O Paraguai é um conjunto de horizontes de atravessadores sobrepostos. Levará cem anos para que ali as instituições se solidifiquem
O bruxo da abertura política, Golbery do Couto e Silva, em seu clássico ensaio "Sístoles e diástoles da política brasileira" já assinalava: a classe média recém-chegada a tal condição não perdoa nada ou ninguém. É a classe média que meteu um pé nos fundilhos de D. Pedro Segundo, quando instalada na condição de oficialato do exército. É a classe média que, no tenentismo, acabou com a política do café com leite na presidência. É, enfim, aquela classe média recém-instalada em sua condição que, referia Golbery, aproximava-se dos militares para fechar um poder civil por demais "esquerdizante", (movimento de 64) ou buscava apoio na elite política para abrir o poder militar auto-referente,inconstitucional (abertura de 85).
É essa nova classe média paraguaia que se aproximou das elites do país para exercerem, contra Lugo, o Primeiro Artigo da Constituição do Paraguai, que prevê em seu parágrafo primeiro "La garantia soy yo".
Esse arranjo é clássico das culturais corroídas por aquele tipo de cidadão a que Nietzsche chamava de "o homem alexandrino" : voltado para as querelas burocráticas, notarias, do dia dia -- e fazendo uso dos militares , agregados a elite fundiária. No caso, paraguaio,tivemos horizontes sobrepostos. O golpe foi vendido como legalíssimo. Mas, nos bastidores, o maior vilão, o chanceler argentino Hector Timermann, costurava por dentro, no Paraguai profundo, para a colocação, a posteriori, da Venezuela no Mercosul.
O Paraguai sempre foi "terra de ninguém", na frase do cunhado de Nietzsche, Bernard Foster. Não espanta que, como no Fitzcarraldo de Werner Herzog (1982), Foster levou a irmã de Nietzsche, Elisabeth, para o Paraguai, em 1887. Queria criar naquele "fim de mundo" uma "nova civilização", composta de "pioneiros nórdicos robustos e racialmente puros". Seria a primeira colônia ariana na América do Sul, a que Foster batizou de Nueva Germania. Após ter trapaceado colonos ao osso, endividado, Foster cometeu o suicídio. A irmã de Nietzsche teve de deixar o Paraguai às escondidas.
O Paraguai em essência é composto por essa elite notarial, weberianamente adptadora de meios a fins, sempre de olhos voltados para o óxido da rotina, para negociatas sem nota.
No século 19 um ilustre analista argentino, Juan Bautista Alberdi, antecipou Max Weber em 50 anos. Num discurso, em 1852, notou : "Respeito o altar de todas as crenças. A América espanhola, limitada ao catolicismo com exclusão de qualquer outra religião, assemelha-se a um solitário e silencioso convento de freiras... excluir outras religiões na América do Sul é excluir os ingleses, os alemães, os suíços, os americanos, ou seja, os povos de que este continente mais necessita. Trazê-los sem sua religião é trazê-los sem o agente que faz deles o que eles são".
O que veio para o Paraguai, de gentalha de fora, não necessitava de religião, como queria Alberdi: mas de educação moral e cívica, de ética pública.
O pior dos atravessadores do mercado ilegal invadiu o Paraguai e contaminou as elites que bocejavam toda a vez que ouviam o vocábulo democracia.
Lembre-se que em 1910, um barco partiu de Nova Orleans rumo a Honduras com o objetivo de instalar um novo presidente pela força, pois o governo daquele país não cortara nos impostos em favor da companhia. O novo presidente empossado permitiu que a empresa ficasse livre de pagar impostos aos EUAdurante 25 anos. O episódio fez com que O. Henry, humorista dos EUA, criasse num de seus contos curtos, chamado Cabbages and Kings, de 1904, o termo república das bananas.
O mélange Paraguaio tem ingredientes de tudo o exposto. O país é um conjunto de horizontes de atravessadores sobrepostos. Levará cem anos para que ali as instituições se solidifiquem.
Comentários
6 comentários em "La garantia soy yo"
João Carlos 3.07.2012 às 10:02
Diferente do Paraguai a cabeça do articulista é um amontoado de horizontes embaralhados.Trata-se de um atirador sem mira despejando munição para todo lado.E nós é que temos que deslindar essa barafunda?
Afonso 1.07.2012 às 15:47
Pô seu Tognoli...perdeu a chance de ficar calado hein? A classe média sempre foi capacho das elites. Cada hora ela faz o jogo que agrada algum setor da elite. Vá ler e estudar um pouco...
Vicente Lino. 30.06.2012 às 20:08
Imaginava que só o Artucch escrevesse bobagens. Nunca se viu tanto pedantismo. Tentou ser erudito, não conseguiu. Tentou parecer inteligente, não conseguiu. Conseguiu ser, apenas, risível. Concordo que com articulistas como esse, a escrever sobre o Paraguai, coitado daquele País. Sr. Rolando-Lero. Discuta, sem contorcionismos sub-literarios o que, de fato, aconteceu naquele País.
Luis Santos 30.06.2012 às 15:38
Uma descrição mais precisa e exata do que esta sobre o que é verdadeiramente o malogrado Paraguai, só mesmo fazendo uma radiografia. Absolutamente perfeito!
Eduardo 30.06.2012 às 14:19
A maior concentração de besteiras rebuscadas por parágrafo quadrado que eu já li...
gisele 30.06.2012 às 14:19