Fora, todos

Não há disposição real de enfrentar e superar a crise, nem de combater efetivamente a corrupção



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O presidente da Câmara, eleito por seus pares por expressiva maioria, é um dos melhores exemplos do que há de pior na política brasileira.

"Que se vayan todos!". É assim que os argentinos diziam aos políticos diante da enorme crise no início deste século. A expressão foi repetida em diversas outras ocasiões, em vários países, e assim também os indignados da Espanha se manifestavam contra os políticos tradicionais que, no momento em que o país enfrentava enorme crise econômica, financeira e social, mantinham suas velhas práticas imorais e corruptas e se lixavam para o sofrimento do povo. Pelo contrário: de tudo faziam para manter os privilégios e ganhos deles próprios e dos mais ricos.

Os políticos tradicionais da Espanha não se foram todos, como deveriam ter ido, mas houve inegáveis mudanças naquele país. E para dar um sentido concreto ao movimento, os indignados se organizaram em um partido diferente e distante das práticas dos partidos tradicionais, o Podemos. Esse novo partido rompeu com o histórico bipartidarismo e ganhou importantes espaços políticos nas últimas eleições.

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Na Grécia, em meio à gigantesca crise, o Syriza surgiu como reação popular aos que insistiam em enfrentá-la com instrumentos neoliberais. O Syriza não acabou com a crise, nem consegue enfrentá-la como desejaria, mas mostrou que é possível superar a velha política por novos métodos e com mais compromisso com a população. É um passo importante para as mudanças necessárias.

Nem o Podemos, nem o Syriza, nem qualquer outra formação política vai colocar tudo de cabeça para baixo de um dia para outro, ainda mais em tempos de crise brava, que não assola apenas uma cidade, um estado ou um país, mas que é generalizada. E crise não se enfrenta só com discursos e intenções, mas com medidas que nem sempre são as desejáveis e as que seriam tomadas em épocas mais tranquilas.

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A crise brasileira está acompanhada de denúncias de corrupção que atingem principalmente o PT e partidos aliados, além, claro, de empresários e executivos de algumas das maiores empresas do país. Mas qualquer pessoa minimamente informada sabe que se mais investigação houvesse, mais gente seria acusada: de quase todos os demais partidos, incluindo os que se fazem de acusadores, e de muito mais empresários e executivos.

E o que os políticos fazem para superar essa situação? Fazem discursos vazios e demagógicos, procuram desviar as atenções com propostas conservadoras e retrógradas, criam CPIs para achacar e por aí vai. Não há disposição real de enfrentar e superar a crise, nem de combater efetivamente a corrupção. A "reforma política" que o Congresso está votando é uma demonstração disso: o único objetivo é beneficiar os que já estão no poder e continuar tudo como está.

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Não é preciso muito para demonstrar o baixíssimo nível da política brasileira: basta ver quem esses políticos elegeram para presidir a Câmara e o Senado e a maioria dos legislativos estaduais. O presidente da Câmara, eleito por seus pares por expressiva maioria, é um dos melhores exemplos do que há de pior na política brasileira: corrupção, oportunismo, arrogância, autoritarismo, conservadorismo, demagogia e chantagem. Fora o fundamentalismo religioso que mais parece biombo para encobrir os pecados.

Essa triste figura -- como todos os demais acusados, justa ou injustamente, de corrupção -- deveria se afastar do cargo que exerce até a conclusão das investigações. Esse tinha de ser o procedimento padrão, para preservar as instituições e a eficácia e imparcialidade das investigações.

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Mas não é assim, e Eduardo Cunha não só continua presidente da Câmara como faz ameaças e tenta intimidar os que o acusam.

Na verdade, ele está sendo coerente com o baixo nível dos políticos brasileiros. O jeito, para os que querem mesmo dar um jeito, é traduzir para o português: que se vayan todos! Fora, todos. Aí será possível reconstruir o Brasil. Vai demorar, mas tem de começar.

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