A alienação, uma doença incurável no Brasil

Na televisão da sala de espera do consultório, jornalistas narram ao vivo a ação do sequestrador de um ônibus que parou a ponte Rio/Niterói. Ao meu lado, uma senhora, já de certa idade, puxa papo com um jovem senhor que aguarda consulta médica: “Isso tudo é resultado da pobreza do nosso país”

Por Florestan Fernandes Jr., para o Jornalistas pela Democracia - Na televisão da sala de espera do consultório, jornalistas narram ao vivo a ação do sequestrador de um ônibus que parou a ponte Rio/Niterói. Ao meu lado, uma senhora, já de certa idade, puxa papo com um jovem senhor que aguarda consulta médica: “Isso tudo é resultado da pobreza do nosso país”.  

Me surpreendi positivamente com a afirmação da senhora, mas me contive pra não me envolver em polêmicas. Afinal, estava numa sala de espera de uma unidade do Hospital Albert Einstein em Higienópolis, frequentado basicamente por pacientes da classe AA. Duro de engolir foi a resposta dada pelo senhor, do alto de seu vasto “conhecimento” histórico:

“Papai dizia que o povo reclamava da época do Garrastazu Médici (general presidente de 1970/74), mas depois dos militares tudo piorou: hiperinflação, desemprego e aumento da pobreza”. Respirei fundo, contei até 10 e me contive. A senhora prossegue com a conversa, lançando uma pergunta: “É mesmo, o senhor tem razão. Nesse período democrático quem foi o melhor presidente? Pra mim foi o Itamar”. 

O homem concorda, lembrando o início do Plano Real: “O Itamar, pelo menos, soube montar uma boa equipe”. A senhora me chama para a conversa, fazendo a mesma pergunta. Já que estava sendo convidado para a  conversa de “pacientes”,  aproveitei para responder a fala sobre a ditadura. Lembrei do empréstimo milionário que o Brasil contraiu nos anos do tal “milagre econômico”. 

Uma dívida que se tornou impagável e arrastou o país à submissão ao FMI,  à hiperinflação, aos saques em supermercados e ao aumento da criminalidade.  Expliquei que foi no auge dessa crise que chegamos na campanha das Diretas Já e, na sequência, caímos na Nova República. Sobre o melhor presidente do período democrático, achei prudente subir no muro. Argumentei que a questão não deveria ser quem foi melhor ou pior, mas, sim, o modelo eleitoral brasileiro que torna o eleito refém do parlamento.  Um sistema em que o candidato executivo é eleito com a maioria dos votos, mas isso não garante a mesma proporcionalidade nos partidos de sua coligação.    

Ponderei que, por esse motivo,  todos os presidentes eleitos a partir de 1990 tiveram que fazer alianças erráticas para compor maiorias nos parlamentos.  

E que agora o nível intelectual do nosso Congresso estava ainda pior. Trocamos, por exemplo, líderes como o antropólogo Darcy Ribeiro, Ulisses Guimarães e Franco Montoro por majores da PM, milicianos, ruralistas e pastores endinheirados.   

Nesse momento a senhora não se conteve e me contestou: “Não está ruim não! Hoje nós temos o Rodrigo Maia, que até chorou após aprovar a reforma da Previdência. Ele sabe o que é importante pro país”.  

Voltei meus olhos para a tela da televisão e fingi ter interesse na tragédia da vida real que aumentou a audiência da manhã fria da terça-feira.  

Fiquei assistindo à  mesma emissora que tem apoiado a reforma da Previdência e seu mentor político na Câmara Federal. Quem diria, o Rodrigo Maia que tempos atrás apareceu nos noticiários como sendo suspeito de ser o Botafogo da planilha da Odebrechet é agora o herói da República. Tem bons motivos para se emocionar. É ele quem se contrapõe aos arroubos do capitão-presidente em defesa dos interesses do mercado.  

Foi ele também quem atravessou a praça dos Três Poderes, acompanhado por líderes da esquerda para apoiar o Supremo a impedir a transferência do ex-presidente Lula para uma cela de um presídio comum em São Paulo. As lágrimas estão rendendo dividendos. Nesta semana Rodrigo chorou mais uma vez ao ser elogiado pelo ex-ator pornô e deputado federal, Alexandre Frota.  

Choro que comove a  senhorinha que tem lá seus motivos pra gostar do jovem político. Ela certamente é do seleto grupo de brasileiros que não depende da aposentadoria para sobreviver. E que tem condições financeiras para pagar um salário mínimo pela consulta médica.

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