Levando em conta os recentes conflitos políticos e apocalipses econômicos, não é saudável confiar em apertos de mãos e tapas nas costas selando acordos apalavrados em prol de reformas sociais e ambientais
Em meio a uma complexa e profunda crise econômica que abala o velho continente e as expectativas financeiras de governos, empresas privadas e cidadãos em todo mundo, começa a Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20. O evento pode ser denominado, no futuro, como o maior já realizado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em toda a história. Sob a perspectiva da economia verde, será discutida a preservação da natureza aliada ao progresso da tecnologia para ampliar a produtividade, objetivo de boa parte dos seres humanos imersos no mercado proposto pelo modelo político e econômico vigente em quase todo o planeta. Em outras palavras, líderes de governo, empresários e a sociedade civil debaterão o desenvolvimento sustentável. Aquele que só leva a sustentabilidade no nome.
O momento não é bom, e não poderia ser diferente. Além da depressão financeira, a pouca credibilidade dos governos, empresas e entidades não governamentais envolvidos na Rio+20 diminui as expectativas de prosperidade. Afinal, levando em conta os recentes conflitos políticos e apocalipses econômicos envolvendo essas instituições, não é saudável confiar em apertos de mãos e tapas nas costas selando acordos apalavrados em prol de reformas sociais e ambientais que reduzam possíveis danos à humanidade. Sem o peso de obrigação legal, ou o fomento de legislações, muitos dos compromissos firmados a base de cartas, sorrisos, esperanças e segundas intenções não têm nenhum valor. Aliás, têm sim, mas no universo do marketing e da publicidade. Pode-se considerar em certo ponto, que as dezenas de delegações que aterrissaram (ou aterrissarão) no Rio de Janeiro estão prestes a registrar a propaganda mais cara, desgastante e até inútil, dependendo do ponto de vista, de todos os tempos. O mais evidente até então é que o mundo não passará a girar sustentavelmente, depois de junho, ou em um período mais longo. Não há como converter a lógica capitalista em um jogo que seja benéfico para todos. Alguém, ou algo, precisa perder.
O dinheiro compra qualquer coisa. Dos longos discursos que serão feitos em prol do desenvolvimento sustentável, da erradicação da pobreza, do fim da exclusão social e outras formidáveis bandeiras que serão hasteadas em reuniões, durante o encontro, até as disputas políticas que serão realizadas nos bastidores. É provável que a essa altura boa parte das atuações na Conferência estejam compradas. Líderes e subalternos debaterão o meio ambiente sob a ótica do capitalismo. Clamando por uma expansão comercial mais agressiva, mas dizendo ao povo que a natureza será preservada e que as pessoas serão respeitadas. Agora, podem utilizar os clamores por um mundo "ambientalmente moral", sustentado por apelos sociais como munição para seus canhões que desobstruem os caminhos para o progresso a qualquer custo. Enquanto os Governos dormem e deixam desprotegidos os seus cidadãos, corporações preocupadas com o lucro atravessam qualquer limite moral e ético na insaciável corrida pelo poder. O mesmo poder que pensou a Rio+20 pode ser aquele que terminará de defenestrar o planeta com a truculência de um desenvolvimento irracional e perigoso.
Como o já anunciado pela mídia e por especialistas em meio ambiente, a Conferência será um oportunidade para que grandes empresas iniciem um lento processo de tomar o protagonismo de governos, tornando-se elas próprias responsáveis pelas decisões mais importantes do planeta. Grandes corporações já se articulam para preencher a lacuna que nunca foi priorizada por chefes de Estado: a preservação do meio ambiente. Empresários conseguirão agregar valor às suas marcas, tentarão recuperar a confiança das nações e por fim, terão mais acesso a territórios verdes e à confiança de representantes e cidadãos de vários países. Estamos diante de uma possível revolução promovida com a inteligência do universo corporativo.
A tal "economia sustentável" só sairá dos papéis, globalmente, se for mais rentável para a irrisória parcela da população mundial que controla o planeta, economicamente. Não há nenhuma possibilidade, no atual contexto, de uma alteração de modelo ou método de exploração, se isso significar diminuição ou perda. Essas pessoas não abrirão mão de sua condição atual em prol de "um mundo melhor para todos", até porque, essa frase é ficcional em um universo predominantemente capitalista. Os ideais um tanto quanto "filantrópicos", ambiental e socialmente corretos que serão pregados na Rio+20 não passam de falácias para tentar provar aos mais desatentos que o mundo, dentro de 20 anos, será um lugar ambientalmente conservado e respeitador dos direitos humanos. As empresas estão se unindo para ocupar um espaço que é dos Estados, recuperar-se de crises econômicas a partir da exploração de terras protegidas e tentar alterar a forma de se enxergar a floresta. Isso, definitivamente, não é o proposto pelos ideais pregados pelos princípios do Desenvolvimento Sustentável.
Os tropeços da própria ONU colocam em cheque as intenções de um evento tão grande. Ora, o que esperar de uma Conferência apoiada e concebida por setores de uma Organização que conscientemente cometeu e comete graves e permanentes equívocos para a humanidade e se deixa controlar por países que não estão preocupados com o bem estar ou o desenvolvimento do resto do planeta? Apesar de sustentar valores importantes e atuar com bastante responsabilidade em algumas ocasiões, a ONU e suas agências já mostraram ao mundo seu posicionamento político, suas bandeiras favorita e o quanto as suas ações "humanitárias" podem ser questionadas. A ONU, como autores e atores já cansaram de mostrar com o amplo apoio de sérios representantes da mídia. Ou melhor, como a história já nos contou algumas vezes, é e foi permissiva com atentados contra seres humanos, países e até mesmo o meio ambiente. Rica, poderosa e isenta de impostos, a ONU precisa ser questionada em qualquer situação em que esteja envolvida, principalmente quando apoiada por entidades privadas com intenções aquém daquelas que estão explícitas.
Entre ONU, Governos e Empresas privadas temos outra parcela da sociedade civil, que organizada ou não, está bem distante de se entusiasmar com a Rio+20 ou de promover ações que visem o desenvolvimento sustentável ou que preserve o meio ambiente. Aliás, como tratei em outro post, aqui é mais uma ocasião em que os cidadãos, principalmente os brasileiros, negligenciam temas de suma importância para o desenvolvimento de seu próprio País. Hoje, segundo a pesquisa "O que o brasileiro pensa do meio ambiente e do consumo sustentável", divulgada pelo Ministério do Meio Ambiente, cerca de 95 milhões de brasileiros não tem hábitos ecologicamente corretos e nem perseguem esse comportamento. Promovem a mesma poluição contra a qual exclamam negativamente. A pesquisa diz que mesmo sendo "poluidores", os brasileiros preocupam-se com o volume de lixo, com o desmatamento, com a poluição do ar e com o desperdício da água. E como não poderia deixar de ser, grande parte dos brasileiros não se sentem responsabilizados pelo meio ambiente, diz o estudo. Eles culpam o governo, como é comum em um povo que carrega profundos estigmas da colonização e exploração sofridas pelo Brasil há mais de 500 anos.
Em um terceiro corner estão os ativistas e ambientalistas, que têm erguido suas opiniões a todo custo, ampliando a zona de conflito em que está se tornando a Rio+20. Apesar de representarem entidades igualmente questionáveis, como a WWF e o Greenpeace, muitas dessas pessoas acompanharam a história dos diálogos sobre o meio ambiente entre sociedade e governo. E eles atacam as instituições responsáveis pela Rio+20 pelo fracasso dessas conversas e discussões que na maioria dos casos resultaram em mentiras e desacertos. Eles viram a história se repetir ao longo dos anos e agora tentam, também sem muita credibilidade, alertar os bilhões de habitantes do mundo para os perigos de reuniões que objetivam atender a interesses de companhias privadas e governos despreparados. Tentam inserir cidadãos de todo o mundo nos novos valores que têm sido agregados à questão do desenvolvimento, nos dias de hoje. A palavra foi subvertida e transformada em meio para a obtenção de lucros, mesmo que isso signifique penalizar todos as pessoas da terra.
Todo o cuidado é pouco. Estamos diante de um evento que pode formalizar grandes acertos prejudiciais para o homem e que serão acordados em ambientes invisíveis aos olhos da sociedade. As semelhanças do que escrevo com teorias da conspiração podem ser combatidas com rápidas análises dos movimentos políticos e econômicos que têm sido marcantes para mundo, atualmente. A vida na terra enfrentará outras muitas injustiças, porque o homem está fadado a se deparar com os vícios de uma história perversa. O Caos sim faz parte de um ciclo que os povos nunca fizeram questão de combater. Enquanto nos reduzimos à nossa angústia, solidão e egocentrismo, tudo o que está ao nosso redor é entregue àqueles que já se transformaram em peões do mercado e serventes do capitalismo. A natureza e o homem não serão agraciados com decisões tomadas em eventos que são conduzidos por indivíduos que lutam por dominação territorial e produção de riquezas materiais utilizando qualquer ferramenta imoral ou antiética.
Certamente ainda há quem queria fazer o bem. A Rio+20 reunirá milhares de pessoas com posicionamentos distintos e abrirá espaços para diálogo.
Porém, infelizmente, apenas o que for importante para grandes grupos será formalizado e se transformará em arquivos, promessas e acertos. Cabe à sociedade e ao Estado tomar as rédeas da situação, caso contrário, continuaremos nos ajoelhando perante a coroa dos sadismos antidemocráticos impostos por moedas, interesses e poder. O planeta está se tornando um lugar perigoso, mas não só pelos altos índices de violência, estamos vivenciando a era em que o capitalismo, sem nada a perder, parte com agressividade para tentar permanecer vivo. A Rio+20 será desespero do sistema. É a tentativa de não se entregar, ficar de pé e sangrar com alguma dignidade. Até que ponto esse sistema pode ir para continuar vigente? Para continuar respirando? As lideranças e a sociedade civil não podem permitir que a Rio+20 seja somente um escudo contra a crise e uma serra elétrica contra o meio ambiente.
Rafael Querrer é jornalista e repórter de política e economia
Comentários
1 comentários em "Um mau momento para a Rio+20"
gisele 14.06.2012 às 08:02