Seu e-mail é privado? Se você acha que sim, melhor mudar de ideia

“Parece-me claro que estamos sendo observados tanto pelos governos quanto pelas corporações, e não podemos permanecer sentados à margem desse processo. A privacidade é demasiado importante para a democracia”- Andy Yen, cientista nuclear.

“Parece-me claro que estamos sendo observados tanto pelos governos quanto pelas corporações, e não podemos permanecer sentados à margem desse processo. A privacidade é demasiado importante para a democracia”- Andy Yen, cientista nuclear.
“Parece-me claro que estamos sendo observados tanto pelos governos quanto pelas corporações, e não podemos permanecer sentados à margem desse processo. A privacidade é demasiado importante para a democracia”- Andy Yen, cientista nuclear. (Foto: Gisele Federicce)


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Vídeo: TED – Ideas Worth Spreading

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Tradução: Gislene Kucker Arantes. Revisão: Ruy Lopes Pereira 

 

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Andy Yen é um cientista do CERN - Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear. Com dois colegas, Wei Sun e Jason Stockman, ele co-fundou o ProtonMail, um inicializador (startup) de email criptografado, com sede em Genebra, Suíça, cujo objetivo é tornar seguro o acesso às mensagens por email. O grupo quer incrementar a segurança na internet e promover a privacidade online tornando possível a todos incorporar algum sistema de criptografia na sua comunicação no dia-a-dia.

 

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Andy Yen, co-fundador da ProtonMail



Físico e economista, Andy tem participado do Atlas Experiment, no CERN, focando sua pesquisa no setor das partículas supersimétricas. Ele está vertendo sua experiência para a computação de larga escala com o objetivo de construir a infraestrutura que é usada para fazer funcionar o ProtonMail.

“Parece-me claro que estamos sendo observados tanto pelos governos quanto pelas corporações, e não podemos permanecer sentados à margem desse processo. A privacidade é demasiado importante para a democracia. Somos cientistas da computação, e podemos fazer alguma coisa nesse sentido. E decidimos tentar”, diz Andy Yen.

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Vídeo:

 

 

Tradução integral da palestra de Andy Yen no TED:

 

Há 25 anos, cientistas da CERN criaram a "World Wide Web". Deste então, a internet tem transformado o modo como nos comunicamos, o modo como fazemos negócios e até mesmo o modo como vivemos. De muitas formas, as ideias que deram origem ao Google, Facebook, Twitter e muitos outros transformaram nossas vidas de verdade, e isso nos trouxe muitos benefícios reais como uma sociedade mais conectada. Entretanto, existem também alguns inconvenientes. Hoje em dia, a pessoa comum tem uma quantidade surpreendente de informações pessoais online, e aumentamos isso cada vez que postamos no Facebook, cada vez que fazemos pesquisa no Google, e cada vez que enviamos um e-mail.

Muitos de nós provavelmente imaginam, bem, um e-mail, não é nada, certo? Mas se considerarem um ano de e-mails, ou talvez uma vida inteira de e-mails, coletivamente, isto conta demais. Conta onde estivemos, com quem nos encontramos, e em diversas maneiras, até mesmo o que estávamos pensando. E a parte mais assustadora é que os dados duram para sempre, de modo que seus dados certamente sobreviverão a vocês. O que aconteceu foi que perdemos muito o controle sobre os nossos dados e também nossa privacidade.

Neste ano, em que a web faz 25 anos, é muito importante que paremos um momento e pensemos nas implicações disso. Temos que pensar muito bem. Perdemos a privacidade, sim. Mas, na verdade, perdemos também a ideia do que seja privacidade. Se refletirem a respeito, muitos de nós provavelmente se lembram de como era a vida antes da internet, mas hoje, há uma nova geração que foi ensinada desde muito cedo a compartilhar tudo online, e esta geração não vai se lembrar de quando os dados eram privados. Ao continuarmos assim, daqui a 20 anos, a palavra 'privacidade' terá um significado muito diferente para mim e para vocês.

Então é hora de pararmos e pensarmos, podemos fazer algo a respeito? Acredito que sim.

 

Co-fundadores da ProtonMail, da esquerda para a direita, Jason Stockman, Wei Sun, Andy Yen

 

Vamos ver uma das formas de comunicação mais usadas no mundo hoje: e-mail. Antes da invenção do e-mail, nos comunicávamos por cartas, e o processo era muito simples. Primeiro escrevíamos a mensagem em um pedaço de papel, e este era colocado dentro de um envelope lacrado e então o enviávamos depois de colocar o selo e o endereço. Infelizmente, hoje quando enviamos um e-mail, não estamos enviando uma carta. Na verdade, o que enviamos é um cartão postal, e é um cartão postal, no sentido que, todo mundo que o vê, desde quando saiu do seu computador até chegar ao receptor, pode ler o conteúdo inteiro.

Então, a solução para isso é conhecida há tempo, e há muitas tentativas para isso. A solução mais básica é usar criptografia, e a ideia é bem simples. Primeiro, criptografa-se a conexão entre o seu computador e o servidor de e-mail. Então, criptografam-se os dados que ficam no servidor. Mas aí reside um problema, os servidores de e-mail também retêm as chaves de criptografia, então agora vocês têm uma grande fechadura com uma chave bem ao lado. Além disso, qualquer governo pode legalmente requisitar e conseguir a chave para seus dados, e isso tudo sem vocês saberem.

Como vamos resolver esse problema é relativamente fácil, em princípio: deem a todos suas próprias chaves, e então garantam que o servidor não tenha as chaves. Parece bom senso, não? A pergunta que se faz é, por que isso ainda não foi feito?

 

 

Se pensarmos bem, percebemos que o modelo de negócios da internet hoje é incompatível com a privacidade. Vejam alguns dos maiores nomes da web, e vão notar que a propaganda desempenha um importante papel. Na verdade, somente neste ano, a propaganda foi de US$ 137 bilhões, e para otimizar os anúncios mostrados a nós, as empresas precisam saber tudo sobre nós. Precisam saber onde vivemos, nossa idade, o que curtimos, o que não curtimos, e tudo mais que eles possam ter acesso. E se pensarem bem, a melhor maneira de conseguir essas informações é justamente invadindo nossa privacidade. Portanto, essas empresas não vão nos dar a privacidade. Se quisermos ter privacidade on-line, teremos que ir atrás e conseguir nós mesmos.

Por muitos anos, em relação ao e-mail, a única solução era algo conhecido como PGP, que era muito complicado e acessível somente aos especialistas. Aqui está um diagrama que mostra basicamente o processo de criptografar e decriptografar mensagens. É desnecessário dizer que não é uma solução para todos, e, na verdade, é parte do problema, porque pensar em comunicação, por definição, envolve ter alguém com quem se comunicar. Apesar do PGP fazer um grande trabalho para o qual foi projetado, para as pessoas em geral que não entendem como usá-lo, a opção de se comunicar de modo privado simplesmente não existe. E esse é um problema que precisamos solucionar. Se quisermos ter privacidade on-line, a única maneira de termos sucesso é ter apoio do mundo todo, e isso só é possível se retirarmos a barreira de entrada. Acho que é o desafio chave para a comunidade tecnológica. O que temos que fazer é trabalhar e tornar a privacidade mais acessível.

 

 

No verão passado, quando a história do Edward Snowden veio à tona, vários colegas e eu decidimos ver se podíamos fazer isso acontecer. Naquele momento, estávamos trabalhando na Organização Europeia para Pesquisa Nuclear no grande colisor de partículas, que colide prótons. Éramos todos cientistas, então usamos a nossa criatividade científica e arranjamos um nome muito criativo para o projeto: ProtonMail. (Risos) Muitos "startups" começam nas garagens ou nos porões das pessoas. Fomos um pouco diferentes. Começamos no refeitório do CERN, o que é legal, porque vejam bem, vocês têm comida e água à vontade. Mas melhor do que isso é que todo dia entre as 12 h e 14 h, de graça, o refeitório se enche de milhares de cientistas e engenheiros, e esses caras têm resposta para tudo. Foi nesse ambiente que começamos a trabalhar. O que queríamos fazer é pegar seu email e torná-lo algo que se parece com isso, mas o mais importante, queríamos fazê-lo de um jeito que vocês nem percebessem que isso acontece. Para isso, precisamos de uma combinação de tecnologia e design.

Então como chegamos a isso? Bem, provavelmente, é uma boa ideia não deixar as chaves no servidor. O que fazemos é gerar chaves criptografadas no seu computador, e não geramos uma única chave, mas na verdade um par delas, então há uma chave privada RSA e uma chave pública RSA, e essas chaves estão matematicamente conectadas.

 

 

Vamos dar uma olhada e ver como funciona quando várias pessoas se comunicam. Aqui temos Bob e Alice, que querem se comunicar de modo privado. O desafio maior é levar a mensagem de Bob a Alice de modo que o servidor não possa ler a mensagem. O que temos que fazer é criptografá-la antes que saia do computador de Bob, e um dos truques é criptografá-la usando a chave pública de Alice. Agora esses dados criptografados são enviados, pelo servidor, a Alice, e porque a mensagem foi criptografada usando a chave pública da Alice, a única chave que pode decriptografá-la é a chave privada que pertence a Alice, e a Alice é a única pessoa que, na verdade, tem esta chave. Assim agora atingimos o objetivo, que é levar a mensagem do Bob para Alice sem que o servidor pudesse ler o que ali estava.

Na verdade, o que mostro aqui é uma imagem bem simplificada. A realidade é muito mais complexa e requer um monte de softwares que parecem um pouco com isso. E este é o desafio do projeto da chave: como levamos toda essa complexidade, todo esse software, e implementamos tudo de modo que o usuário não possa ver. Eu penso que com ProtonMail chegamos bem perto disso.

Vamos ver como isso funciona na prática. Aqui temos de novo Bob e Alice que querem se comunicar com segurança. Eles criam contas no ProtonMail, que é muito simples e leva alguns minutos, e toda a criptografia e geração de chaves acontece automaticamente em segundo plano no momento em que Bob cria sua conta. Assim que a conta dele é criada, ele clica "compor", e agora ele pode escrever seu e-mail como ele faz hoje. Então ele introduz sua informação, e após isso, tudo que ele precisa fazer é clicar em "enviar", e deste modo, sem entender de criptografia, e sem fazer nada diferente de como ele escreve e-mail hoje, Bob enviou uma mensagem criptografada.

 

 

O que temos aqui é apenas o primeiro passo, mas mostra que com uma tecnologia aperfeiçoada, a privacidade não precisa ser difícil, não precisa ser perturbadora. Ao mudar o objetivo de maximizar os lucros de anúncios para proteção de dados, podemos fazê-lo de modo acessível. Agora, sei que uma pergunta está na cabeça de todos: certo, proteger a privacidade é um grande objetivo, mas pode ser feito sem todo o dinheiro que os anúncios dão? E acho que a resposta é sim, porque hoje, chegamos a um ponto em que as pessoas no mundo entendem de verdade a importância da privacidade, e quando vocês a têm, tudo é possível. No início deste ano, ProtonMail tinha tantos usuários que ficamos sem recursos, e quando isso aconteceu, nossa comunidade de usuários se uniu e doou US$ 500 mil. Isso é apenas um exemplo do que pode acontecer quando uma comunidade se une para um objetivo comum. Também podemos influenciar o mundo. Neste momento, temos 250 mil pessoas que usam o ProtonMail. Essas pessoas são de vários lugares, e isso mostra que privacidade não é apenas uma questão americana ou europeia, é uma preocupação mundial com efeito em todos nós. É algo que temos que prestar muita atenção ao darmos continuação.

O que temos que fazer para solucionar o problema? Bem, antes de tudo, precisamos estimular um outro modelo comercial para a internet, um que não se apoie somente em anúncios como receita e crescimento. Na verdade, temos que construir uma nova internet, onde privacidade e capacidade de controlar nossos dados vêm antes de tudo. Mas o mais importante, temos que construir uma internet onde privacidade não seja apenas uma opção mas seja também padrão.

Demos o primeiro passo com ProtonMail, mas é apenas o primeiro passo de uma longa jornada. Posso compartilhar uma boa nova com vocês hoje, a excelente notícia é que não estamos sós. O movimento de proteção à privacidade e à liberdade on-line está ganhando fôlego, e hoje existem muitos projetos do mundo inteiro que trabalham em conjunto para melhorar a privacidade. Esses projetos protegem desde o chat à comunicação por voz, armazenamento de arquivos, busca on-line, navegação e muito mais. E esses projetos não são patrocinados por bilhões de dólares de propaganda, mas têm o apoio das pessoas, de indivíduos como eu e você do mundo todo.

Isto importa, pois em última instância, a privacidade depende de cada um de nós, e temos que protegê-la agora, porque nossos dados on-line são mais do que uma coleção de uns e zeros. Na verdade, são bem mais do que isso. São nossas vidas, nossas histórias pessoais, nossos amigos, nossa família, e em vários aspectos, também nossas esperanças e aspirações. Precisamos nos dedicar agora para proteger nosso direito de compartilhar apenas com as pessoas que queremos, porque sem isso, não podemos ter uma sociedade livre. Agora é a hora de nós em conjunto levantarmos e dizermos: "Sim, queremos viver em um mundo com privacidade on-line, e sim, podemos trabalhar juntos para tornar essa visão uma realidade".

Obrigado.

 

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