Nosso mal reside no apetite, na competitividade e no egoísmo

Escolhemos esse tipo de sociedade, protótipo de civilização, modelo de vida... e reclamamos?! Ora, somos a cultura do "ter", tão mais relevante que "ser"

Escolhemos esse tipo de sociedade, protótipo de civilização, modelo de vida... e reclamamos?! Ora, somos a cultura do "ter", tão mais relevante que "ser"
Escolhemos esse tipo de sociedade, protótipo de civilização, modelo de vida... e reclamamos?! Ora, somos a cultura do "ter", tão mais relevante que "ser" (Foto: Marconi Moura de Lima Burum)


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Este texto começa com a sensação que merece ser compartilhada a partir da fala de uma amiga, cuja homenagem por sua nobreza humana (desses raros supersensitivos) não caberia nas várias notas de rodapé do trabalho que se segue.

Pois bem! Ela me contava de uma, aliás, duas experiências que viveu no interstício de um mês, a saber, da segunda quinzena de dezembro último, a meados de janeiro deste 2016. E onde residiria tamanha importância para este registro? Narro nesse segundo.

A Matinha (pseudônimo oportuno à minha generosa amiga) foi convidada a participar de uma convivência de 13 dias num asilo na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro. Trata-se de uma comunidade de vida da Igreja Católica que cuida deste ambiente, tornando-o mais sensível àquelas senhoras idosas.

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São mulheres com mais de 90 anos. Parte delas já bastante debilitada do ponto de vista da lucidez possível. Doentes, algumas, com problemas para dormir, outras, a maioria necessita do básico de atendimento, desde tomar banho e trocar as fraudas sujas, até colocar comida na boca. Tudo isso Matinha teve de executar e com a mais intensa paciência e bondade possível. Sobriedade. Este é o lema principal de todas as pessoas que são convidadas a vivenciar esta experiência no local.

No intuito de ir diretamente ao ponto nuclear deste texto, esforçarei-me para não adentrar nos detalhes da ambiência que Matinha vivenciou (até porque é algo indescritível; somente ela teria o poder de fazer-sentir tal aprendizado), e vou buscar o paradoxo da realidade apresentável, encerrando, contudo, este primeiro momento de Matinha, quando de sua obrigatoriedade de ir às ruas do Rio de Janeiro pedir comida, batendo de boteco em boteco, padaria em padaria, casa em casa a fim de angariar o mínimo de mantimentos à casa das senhoras. Deixe-se claro que lá a primazia é mesmo essa: não se quer a riqueza, nem a miséria, mas a lucidez da pobreza sobrevivente e edificante.

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Ora, nos dias que se seguiram, mais especificamente, na transitoriedade dos pólos subjetivos que separam um ano velho de um novo, portanto, a consequente hora da virada, Matinha estava num daqueles cruzeiros luxuosos que deslumbram quaisquer um; mesmo os mais experientes na ostentação presencial. Coincide de suas festas de fim de ano também terem o decurso no Rio de Janeiro, no entanto, em alto mar, no glamour e grandeza de um transatlântico.

Muita festa, comida das mais variadas ao desperdício, bebidas a sobrar, ambientes múltiplos de diversão e fogos, muitos fogos no primeiro minuto de 2016. Fogos que puderam ser curtidos no estonteante adverso da praia de Copacabana. Era muita alegria. Tanta que aludia o risco de se perder a sobriedade herdada do encontro anterior na Zona Norte da cidade maravilhosa.

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Narrada a história real e recente de Matinha, não poderia ser outra a minha intervenção à meiga amiga: você esteve em dois polos da realidade humana. Na verdade, no extremo destes conceitos. Imaginemos que a rigorosa pobreza das idosas, extremamente dependentes da solidariedade compulsiva e corajosa de gente como você é uma reta em sentido vertical. Em sua tangente, inicia-se outra reta, horizontal, esta cuja perspectiva será o mundo invisível à esmagadora maioria da população humana: sua experiência riquíssima (nos vários sentidos) dentro de um cruzeiro marítimo com vistas para a energia de Copacabana em fim de uma temporada específica. Pergunto: onde reside o platô de sua reflexão? Qual é a sua análise sobre estes pontos referentes?

Um tanto chocada, Matinha olha-me firme e (se) indaga questões complementares a essas... e prefere a solenidade do silêncio intrigante. Certos, porém, eu – que a conheço como poucos, aliás, tantos – e ela, que carrega na alma a centelha da bondade extremada na solicitude dos entes e da vida residual. Saberá/remos que há prazer e equilíbrio em ambas as convivências. Veja: não é todo humano que tem a possibilidade deste tipo de experimentação. Normalmente, uns estão bem consolidados de um lado; e outros bem alienados no outro. Ela, Matinha, classe média, pessoa de bons préstimos e bom emprego, sobretudo, curiosidade física e metafísica adicional, conseguiu transitar nas duas esteiras e, puxa!, num só mês. Essencialmente, sóbria.

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A narrativa acima pretendeu ser, em si mesma, a tese, antítese e síntese, de um outro conjunto que tentarei explorar – adiante – nos meus textos (e imaginações). Trata-se de vislumbrar do caráter humano o seu contrário complexo que empreende a rudeza civilizatória, a esquizofrenia social e a insegurança da humanidade.

Senão, vejamos. Escolhemos esse tipo de sociedade, protótipo de civilização, modelo de vida... e reclamamos?! Ora, somos a cultura do “ter”, tão mais relevante que “ser”. Optamos pela grandeza objetiva, imediata e de concretude vazia, ao invés de buscarmos a essencialidade, o profundo, a solidariedade e o convívio sensitivo. É o mundo das coisas e das relações descartáveis. O fulgaz, a pequenez e o minimalismo vivente são as nossas preferências para o cotidiano. Destarte, não vejo porque reclamarmos tanto de nós mesmos.

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Um pouco rude talvez o que vou dizer, entretanto, é compreensivo sermos essa “coisinha” mais ou menos no universo das inter-relações. Acompanhe comigo: três fatores estão inerentes a nós e nos tornam cegos na nascença (com algum bom risco de acudir a vista com os anos). Somos um dos bichos mais egoístas, mais competitivos e de maior apetite da Natureza. Leia-se: egoísta, porque pensamos em nosso bem-estar antes de analisarmos o intervalo que possa gerar risco de sucumbência ao outro. Tipo assim: se precisamos de algo para nossa sobrevivência, um insumo qualquer (pode ser alimento, ou outra matéria-prima... pode ser até sentimentos), pegamos primeiro na Natureza, para a seguir, vislumbrarmos se outro também o demandara. Para ser sincero, aquilo que nos faz relacionarmo-nos com os outros é o que na verdade justifica a nossa autorrelação; o que nos satisfará primordialmente.

Quanto a sermos altamente competitivos, inferimos a necessidade permanente da disputa, da contenda, dos conflitos, das guerras. Ora, desde a ambiência mais simples em tensão, qual seja, uma reunião de amigos na mesa do bar discutindo política no abrangente das divergências, ao langor das mortes e sangue jorrando ao chão em frontes por desculpas de território, de soberanias feridas etc. Vivemos disputando. Disputamos conceitos, retórica e egos. Brigamos na escola, no trabalho, na igreja, nas ruas. A violência urbana nada mais é do que a extensão de nossa violência internalizada, do instinto que nos prepara o tempo inteiro para debater, ou bater... ou matar!

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Agora uma das piores patologias que temos é o apetite. Vou traduzir este conceito num mundo real e pós-moderno. Somos deslumbrados com o desejo de consumir. Comunidades inteiras vivem e trabalham para consumir novos produtos, novas coisas, nova moda. Consumimos aparelhos eletrônicos, celulares, carros. Empreendemos ao lucro. Lucro é dinheiro. Dinheiro é consumo. Morremos de trabalhar sem ver nossos filhos crescer. Porque trabalho é dinheiro. E dinheiro é consumo. Não se trata mais de viver, de ter o básico para se viver bem, de se ter a moradia, o alimento, o prazer suficiente. Não é o bem viver! Doravante, é o simples regozijo do trocar dinheiro por coisas – tenham elas valor real, ou mera expectativa de valor. Apenas apetite esvaziado.

Matinha nos ensina a mais serena lição. O problema não está no alto do morro com pouco a consumir, ou no alto do navio com muito a se esbaldar. É preciso sensibilidade para compreender que toda matéria, mais cara ou barata, passará pelo crivo do maior consumidor de todos: a terra, que há de dragar nossa carne da maneira que vier. Portanto, viver é ser o mesmo sempre e melhor todos os dias, aprendendo e partilhando, tendo sim, mas sendo sobretudo, e distribuindo a si mesmo o quanto puder de sobriedade e lucidez.

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