Os mesmos líderes responsáveis pela condução suicida do planeta têm se utilizado da “sustentabilidade” para “sustentar” um sistema capitalista debilitado, senil e ultrapassado
Retomando o debate sobre o desenvolvimento sustentável, a Rio+20 reafirmou o sentimento de frustração que fora produto dos diálogos de governos e entidades da iniciativa privada sobre o tema sustentabilidade, ocorridos em datas anteriores ao evento sediado na capital do Rio de Janeiro. O registro oficial do desânimo em um encontro com o selo da Organização das Nações Unidas (ONU) tornou o suposto fracasso da Rio+20 um alerta aos interessados pelo tema. Com a sociedade basicamente excluída do que vem sendo discutido acerca da possível implementação do modelo econômico sustentável, os mesmos líderes também responsáveis pela condução suicida do planeta têm se utilizado da "sustentabilidade" para "sustentar" um sistema capitalista debilitado, senil e ultrapassado. Depuseram a possibilidade de renovação, em prol da perpetuação de métodos de exploração que desgastam não só os recursos naturais, como também a vida humana. Enquanto o planeta grita por soluções menos agressivas ao meio ambiente e ao ser humano, as engrenagens da máquina capitalista desregulada giram a todo vapor promovendo mais desigualdade e outras perversidades.
Tudo pode ser explicado a partir da imprudência. Essa é o comportamento que tem acelerado o suicídio do sistema e empurrado o planeta inteiro nos buracos de uma depressiva crise econômica. Crise que fora anunciada, anos antes, mas ignorada, veementemente, porque prevenir poderia significar o fim da festa e o controle sob as extravagâncias. Hoje, desesperados com a iminência de um apocalipse social, político e econômico, chefes de Estado e dirigentes da iniciativa privada trabalham além de suas fartas capacidades para salvar o que restou do nosso modelo econômico vigente. É nessa hora que descobrem a possibilidade de um "universo sustentável" para salvar suas peles e perpetuar os fracassos capitalistas para milhares de pessoas. Nos bastidores, o modelo econômico verde torna-se uma ideia a ser vendida, mas nunca praticada. O plano é implantá-la no imaginário popular e esperar que a boa fé das pessoas possa ser dobrada e redirecionada. A produção sustentável é transmitida como a salvação, mas na verdade está em função de uma mera assistência técnica ao modelo atual. Não há readequação do sistema, mudanças de paradigmas ou a concepção de novas estratégias. É mais do mesmo com mais mentiras. São tramas baseadas em espetáculos de ilusionismo e falta de bom senso que sempre serviram para esconder o que quer que seja mais democrático e inclusivo.
E o desenvolvimento sustentável pode sim ser uma solução viável e saudável. Ao contrário do que é transmitido pela velha mídia, os valores sustentáveis dizem respeito a conceitos, propostas e ideias que vão muito além da proteção da floresta amazônica e não dizem respeito à interrupção do progresso. Tratam-se, também, da ampliação da rede de respeito aos direitos humanos, fortalecendo o combate à homofobia, à discriminação racial, à violência contra a mulher, ao abuso infantil, ao trabalho escravo e a outros tipos de agressões contra o ser humano. Além disso, prevê soluções para o fim da fome, da pobreza e até da falta de moradias. O desenvolvimento sustentável não é uma opção de sobrevivência para o capitalismo, mas sim uma forma de transformar o mundo em um lugar menos injusto e mais democrático, permitindo a todas as pessoas o usufruto de seus recursos de maneira saudável e respeitadora. É uma das melhores bandeiras contemporâneas por promover a harmonia, acrescentando novos métodos para o desenvolvimento social, político e econômico. No entanto, estamos assistindo à concepção do "capitalismo verde", que produz explorando e explora desrespeitando.
Boa parte dos grandes empresários e chefes de países que enriquecem por meio do "esgotamento" dos recursos naturais e são responsáveis por transformações profundas na vida de milhares de cidadãos não perdem um minuto sequer da sua rotina para planejar "rotas" sustentáveis para a produção e exploração de suas empresas. Para essas pessoas, o desenvolvimento sustentável só seria de fato interessante a partir do momento em que acrescentasse uma perspectiva ainda mais lucrativa e pouquíssimo custosa, em qualquer etapa - o que é o pensamento comum da lógica do mercado, mas que tem sido ineficiente para o planeta. Os custos para a promoção de uma economia sustentável são altos e exigem a consciência coletiva em detrimento de alguns comportamentos corporativos recheados por uma cultura de mercado fisiológica e desgastante. Mesmo sem enfrentar crises, essas empresas não estão habituadas a remodelar seu funcionamento para dividir benefícios com o resto da sociedade. Portanto, a maioria dos acordos selados entre empresas e governos por futuros sustentáveis são propagandas para ganhar fama e ibope, que mais tarde poderão ser convertidos em lucro. O setor privado e os governos transam com a ideia de ser sustentável tempo o suficiente para satisfazer suas ambições e dividir falsas glórias com o público. Depois procura outro valor para que possa agregar, ganhar dinheiro e jogar fora.
Os valores estipulados para uma revolução verde só podem ser pagos por quem tem bolsos largos, fato. Não é qualquer governante que pode bancar todas as consequências financeiras de uma transição de modelo econômico e político (claro) da noite para o dia. São necessários caros investimentos em diversas áreas para começar a respirar os ares propostos pelo ideal sustentável. Sabe-se que hoje, o país não tem condições de direcionar bilhões para a implementação de novas tecnologias sustentáveis e reformas estruturais, correndo o risco de se o fizer arcar com sérios problemas econômicos, no futuro. Entretanto, algumas inovações poderiam dar início a um processo de mudança de postura. Afinal, o dinheiro cumpre uma etapa concreta, física, mas e mentalidade dos cidadãos e as ações do governo poderiam começar a abrir espaço, até que o problema fosse apenas financeiro.
Esses pequenos passos podem começar com reformas em setores desgastados pelo Estado, para o fortalecimento de novos valores. Isso para posicionar o país de fato contra o preconceito, a discriminação, a violência, a pobreza, a fome, a miséria, o desemprego, a corrupção, a degradação ambiental e outros problemas, colocando-o absolutamente a serviço da educação, da democracia, da justiça e do meio ambiente. Essas reformas são políticas, constitucionais, tributárias, sociais e já deveriam ter começado há tempos. O que o Brasil tem no bolso, hoje, é o suficiente para mudar o que está impregnado no abstrato da cultura nacional. Esse é o primeiro grande ato de um governo que deseja ser sustentável. O segundo é de inteira responsabilidade da sociedade, que precisa refletir mais sobre a condição do país, buscando aproximação com as dificuldades arrastadas por séculos e criando consciência. Consciência para conseguir conviver, respeitar e consumir com responsabilidade. Consciência para dizer não aos interessados apenas na exploração. Muda a sociedade, muda o governo e talvez possamos esperar uma reforma também nas tendências abusivas da iniciativa privada.
Sendo assim, passos curtos podem representar avanços consideráveis para toda a nação, criando espaços para a instalação real de uma modelo político e econômico sustentável. No Brasil, essa (re)evolução tem um custo físico, financeiro e um custo subjetivo, que pode ser até mais valioso. Nenhum investimento financeiro será o suficiente para um país que vive a beira de um colapso social e político. Esses defeitos consomem todo e qualquer recurso do país. A partir desse ponto é possível pensar em acordos entre governo, sociedade e empresas, em investimentos altos e transferências de tecnologia. Esse é o objetivo, o fim e não o meio, como o proposto no Rio de Janeiro, em junho desse ano.
Rafael Querrer é jornalista e repórter de política e economia
Comentários
3 comentários em "Ilusão verde"
Carlos Roberto 16.08.2012 às 11:46
O debate sobre o meio ambiente vive nos extremos. Quando uns aceitam destruir tudo em troca da modernidade, outros preferem uma economia em ruínas para se manter alguma área intocada. Belo Monte é o grande exemplo desse tipo de debate, onde todos querem opinar, desde atores até engenheiros. Porém, sinto que no debate em torno da nova hidrelétrica há, além da preservação do meio-ambiente e da necessidade de mais eletricidade para a indústria, interesses políticos e de poder, o que, ao meu ver, reforça a idéia de extremismos e faz os discursos ficarem mais pobres. Defensores do meio-ambiente e empresário, longe de líderes que querem apenas se tornar celebridades poderosas, precisam achar o equilíbrio entre a preservação da nossa flora e fauna, da nossa água e do nosso ar, com as necessidade de produção e de emprego. Só assim poderemos ser modernos de verdade e preservar de verdade.
Alex Mamed 15.08.2012 às 15:58
Proponho que esses malucos venham todos morara aqui no Amazonas, bem lá no meio do mato, em umareserva indígena, onde poderão viver do que a terra dá e nada de conforto ou vida moderna; terão que plantar sua comida (pois é, ela não nasce em supermercado) e beber água natural, sem tratamento; deverão viver tão somente do que a natureza lhes proporcionar. Aí sim, poderão vir falar de sustentabilidade. Os cretinos comemoram a safra recorde enquanto espetam os que acordam cedo para botar comida na mesa dos brasileiros.
gisele 14.08.2012 às 20:18