50 tons de sangue e cinzas

A execução de 5 jovens no Rio de Janeiro foi tão cruel e sanguinária que até o Estado Islâmico ficaria envergonhado de assumir a autoria de um atentado tão covarde. E o mais triste nessa história toda é saber que o crime foi praticado por quem deveria proteger

A execução de 5 jovens no Rio de Janeiro foi tão cruel e sanguinária que até o Estado Islâmico ficaria envergonhado de assumir a autoria de um atentado tão covarde. E o mais triste nessa história toda é saber que o crime foi praticado por quem deveria proteger
A execução de 5 jovens no Rio de Janeiro foi tão cruel e sanguinária que até o Estado Islâmico ficaria envergonhado de assumir a autoria de um atentado tão covarde. E o mais triste nessa história toda é saber que o crime foi praticado por quem deveria proteger (Foto: Nêggo Tom)

"Dizem que ela existe pra ajudar. Dizem que ela existe pra proteger. Eu sei que ela pode te parar. Eu sei que ela pode te prender". E talvez até, te matar. Os versos entre aspas são de Tony Bellotto. A música se chama: "Polícia" e foi um dos grandes sucessos do álbum "Cabeça Dinossauro" que os Titãs lançaram em 1986. O refrão gritava: "Polícia para quem precisa. Polícia para quem precisa de polícia." E eu pergunto: Quem você acha que precisa de polícia?

Cinco jovens, com idade entre 16 e 25 anos, foram assassinados em Costa Barros, no Rio de Janeiro. O carro no qual eles estavam foi fuzilado. Cinquenta tiros de fuzil foram disparados. Qualquer semelhança entre o Fiat Palio que conduzia as vítimas e um queijo suíço não é mera coincidência. A execução foi tão cruel e sanguinária, que até o Estado Islâmico ficaria envergonhado de assumir a autoria de um atentado tão covarde. E o mais triste nessa história toda é saber que o crime foi praticado por quem deveria proteger.

É claro que não podemos generalizar. Existe o bom e o mau policial. Assim como existe o bom médico e o doutor Roger Abdelmassih. Assim como existe o bom filho e a Suzane Von Richtoffen. Isso vale para todas as áreas da nossa vida. Sempre iremos nos deparar com pessoas boas e com pessoas ruins. Estejam elas fazendo a mesma coisa ou fazendo coisas diferentes. É o caráter que irá determinar o resultado final das ações de cada um. O grau de formação e o nível de capacitação são componentes que apenas valorizam esteticamente o produto.

Muito se fala que a nossa polícia não tem preparo suficiente. Pode ser que sim. Também pode ser que o problema não seja esse. A maioria das vítimas fatais de ações policiais são moradores de comunidades. A maior parte delas é negra. Sabemos o que ocorre dentro de muitas comunidades. O comando paralelo dita as regras. Mas é preciso saber separar o joio do trigo. Ou não é esse o papel da polícia? É inadmissível que vidas inocentes continuem a serem ceifadas dessa maneira. Quem está revestido pela autoridade que uma farda lhe confere e tem uma arma em mãos, não pode deduzir nada. Tem que ter certeza do que faz e assumir a responsabilidade por suas ações. A vida não tem preço e quando destruímos uma, não tem como voltar atrás.

A forma pela qual esses cinco jovens foram executados, é aviltante a nossa compreensão. Diz a lenda que o policial só tem permissão de atirar quando estiver com a sua integridade física em risco ou observar algum risco a integridade física de terceiros. Mas como alguém estando desarmado e em sã consciência poderia atentar contra a integridade física de quatro agentes da lei armados de fuzil? Que tipo de periculosidade apresentava esses cinco jovens a ponto de serem disparados contra eles, nada mais, nada menos do que cinquenta tiros de fuzil? Será que o prazer de matar é maior do que a responsabilidade de ser um defensor da sociedade?

Ela deveria nos ajudar, mas nem sempre o faz. Ela deveria nos proteger, mas às vezes representa um perigo bem maior do que o mal a ser combatido. Volto a frisar que não podemos classificar todos os policiais como sendo maus profissionais. Isso seria leviano. O problema é que os erros se sucedem e inocentes continuam a pagar por eles. E por que os erros continuam a se repetir? O Governador e o Secretário de segurança mandam exonerar o comandante do batalhão e expulsar os policiais da corporação, como se isso fosse solucionar o problema. E quem vai exonerar os dois? Não seria a tropa o espelho de quem a comanda? Ou quem comanda não está impondo respeito suficiente aos seus subordinados ou a metodologia que eles dizem que é aplicada não está sendo compreendida. Eu até concordo com a declaração do Secretário, quando ele diz que não há capacitação ou formação que se sobreponha ao caráter do indivíduo. Mas alguma coisa precisa ser feita. O que não está dando certo precisa ser mudado.

Cinquenta tiros em cinco jovens desarmados. Cinquenta atos de covardia explícita. Cinquenta vezes em que o dedo no gatilho se sobrepôs a razão e comandou as emoções das quais o coração estava cheio. O sangue, de todos os tipos, jorra vermelho e fluente, contrastando com o azul do céu aberto. Às vezes ele jorra no asfalto, outras vezes se mistura a lama e até mesmo se confunde com a água suja do esgoto mais próximo. Em ambos os casos restam apenas cinzas. As cinzas de quem se foi e as cinzas da esperança de dias melhores e menos injustos.

Justiça para quem precisa! Justiça para quem precisa de justiça!

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