É evidente que a realização da Rio+20 não passou de novo espetáculo midiático para atender a interesses diversos
Nesses dias de Rio+20 muito se falou em sustentabilidade, vinculando-a principalmente a questões climáticas, como se fosse preciso de mais algum outro fator de desequilíbrio além dos já existentes no nosso cotidiano para que tomássemos consciência da urgência de promovermos mudanças no nosso sistema sóciocultural.
Uma pergunta que sempre fica no ar é: será que é possível a implantação de medidas que produzam alterações efetivas na relação do ser humano com o que o cerca sem se resolver o desequilíbrio do acesso à cidadania? Enquanto a maioria da população é tratada como sub cidadãos, não tendo acesso à saúde, educação e justiça, outros desfrutam privilégios inimagináveis, como se deuses fossem, acima do bem e do mal.
Em tempos de web, em que pela primeira vez na história da humanidade qualquer um de nós pode consumir e produzir informação, reafirmando que as estruturas de macro podem nascem e se consolidam a partir das micro relações, não é de se estranhar o fracasso da Rio+20.
Paralelamente ao espetáculo absolutamente midiático dos chefes de Estado e representantes de grandes corporações, a população, já cansada de discursos vazios que redundam em ações antagônicas a esses mesmos discursos e que têm como objetivo preservar interesses e privilégios de uns poucos em detrimento de legítimos interesses de todos os demais, se organizou e se fortaleceu ainda mais na Cúpula dos Povos, repetindo o roteiro da Rio 92.
Já em 92, quando a web ainda engatinhava, à revelia dos encontros midiáticos dos chefes de Estado, os movimentos sociais se utilizaram das sombras dos poderosos para se encontrarem, reconhecerem seus verdadeiros aliados e construírem cumplicidades, ampliando suas relações, movimento esse traduzido por uma frase bastante emblemática:
"Pensar localmente, agir globalmente!"
Nos anos seguintes o que se viu foram as demandas sociais ganhando força, obrigando as empresas privadas a criarem rapidamente o movimento de "responsabilidade social empresarial", uma verdadeira aberração nascida do desespero de um classe que se recusava a abrir mão de uma frágil liderança conquistada com o efêmero sucesso da política liberal adotada pela Dama de Ferro, Margareth Tacher, na Inglaterra.
Mas a "mentira tem pernas curtas", como diz o velho ditado popular.
Assim, o movimento de "responsabilidade social empresarial" rapidamente perde credibilidade perante a população, ao ficar evidenciado o absurdo de sua existência (você já pensou que esse movimento, ao premiar empresas que antes de mais nada cumprem com suas obrigações, legitimaria a "irresponsabilidade social empresarial" ou "responsabilidade anti-social empresarial"?) e é substituído pela marca "desenvolvimento sustentável", muito mais lucrativa para as empresas.
Enquanto na responsabilidade social as empresas teriam que desembolsar recursos para financiar supostos projetos sociais, no desenvolvimento social elas transferem a responsabilidade do sucesso ou do fracasso dos seus projetos sociais para seus funcionários, ao os responsabilizarem por economizarem insumos básicos (como energia, papel, água, matéria prima etc), reduzindo drasticamente seus custos de produção e aumentando, nas mesmas proporções, suas margens de lucro e ainda por cima pousando de parceiros da população e do meio ambiente.
Paralelamente a todo esse movimento da sociedade do espetáculo, a população, silenciosamente, se organiza e se estrutura, tendo a web como uma ferramenta poderosíssima, que, felizmente para todos nós, foi no início absolutamente desprezada pelos supostos "senhores" do poder, tratada como se fosse mais um brinquedo de jovens, adolescentes e crianças. Apenas recentemente os donos do poder se dão conta da força da web, mas, de novo felizmente, tarde demais.
Rapidamente a população se apossou da web, aliada a empresários jovens e familiarizados com o universo virtual, produzindo novas e potentes ferramentas que potencializaram a comunicação universal e, consequentemente, os movimentos sociais. Surgem as redes sociais, o Youtube, alimentados por celulares cada vez mais adequados a essa nova tecnologia viabilizando a comunicação a qualquer momento de qualquer lugar.
Toda essa intrincada rede de comunicação popular se fortalece com conquistas à eleição do primeiro presidente negro dos EUA; o fim de regimes ditatoriais no norte da África; a realização de greves estudantis no Chile, Canadá (Quebec), Brasil; a promulgação de leis de interesse popular, como a "Ficha Limpa"; a ocupação de espaços públicos em protesto pelo regime sócio econômico que vivemos, de uma forma absolutamente pacífica; a organização de manifestações de movimentos de fatias da população até aqui afastados dos núcleos de poder, como as passeatas gays, etc.
É evidente que a realização da Rio+20 não passou de novo espetáculo midiático para atender a interesses diversos, numa busca desesperada de retomada da liderança desse grupo que se despede de um poder quase absoluto que imagina ter entre as grandes corporações e alguns de seus representantes encastelados em cargos de chefes de Estado.
Através da busca de um suposto Desenvolvimento Sustentável foi possível estabelecer uma agenda comum com a população, espalhando pânico em torno do tema, permitindo que ações que visam única e exclusivamente o favorecimento de menores fossem travestidas de "relevantes causas sociais".
Infelizmente para uma minoria e felizmente para a maioria de nós, dessa vez o abismo que separa os interesses do grande capital e o nosso, os cidadãos comuns, é intransponível.
O próximo passo para se produzir o evidentemente imprescindível desenvolvimento sustentável é absolutamente incompatível com o capitalismo voraz que vivemos, capaz de devorar países como Grécia, Espanha, Portugal... e que requer resultados imediatos e lucros crescentes: o consumo consciente?
Realmente é e sempre foi imprescindível para a humanidade que o ser humano compreenda que ele é um produto do meio e que não há recursos suficientes em nosso planeta para que toda a humanidade viva uma vida nababesca, mas que é possível, sim, termos uma vida simples e confortável, garantindo o acesso para todos nós dos elementos básicos que nos garantam uma vida digna, em paz e solidária.
Sem dúvida alguma estamos no limiar de novos tempos, em que a manipulação da sociedade em prol de interesses escusos se tornará cada vez mais difícil e a célebre frase que "todo o poder emana do povo, pelo povo, para o povo" se tornará cada vez mais realidade, traduzida pelo exercício de uma cidadania planetária, com os cidadãos conscientes que "o bater de asas de uma borboleta na China interfere nos EUA".
Acredito que é a hora de deixarmos de eufemismos, reconhecermos que a diversidade não é necessária somente nas plantas e nos animais que coabitam o nosso planeta, mas também entre nós humanos e enfrentarmos desafios maiores, do tamanho de nossa existência, buscando a cidadania sustentável, aquela em que o cidadão se sinta acolhido pelos seus e possa fazer as escolhas de sua vida a partir de seus direitos e deveres com a sociedade, entendendo que ele é um produto do meio e que sem ele não existe.
Utopia, nem tanto, alguns povos demonstram que isso é possível em diversos e distintos lugares do nosso planeta, desde povos da Escandinávia até habitantes das mais remotas fronteiras da humanidade que ainda nem sabem que existimos.
Paulo Silveira é membro do movimento Respeito é Bom e Eu Gosto