A ideia de que existe um sistema privado capaz de servir de referência de eficiência em relação ao SUS foi progressivamente se deteriorando
Falar da precariedade do sistema público de saúde no Brasil é rotina entre a população. Muitas vezes, o foco preferencial das críticas dado ao Sistema Único de Saúde, volta-se, e com muita razão, ao sistema privado de saúde, onde filas, falta de médicos e mau atendimento são problemas rotineiros.A ideia de que existe um sistema privado capaz de servir, inclusive, de referência de eficiência, em relação ao SUS foi progressivamente se deteriorando.
Em Brasília, a má reputação do sistema privado e a ocorrência de mortes por ausência de atendimento ou falta dos cuidados necessários em pacientes internados tem gerado a desconfiança do público. Muitos preferem se deslocar a São Paulo para fazer tratamentos de saúde ou até mesmo simples check ups médicos. Os donos dos hospitais de Brasília deveriam se perguntar porque isso acontece.
Apesar da decisão do STF proibindo a exigência de cheques caução para o atendimento médico, muitas clínicas particulares continuam com esta prática nefasta, desafiando a fiscalização e os princípios humanitários mais primários. Denúncias a respeito estão diariamente nos jornais, rádios, tevês e mídias sociais na internet.
Em fevereiro deste ano, um caso de suposto erro médico chamou atenção do Distrito Federal: Marcelo Dino, de 14 anos, morreu no hospital Santa Lúcia, na Asa Sul, após ter sido internado no dia anterior devido a uma crise de asma. Desde então, o pai do garoto, o presidente da Embratur, Flávio Dino, luta para esclarecer as circunstâncias da morte do filho e ao mesmo tempo usar o episódio como forma de chamar atenção para a necessidade de maior controle externo do padrão de qualidade dos hospitais e clínicas do Brasil.
Transformou seu sofrimento em proposta concreta e merecedora de aplausos no sentido de poupar vidas. Dino oficializou um pedido ao CNJ (Conselho Nacional de Justiça) para que lidere uma campanha nos tribunais pela criação de varas especializadas em saúde, assim como já existem varas e juizados de trânsito, da mulher, da criança e do adolescente, do meio ambiente, etc.
Temos hoje mais de 250 mil processos tramitando na Justiça sobre saúde. Se você é vítima de mau atendimento a quem deve recorrer? À polícia? ao Procon, como quando temos um celular ou uma geladeira na garantia que não funciona ? Não se trata disso.Você está na fronteira entre a vida e a morte, ali, precisando de um atendimento e não tem a quem recorrer.
O esforço feito por muitos brasileiros para pagar um plano de saúde não pode ser retribuído com má qualidade em assistência de saúde. Com a ampliação da nova classe C, mais pessoas puderam comprar planos de saúde. Apesar de positivo o fato fez com que as carências do sistema privado ficassem mais evidentes. Hoje temos praticamente uma equiparação do sistema público com o privado em ambos os sentidos.
Nos dois existem instituições de excelência, de referência mundial, que inclusive são orgulho para o povo brasileiro. Tanto no público como no privado, temos instituições que não cumprem seus deveres básicos de garantir que danos não sejam produzidos nos pacientes e que no caso de mortes evitáveis, elas não ocorram.
É necessário mudar o modo como essas redes privadas se organizam. Combater a desumanização, a mercantilização, o tratamento da morte apenas como estatística. O ser humano é mais que isso e merece respeito. Não podemos pagar por um plano de saúde durante anos e ao chegar ao hospital, como aconteceu outro dia comigo no Hospital Anchieta, em Taguatinga, ser informado que naquele dia não havia médico cardiologista para atender minha esposa numa crise de pressão alta.
A esse respeito entrei com pedido de punição exemplar junto a Agência Nacional de Saúde - ANS. E me pergunto se trará resultados. Ao contrário de outras agências reguladoras como a ANEEL que aplica altas multas aos infratores da área de energia elétrica, não temos conhecimento de punições por parte da ANS a respeito dos inúmeros casos de mau atendimento de pacientes pelo sistema privado de saúde em Brasília.
E o que é pior é que em muitos destes casos os hospitais responsáveis faltam à etica médica e depois tentam esconder a verdade dos fatos sobre mortes ocorridas em suas dependências. Como é possível que uma UTI pediátrica fique entregue a apenas a uma auxiliar de enfermagem, que segundo o presidente da Embratur, foi o que ocorreu quando seu filho morreu no Hospital Santa Lúcia após 10 minutos em crise respiratória aguda, um dia após entrar no hospital ?Quando a médica e os equipamentos necessários para socorre-lo chegaram já era tarde demais.
Nunca vi o Conselho Regional de Medicina se posicionar a respeito do mau atendimento em hospitais privados, mas estão sempre prontos para criticar o sistema público de saúde, e fechar Unidades de Pronto Atendimento - UPAs, como ocorreu há dois meses, em Samambaia.
O proprietário do Santa Lúcia e do hospital Anchieta, o senhor José do Patrocínio Lea,l exerce o monopólio sobre a saúde de Brasília, sendo dono de outros quatro hospitais e clínicas no DF. Mesmo assim trabalha com funcionários terceirizados, o que é considerado ilícito por súmula do TST, em dupla ou tripla jornada e em número insuficiente.
Nós somos a sexta economia do mundo, então o sistema público pode funcionar melhor. Estamos lutando pra isso. E o sistema privado que não depende de recursos públicos por que não funciona melhor? Não tem lucro? É lógico que tem, basta olhar a constante ampliação dos prédios, a lucratividade dos planos de saúde. Os maiores planos de saúde estão entre as maiores empresas do Brasil. Então não é falta de dinheiro, é falta de gestão e compromisso humanitário, acima de tudo. Isso tem que mudar !
Chico Vigilante é deputado e íder da bancada PT/PRB
Comentários
5 comentários em "A ineficiência dos serviços privados de saúde"
JC GONÇALVES 14.07.2012 às 17:45
O deputado aponta erros e ineficiência no sistema publico de saúde e no sistema privado .Vamos tocar em um ponto importante , o problema é de gestão ou financeiro ? Administrar a saúde publica no Brasil é muito complexa , interesses dos mais variados se avoluman quando alguém propõe ou sugere maneiras de amenizar . Os primeiros a bloquearem essas atitudes são exatamente os políticos , pois tem medo que o problema seje resolvido .
Aliberto Amaral 14.07.2012 às 15:55
O artigo do Sr.Vigilante ta igual outro dele na edicao de hoje do Jornal da Comunidade. Conhecido como Chico Gambiarra falando sobre as perdas q a CEB tem com as ligacoes clandestinas. N eh brincadeira,nao. Eh verdade!!! Eh a mesma coisa esse seu artigo sobre a falencia do setor privado da saude. A eficiencia da gestao dos hospitais publicos do GDF eh o carro chefe do grande gov.AQueiroz. Ninguem merece!!!! Aliberto
RBC 13.07.2012 às 22:05
Acho que o problema está nos hospitais de Brasília. Vigilante critica os planos de saúde, mas de forma conveniente poupa o péssimo SUS governamental. Pelo SUS é que não se consegue NADA, mesmo. E vejam bem, eu não critico o PT por isso. O sistema de saúde pública NUNCA prestou no Brasil. Não é culpa do PT, nem PSDB, mas de PESSOAS ineptas que sempre comandaram esse sistema, aliado à falta de prioridade dos governos para isso. O plano de saúde é ruim? É. Mas sem ele, aí é que estamos perdidos mesmo. Por sinal, aqui no Rio funciona bem, fiz exames de última geração pela UNIMED, e não tenho do que me queixar.
Gilda Borga 13.07.2012 às 12:34
O sistema público é que deveria ser um exemplo, mas é um descalabro. Médicos e professores,tanto do sistema público quanto do privado, ganham uma miséria, mas sobra dinheiro para ser desviado. E, no entanto, os petistas continuam dizendo que estáo em defesa do povo. Por que os hospitais do DF estão caindo aos pedaços? Como petista, por que o senhor não critica seu colega de partido, o Governador?
gisele 13.07.2012 às 12:00