaijk do escritório Open Spaces de Brasília, também mestre em sustentabilidade.
Esta abordagem aponta os dilemas da construção civil sob o prisma do desenvolvimento humano sustentável. Países como o Brasil e EUA, por exemplo, gozam de níveis de conforto distintos. O primeiro tem uma matriz energética mais limpa e uma pegada de carbono per capita menor em relação ao segundo.
No entanto, com a crescente expansão de consumo de certos equipamentos como ar condicionado e materiais de luxo no acabamento das edificações brasileiras, antes limitados por fatores econômicos, haverá um incremento das emissões de resíduos, emissões de CO2 e uma pressão por mais matérias primas neste setor. Em muitos casos, isto contraria o conceito de sustentabilidade, apesar de garantir o crescimento do PIB do setor.
Para o arquiteto Leonardo Xavier, arquiteto ligado à Prefeitura de Paraty, responsável por projetos nas áreas de saúde e educação e obras de mobilidade urbana, entende que a sustentabilidade está vinculada ao ambiente no qual se opera a intervenção, além dos processos e materiais envolvidos. Para ele, “ o local é parte integrante, estruturadora e determinante da resposta arquitetônica adotada, já que dependendo da disponibilidade dos recursos e da situação específica, uma solução pode caracterizar-se ou não como sustentável.”
O equilíbrio entre o ambiente e a técnica usada na construção civil passaria necessariamente por um projeto de arquitetura consciente. Segundo o mestre holandês Van Schaijk , que trabalha há quinze anos no Brasil e tem mais de 50 projetos de sustentabilidade em seu portfólio, é necessária a aplicação de um “desenho leve” para erguer casas particulares e condomínios sustentáveis, com gestão apropriada de águas, luz e espaços de convivência.”
“Uma casa, ou escritório, é muito mais do que um envelope físico. Uma residência sustentável oferece um lar às necessidades do nosso lado humano imaterial – sonhos, hábitos, aspectos de saúde e legado - que infelizmente ainda são pouco trabalhados no conceito da sustentabilidade hoje em dia no Brasil,” diz ele.