500 mil motivos para Bolsonaro ser expelido de um país democrático

"O presidente da República dá sobejos motivos para ser julgado por um tribunal internacional, por crimes contra a humanidade. Grupo do qual, se comprova a cada dia, ele não faz parte. Ou não faz a menor questão de fazer", escreve Gilvandro Filho

Jair Bolsonaro durante cerimônia no Palácio do Planalto
Jair Bolsonaro durante cerimônia no Palácio do Planalto (Foto: REUTERS/Adriano Machado)
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A dor e o sofrimento do povo brasileiro com o triste recorde que atingimos nos números trágicos da COVID-19 só não superam a revolta e a vergonha que o país inteiro – exceto os admiradores e aprendizes de genocídio – sente por ter um chefe de governo tosco, irresponsável e potencialmente criminoso. Em qualquer lugar do mundo plenamente democrático, Jair Bolsonaro já teria sofrido impeachment e o número assombroso de 500 mil mortes ainda estaria longe de ser alcançado.

Méritos amplos para essa carnificina devem ser compartilhados com os presidentes do Poder Legislativo. Na Câmara, mais de 120 pedidos de afastamento do presidente dormitam acalentados pela omissão do presidente da Casa. No Senado, a sua presidência responde por uma mal disfarçada e macabra parceria com o chefe do Estado. Não fosse a CPI da Pandemia, batizada pelos brasileiros de CPI do Genocídio, possivelmente teríamos o assunto coberto por uma capa de silêncio e cumplicidade por parte da direção da chamada Câmara Alta.

Pudera. Os dois parlamentares foram eleitos presidentes na esteira de um acordão que contou, infelizmente, com apoio e voto de muitos parlamentares democratas e, pelo menos em tese, ligados ao campo progressista. Mas, tanto um quanto o outro, foram ungidos por um Bolsonaro grato, risonho e aliviado. E vêm cumprindo seu papel.

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Com as presidências das casas legislativas garantidas e os votos do Centrão, o “mito” toca em frente seus dois projetos de poder: o esmagamento total das oposições e das conquistas populares obtidas nos governos do PT que o sucederam; e o fechamento do regime através de um golpe que está em marcha. Isto seja qual for o resultado que colher da eleição de 2022, para a qual já se encontra em campanha aberta e declarada, ao arrepio da lei e sem a menor empatia com a marca de meio milhão de vidas que ajudou a ceifar.

Alheio às mortes de brasileiros que, em tese, ele teria que governar e ao sofrimento de tantas famílias de mortos e internados aguardando a sua vez de engrossar os números fatais, o presidente da República produz seus factoides e anuncia medidas preparatórias do golpe. Acena para a banda das Forças Armadas que lhe dá respaldo – a ultima é ameaçar seus críticos com julgamento pelo Superior Tribunal Militar -; emite prestígio às polícias militares, hoje o seu braço armado mais perigoso para a Democracia; arma o seu “eleitorado” para uma eventual resistência democrática à sua tentativa de transformar o país num regime plenamente ditatorial.

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Além do que apresenta de nocivo e potencialmente explosivo em todos os setores do seu governo – economia cruel e destrutiva, meio ambiente insustentável que serve a madeireiros, direitos humanos, política externa inexistente, educação, agricultura voltada só para o empresariado etc. – o que Bolsonaro fez e faz com a saúde e a vida dos brasileiros, ao longo dessa pandemia, já seria suficiente para ele sofrer o impeachment.

Mais que isto, o presidente da República dá sobejos motivos para ser julgado por um tribunal internacional, por crimes contra a humanidade. Grupo do qual, se comprova a cada dia, ele não faz parte. Ou não faz a menor questão de fazer.

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