Os recentes incidentes envolvendo a visita ao Brasil da blogueira cubana Yoani Sánchez foram também uma oportunidade perdida para debater o argumento de que a ditadura "de esquerda" seria o inevitável preço a pagar pelos grandes "avanços sociais"
Os recentes incidentes envolvendo a visita ao Brasil da blogueira cubana Yoani Sánchez, hostilizada por turbas agressivas da "Solidariedade com Cuba", foram também uma oportunidade perdida para debater o argumento de que a ditadura "de esquerda" seria o inevitável preço a pagar pelos grandes "avanços sociais".
É comum escutarmos que as restrições à liberdade de expressão e de imprensa, a ausência de eleições livres, de pluralismo político ou de alternância no poder, passado mais de meio século da revolução cubana, se justificam por suas conquistas na educação e na saúde e pela ausência de fome e miséria absoluta na ilha. O argumento jamais se sustentou na comparação com outra revolução que a precedeu em 11 anos: a da Costa Rica, de 1948, que obteve notáveis avanços em educação e saúde e garantiu um padrão de vida muito mais elevado, sem o sacrifício das liberdades, do pluralismo, do respeito aos direitos humanos e de um Judiciário independente.
Hoje a maioria da população costa-riquenha é de classe média, seu salário mínimo é 15 vezes maior que o de Cuba, seu produto interno bruto (PIB) e a sua renda per capita são os mais altos da região. Há três vezes menos suicídios do que em Cuba. A Costa Rica tem políticas ambientais e ecoturismo de referência internacional e ambiciona tornar-se o primeiro país carbono neutro do mundo.
A revolução de 1948, liderada por José María Figueres Ferrer, conhecido como Don Pepe Figueres, derrubou o regime oligárquico do presidente Teodoro Picado e do seu mentor político Rafael Calderón Guardia, que fraudavam sistematicamente as eleições, como na nossa República Velha. Foi desencadeada em reação a um "autogolpe" - queimaram as listas com os resultados eleitorais, privando da vitória o candidato progressista Otilio Ulate, e assassinaram um dos líderes oposicionistas, Carlos Luis Valverde. Detalhe curioso: o pequeno partido comunista local, o Partido Vanguardia Popular (PVP), apoiava ativamente o regime oligárquico.
A desmobilização de suas milícias, em troca da garantia dos direitos sindicais e da sua legalidade, acertada numa dramática negociação entre o secretário-geral do PVP, Manuel Mora, e José Figueres, na floresta de Ochomogo, foi decisiva para a relativamente incruenta vitória da revolução após 40 dias de combates.
A junta revolucionária, liderada por Don Pepe, nacionalizou os bancos para democratizar o crédito - até então exclusividade da burguesia compradora (importadora) -, permitindo desenvolver a agricultura e a indústria. Investiu obsessivamente na educação, instituiu a autonomia do Judiciário. Dissolveu seu próprio exército revolucionário depois de uma tentativa de golpe do então ministro da Defesa, Edgard Cardona, inconformado com o tratamento leniente dado por Figueres aos comunistas. Isso não o impediu de derrotar, com o povo em armas, uma invasão do ditador Anastasio "Tacho" Somoza (pai), da Nicarágua, onde se haviam exilado Picado e Calderón.
Ao final de 18 meses, Figueres entregou o governo a Otilio Ulate, legitimamente eleito nas eleições "meladas" do ano anterior, apesar de notórias divergências entre ambos. Voltou à sua Fazenda La Lucha sin Fin, onde ficou até 1953, quando disputou democraticamente e foi eleito presidente.
Cercada de ditaduras por todos os lados até anos recentes, a Costa Rica jamais deixou de promover eleições livres a cada quatro anos. Poderia ter sido assim em Cuba 11 anos mais tarde?
Don Pepe apoiou Fidel Castro com dinheiro e armas. Foram amigos, mas romperam quando Fidel se aliou ao bloco soviético. O contexto da guerra fria - em 1948, nos primórdios, em 1960, no apogeu -, com uma quase imediata hostilidade norte-americana à revolução cubana, fez a diferença, bem como a personalidade de Fidel.
Entre os líderes das duas revoluções ressaltam diferenças de idade, origem social e experiência de vida: Don Pepe, filho de um modesto médico catalão, era pequeno fazendeiro, tinha 42 anos ao liderar sua revolução. Conhecia bem os Estados Unidos, onde estudara. Sua primeira esposa, Henrietta Boggs, era americana. Ele sabia explorar com habilidade as contradições internas em Washington e nunca quis aliar-se à URSS, embora tenha nacionalizado a United Fruit, o flagelo das Repúblicas bananeiras. Fidel, filho de um grande latifundiário de origem galega, era universitário quando chefiou o assalto ao quartel de Moncada. Depois conheceu apenas a prisão, o exílio e Sierra Maestra. Don Pepe era de ouvir, negociar e pactuar. Fidel nasceu para mandar e ser obedecido.
Com pouco sangue e sem paredón, a revolução de 1948 não figura no panteão histórico-jornalístico. É praticamente desconhecida, ao contrário das revoluções trágicas ou das derrotas heroicas dos mártires, não importa quão patéticos ou desavisados. Uma revolução com final feliz, um país que há 65 anos "caiu numa democracia", para nela permanecer até hoje, um líder revolucionário que resolveu abrir mão do poder para depois disputar eleições livres, em 1953 e 1970, são decididamente indignos do rol de eventos e personagens históricos de primeira linha...
Don Pepe Figueres, que gostava de se definir como "socialista utópico", nunca cultivou o "Patria o Muerte" ou outro necrófilo brado retumbante do gênero. Seus compatriotas, los ticos - os costa-riquenhos - pacíficos e cosmopolitas, são, com toda a probabilidade, mais felizes. No entanto, a felicidade - gota de orvalho numa pétala de flor -, pelo visto, não é um indicador relevante no fazer História do nosso tempo.
Essa pacata democracia sexagenária, ainda que em terra de tantos vulcões, não evoca o menor romantismo, não vale sequer uma camiseta ou boina negra com estrelinha vermelha. Mas constitui intenso objeto de desejo na "geração Y", de Yoani Sánchez, dos filhos daquela outra revolução, a tão exaltada em prosa e verso.
Artigo publicado originalmente no jornal O Estado de S.Paulo
Comentários
16 comentários em "Duas revoluções, dois destinos"
Vicente Lino. 6.03.2013 às 16:54
Parabens ao Alfredo Sirkis. Enfim um texto lúcido por aqui. Sem ideologia barata, sem defesa dos condenados, sem ataques aos governos anteriores sem a tentativa de transformar o Lula no próximo Papa. Um alívio! Volte Sempre Alfredo!
wsobrinho 6.03.2013 às 12:11
Nem esquerdopata nem direitopata como muitos aqui. Esquece que a Costa Rica nunca representou mais que um parque ecológico para os EUA, assim como o adorado Panamá, que hoje não passa de um bordel dos EUA. é muito fácil tecer loas e troas a países pequeno, onde qualquer bilhão americano equilibra a renda e transforma em classe média a maior parte da população. Cuba é muito maior que Costa Rica e passou por uma intervenção sangrenta e descarada dos EUA, em uma outra época, em que a alternativa era cair nos braços da antiga URSS. Se os EUA quisessem mesmo assegurar as liberdades para o povo cubano, bastava suspender o embargo que rapidamente se deteriorariam as condições para o regime cubano, mas não têm o menor interesse nisso, e sim em alimentar um status quo muito vantajoso para a elite cubana de Miami, aliada da direita americana.
Salomon Weetabix 5.03.2013 às 18:05
Puxa, finalmente um texto lúcido nesse blog. Parabéns, e obrigado.
Caçador de Rocinantes 5.03.2013 às 11:09
Parabéns ao Sirkis, acertou na veia. Os coiceiros e relinchantes ficaram todos na muda. Como não podem usar o velho mantra de desacreditar o articulista, como é o hábito, já que Sirkis é da esquerda, fazem ar de paisagem.
João do Rio 4.03.2013 às 23:05
Oh Sirkis, pare de falar de política neoliberal disfarçada e faz alguma coisa pra impedir esse movimento sórdido oculto de aniquilamento de árvores no Rio de Janeiro, figueiras centenárias dizimadas e outras, sem contar o holocausto feito no trecho da reta da via dutra perto de Resende/RJ. Tenho certeza que esses cortes sistemáticos de árvores na cidade é para deixa mais quente e aumentar a venda aparelho de ar concidonados que são, hoje, todos multinacionais. E, também, facilitar a espionagem dos EUA por imagens de satélites e google estreet. Aliás, nao confio nesse partido verde.
Luciano 4.03.2013 às 20:04
Não conheço a medicina cubana mas acredito que não seja de qualidade, o que lá pode haver é um bom sistema de saúde. Medicina de ponta implica em alto investimento financeiro, e Cuba é quase tão pobre quanto o Haiti. Aparelhos e medicamentos de última geração, custam dinheiro que só o capitalismo é capaz de proporcionar.
Luciano 4.03.2013 às 19:53
Numa ditadura totalitária como a cubana mão existe educação, o que pode existir é instrução. Educação implica em liberdade para se pensar, questionar e contestar, o que não é o caso de Cuba.
Luciano 4.03.2013 às 19:43
Excelente artigo. Fico feliz que e senhor Sirkis tenha abandonado aquelelas idéias esquerdisdas dos anos 60 quando integrou o famigerado grupo armado ALN do terrorista fanático chamado Carlos Lamarca. A Costa rica é realmente um exemplo de que só se pode ser uma grande nação pela via democrática.
Claret 4.03.2013 às 16:53
Pior que a mentira é a meia verdade, já alcançadas estas maravilhas em Cuba, porque não a liberdade também? Inclusive seria uma ótima oportunidade para que estas maravilhas alcançadas em 60 anos de Ditadura familiar comunista se tornassem uma verdade inteira, uma vez comprovada com a transparência da Democracia. Bases Norte Americanas existem na Alemanha, Itália, Coréia do Sul, e nem por isto seriam "lacaios dos EUA". Acorda , meu caro, e preste mais atenção ao texto do Alfredo.
Kojak 4.03.2013 às 14:50
E claro, nenhuma é costarriquenha... rsrsrs