A Campanha da Fraternidade e Dom Hélder Câmara

O que fazer quando as flores murcham? O que responder a uma roseira sozinha, que não terá um Deus a seu lado na ressurreição, porque um dia ela será murcha? Eu não posso imaginar um céu sem flores, respondia o poeta Hélder. Todos nós, leitores ateus e ouvintes, nisso também acreditamos

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As notícias falam que a Campanha da Fraternidade deste ano reacendeu uma batalha ideológica na Igreja. Existe até arcebispo militar que se nega a participar da campanha. E mais falam: “A ideia de uma Igreja esquerdizada é alimentada por ativistas católicos leigos. Um queridinho dos bolsonaristas acusou a CNBB de ser uma entidade empesteada de comunismo —começando pelo seu fundador, dom Helder Câmara, a quem se refere como ‘o arcebispo vermelho’ ".

Mas quem foi esse arcebispo vermelho do Brasil?  Na semana passada, em conversa com o jornalista Carmélio Reynaldo, mestre da UFPB, pudemos ver que os jovens não sabem, não conhecem a história viva, a história da ditadura. Os escritores, jornalistas, cientistas e historiadores temos que atravessar este novo suplício de Sísifo: elevar até o ponto máximo a história, e depois ver a ignorância rolar esse conhecimento até o chão. E voltar, e voltar, em recomeço. Portanto, cabe a pergunta sobre o brasileiro mais conhecido no mundo depois de Pelé: quem foi Dom Hélder Câmara? 

O patriota Hélder Pessoa Câmara sempre recebeu no amor de toda a gente, nos anos da ditadura, o prenome Dom, como se o cargo na Igreja fosse para ele um nome de batismo, como se a posição de bispo e arcebispo lhe tomasse toda a pessoa. Mas na verdade, Dom Hélder Câmara possuía muitos dons além do título na Igreja. 

No Brasil da ditadura, Dom Hélder era o arcebispo vermelho, o perigoso comunista disfarçado de padre, um ilustre morto-vivo cujo nome e fotos não apareciam nos jornais. A sua prática sacerdotal, em um Recife que vinha da pedagogia de Paulo Freire, de governos socialistas, longe estava da simples pregação da caridade, ou de se mostrar superior ao povo miserável. Ao mesmo tempo, os comunistas jamais pensaram, sequer por hipótese, que o arcebispo fosse um dos seus. Havia encontros, havia diálogos entre suas políticas, com mais de um ponto de conflito. 

Lembro-me de Dom Hélder Câmara em duas ocasiões. Na primeira delas, nos anos 70, a repressão política havia aprisionado vários auxiliares dele, poucos anos depois de haver assassinado o Padre Henrique, auxiliar direto do seu trabalho na Arquidiocese. Nessa ocasião, em que o vi pela primeira vez, pude notar um dom desse padre poucas vezes mencionado. Estávamos concentrados, reunidos em frente ao Palácio dos Manguinhos, para um protesto. Então Dom Hélder Câmara nos dirigiu uma fala. E vi, ouvi e notei: Dom Hélder era um orador, um excepcional orador. Franzino, baixinho, havia um cérebro de pensador na sua voz, um talento de ator que o fazia crescer com uma dicção a acentuar as palavras conforme o seu desejo. Ele fazia pausas no discurso, intervalos cujo único fim era imprimir o seu pensamento em nossos espíritos. 

No discurso vivo de Dom Hélder havia uma chama calorosa, que os crentes e ele próprio diriam ser um fogo do Espírito Santo, que tomava conta do seu rosto, da sua expressão, de suas palavras. Com os olhos grados, sem gritar, ele comovia a todos, e para comover não recuava diante dos motivos mais piegas. Lembro que para falar do afeto que nos unia aos presos, da nossa comum preocupação, para ressaltar que éramos solidários, ele fez com que todos cantassem o “Como vai você?”, de Antonio Marcos, que era sucesso na voz de Roberto Carlos. Confesso que até eu cantei, com a voz embargada, a canção. 

Da segunda vez, eu não o vi, mas pude ouvi-lo e percebê-lo, no rádio. Quem já leu suas crônicas, que em boa parte foram reunidas no livro “Um olhar sobre a cidade”, entenderá o que vou dizer. Para mim, ele escrevia textos modelares de crônica radiofônica. Nessas crônicas há um escritor, que deveria corar de vergonha muito imortal da Academia Brasileira de Letras. Nelas, Dom Hélder pega um motivo, um tema de aparência distante, e traz para o seu texto, com observações poéticas e líricas, que se aplicam ao cotidiano de todos, intelectuais ou analfabetos, ateus ou cristãos. Para todos os públicos, valeria dizer. Leiam, melhor dizendo, ouçam se puderem: “Flores murchas”. 

Dom Helder perguntava no texto lido no rádio: “O que fazer quando as flores murcham?”. E adiante, feria mais fino: “Uma roseira já me perguntou se eu acredito que Deus ressuscitará também as flores...”, para concluir: “Os teólogos que me perdoem, se é teologicamente sem base o que vou dizer: eu não posso imaginar um céu sem flores”. 

O que fazer quando as flores murcham? O que responder a uma roseira sozinha, que não terá um Deus a seu lado na ressurreição, porque um dia ela será murcha? Eu não posso imaginar um céu sem flores, respondia o poeta Hélder. Todos nós, leitores ateus e ouvintes, nisso também acreditamos.

Esse era o arcebispo a quem os bolsonaristas odeiam até hoje. Prova de amor maior não há de Dom Hélder que esse ódio dos fascistas a ele. 

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