A cartografia da Pandemia no jogo do mundo

O “horror extremo” se instala na fronteira que divide discurso médico e discurso capitalista, o tema da fé é o obstáculo principal para que se desenvolva um encontro e confronto com o real dos desafios do contágio e sobre o futuro da economia

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Neste artigo iniciado ao modo de escrita automática dos surrealistas, me inspirei em noções de Gilles Deleuze e Félix Guattari para pensar a necessidade de orientar a leitura da “situação” aberta pela Pandemia do Covid-19. Realizando esta abertura ao debate tendo em conta o giro conservador no Brasil, em cujo esquema de leitura da conjuntura se destaca a combinação do discurso capitalista (neoliberal) na sua relação com o discurso religioso (teologia da prosperidade). 

A operação de guerra ideológica no Brasil é liderada pela extrema direita civil e militar, orientada por uma prática de convite para o confronto nas ruas, nas mídias e nas instituições. Desde o refluxo dos protestos juvenis de 2013 vemos o afluxo do novo bloco de direita, que desencadeou uma enorme potência regressista. O que produziu a implosão das formas de contenção, de defesa das proteções éticas, morais e legais existentes até então, mudando as formas de dominação e legitimidade recobertas pelo tipo ideal racional-legal, dado pela ética da responsabilidade na modernidade, para as forma carismática com base na ética da convicção. Paradoxalmente as novas máquinas ideológicas ou aparelhos de  hegemonia instabilizam os aparelhos repressivos formais legais. O partido da fé cobra do capital o compromisso irracional com a passagem ao ato, que leva o corpo da multidão de encontro à máquina cega da contaminação. O contágio é sua velocidade são objeto de um jogo que envolve o agenciamento e a captura do vírus, pelos esquemas é interpretações que disputam a crise dos sistemas de recalque clássico. O sujeito social corporificado está atravessado por contextos de ação movidos pela disputa da verdade. Fé, economia e saúde definem os contornos dos jogos do mundo, das muitas máquinas de guerra que produzem as mensagens que definem a disputa sobre a verdade da Pandemia.  

O novo espírito do capitalismo perdeu, em toda parte, o seu poder de velamento de legitimidade e legalidade constitucional, destruiu as margens de tolerância e, se manifesta como um modo de agenciamento de enunciação agressivo, que vem sendo expresso por uma espécie de fascismo social. Hoje destacamos a necessidade de produzir o mapa do real agregando a dimensão do impacto da  pandemia, que leva em conta o  pensar um “plano de imanência” a partir do qual lemos a crise orgânica ampliada que atingiu o planeta. Motivo pelo qual indicamos a necessidade de “cartografar” a relação entre moeda e fé no momento do giro no biopoder global, dado que a imposição da lógica da acumulação global já marcava, desde 2008 com a crise financeira, os limites das margens de manobra políticas sua Estados nacionais como o Brasil. Este processo se acentuou com o impacto na locomotiva asiática e a debilidade da líderança norte-americana. 

O método cartográfico de leitura deve considerar o retorno ao discurso, ainda que fragilizado (em parte através do agenciamento realizado pela OMS) da ciência. O tema do retorno das práticas de políticas públicas em matéria sanitária, epidemiológica e de saúde coletiva frente ao surto da Covid19, com todas as suas consequências de atravessamento, interdisciplinaridade e transversalidade  para definir os modos de governar as populações. 

O debate sobre isolar ou expor as pessoas torna-se um ponto decisivo no campo da disputa. Aqui retorna a questão da moeda, entendida como o vetor, signo, meio de valorização do capital. O capital agora é chamado para escolher entre a fé e a ciência como modo de reprodução social. A leitura neoliberal e a leitura religiosa estão em aliança nos últimos anos, mas o cenário da pandemia introduz outra variáveis para as quais achamos interessante resgatar as noções de corpo, de território de subjetividade, destacando o papel das máquinas virais, virtuais, de guerra e desejantes que se apresentam na cena contemporânea. 

A análise da situação precisa pensar o sentido que brota  das forças que disputam a verdade, ao sabor da contingência do real da pandemia. O que pode ajudar a compreender e produzir implicações na prática dos sujeitos coletivos, com a composição das respectivas alianças sociais e técnicas que se esboçam para definir as técnicas, as normas e as armas que vão gerar os novos modos de produção, o regime político e o quadro ético na progressão que se abre com o ritmo do contágio, com as perdas materiais é com os efeitos de dor que já afetam os valores e a cultura dos diferentes grupos e sociedades no que se refere ao impacto em matéria de mortalidade. 

Buscamos indicar uma leitura cartográfica do real, via a noção de “plano de imanência”, por conta da conjuntura aberta pela pandemia do Covid-19 (OMS), enquanto um acontecimento decisivo para as relações de poder sobre a vida, com a perda relativa do poder de definir quem vive é quem morre, por parte das distintas que movem as globalizações, implodido os controles e barreiras ao mesmo tempo que gerando práticas de controle seletivo de mobilidade. Como diria Jean Baudrillard, em seu livro A Transparência do Mal: ensaio sobre fenômenos extremos”, estamos na era dos “acontecimentos supracondutores”, vivemos os efeitos de uma era de contágio virais é virtuais de sistemas de contágio é de profilaxia. No jogo da desmedida em estado de presença, de pura imanência. 

A Pandemia deve ser lida nesta perspectiva, em termos de geografias de alcance planetário que acaba por atingir a biosfera, influenciando as metamorfoses e condicionando os rumos das condições de existência humana no planeta. 

Apesar da amplitude e do alcance das suas escalas sobrepostas, desde os movimentos microscópicos de tipo molecular até a dimensão cósmica, lembro do que poderíamos chamar de megamáquina totalitária do capital e da guerra. Temos de registrar o risco do deslizamento definitivo para a fantasia delirante, para a presença dos fantasmas na imaginação que alimenta a conta de de poder. O retorno da tirania ou do despotismo moderno, considerando o estilo pessoal e a máquina brutal que comandam os nossos aparelhos de Estado. 

O Brasil se destaca pela sua adequação ao que Achille Mbembe definiu como necropolítica, num quadro que se estende através de máquinas de guerra, máquinas policiais e máquinas criminais. A leitura da conjuntura exige traçar o movimento e a produção de agenciamentos de enunciação que alimentam a política de flexibilização do uso do porte e uso das armas, do elogio a tortura do Presidente da República, da “licença para matar” do governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel. Cabe registrar a figura vazia e medíocre da liderança da horda, o atual Presidente da República, Sr. Jair Messias Bolsonaro, que serve de espelho para os agenciamentos que tentam mobiluzar para novas “cruzadas”. Temos assistido diariamente aos seus esforços para acentuar é canalizar o despertar da fúria, da bestialidade pela negação da pandemia, intensificando as características de manipulação de psicologia de massas. Os esforços delirantes de estímulo para a passagem ao ato, com forte ênfase no discurso autoritário-policial, machista e no fervor com troços perversos, narcisistas, mórbido e mesmo suicidas. 

A nossa sociologia do presente leva em conta as práticas coletivas cotidianas no espaço periférico das megacidades, nos territórios construídos pelas lutas históricas por cidadania. Mas o fato é que os espaços urbanos hoje estão marcados pela destruição, pela intensificação do saque e da violência, por um tipo de espoliação absoluta ou acumulação originária permanente, que abre as portas para o jogo do poder que une o urbanismo de mercado e o urbanismo de guerra. Nos últimos dez anos prevaleceu a gentrificação e a ocupação militar, como projetos de acumulação e poder, com a expulsão, o encarceramento e o genocídio de setores populares nas cidades, principalmente negros e favelados. No quadro dramático da barbárie que acompanha o ciclo das políticas neoliberais, com tudo que se dá de perverso, em especial, com o massacre que sofrem as mulheres, a população negra, os povos indígenas e as populações das regiões norte e nordeste, que são chantageadas pelo medo, pela força e pela competição a que estão submetidas todo tempo sob a sombra da desmedida que sugere que existem vidas descartáveis. 

Na atualidade o consumo da religião e o consumo das imagens de terror fazem parte do que chamam de “guerra cultural”, que consideramos, aqui, como uma espécie de cruzada moralizante, o inverso completo da hegemonia por força da intensificação da manipulação ideológica ee da destruição da política.  A inscrição no mapa desta passagem ao ato violento, sua inclusão no diagrama, no desenho da cartografia, deve captar os corpos, máquinas e órgãos afetados ou que afetam através dos enunciados que agenciam ataques contra o diverso, o subalterno, o impuro. Num movimento desocupação dos territórios pela ação estratégica direta do Aparelhos de Estado, apoiados por lógicas do tipo paramilitar. A apologia do golpismo é a expressão mais comum do discurso das forças de extrema didireita. A sua apologia da ditadura se apoia no negacionismo, quanto aos crimes e violações de direitos, quanto ao que representou de desastre e destruição a ditadura civil-militar. Neste momento este modo de agir se aplica a uma negação do poder de matar do contágio acelerado. 

No quadro dos estudos sobre os sujeitos corporificados, centrados nos grupos subalternos com sua diversidade, acabamos precisando trabalhar com ferramentas capazes de lidar com o tripé corpo, território e subjetividade. Nossas pesquisas no Laboratório do Direito à Cidade e Território do NEPP-DH/UFRJ se voltam para realizar uma “sociologia do presente”(como profunha a Professora Ana Clara Torres Ribeiro). O trabalho com o cotiniano e a conjuntura social dos territórios nos permite lidar com a força do retorno do recalcado como fenômeno social, isto é, com o desafio ontológico mais geral colocado pelo colapso da modernização brasileira. Desta forma, compreendemos a crise de representação política e o quadro de perda de confiança na política. O fatalismo marca hoje o senso comum da opinião pública da população brasileira. A naturalização presente no discurso da fé, da dívida e da crueldade propicia uma incorporação passiva dos dados da realidade, e possibilita uma explosão de fúria para compensar as frustrações. 

Os múltiplos eventos traumáticos contínuos que assistimos, nesta segunda década do século XXI, se interligam, com o desenvolvimento desigual e a crise de representação, enquanto crise orgânica e da biosfera pelo impacto dos seus efeitos extremos na cena mundial. Efeitos que encadeiam-se através do terrorismo, da pandemia, da crise migratória, das guerras civis, do aquecimento global, da ciberguerra, do retorno do racismo, do fim do Estado social e da crise financeira. 

Mas é desde o choque traumático do cruzamento de virulências sociais, ambientais, sanitárias e epidemiológicas, que podemos observar como os novos agenciamentos maquinicos estão articulados pela pulsão da crueldade, como expressão do “inconsciente” político construído na linguagem como laço social.  O real da virulência contemporânea  aparece como sintoma social  da vida precária, através do mal-estar na cultura e das desigualdades e segregações que se ampliam. Neste momento de pandemia vemos o esgarçamento do laço social, do “plano” das subjetividades, cuja trama, cujo enredo podemos registrar no mapeamento traçado pelo pensamento crítico. 

O desenho do espaço, do sistema de ações é dos sistema de objetos a partir da dinâmica dos fluxos, do choque com os fixos aparece na análise de conjuntura. O que ganha visibilidade quando aplicamos a noção de “plano de imanência” na construção da cartografia da ação ou do conflito social. A montagem do mapa de leitura da conjuntura global, pode se dar como uma escrita, como um diagrama ou esquema de leitura onde procuramos construir referências para compreender as tendências do giro situacional. O uso da ferramenta que se apoia no desenho, ajuda a captar a nova relação de forças que move as relações de poder que afetam os saberes. 

A produção da cartografia da pandemia desde a ótica complexa, dita rizomática, ou da perspectiva topológica do “plano de imanência”, se tornou uma tarefa decisiva para quem estuda as questões da reprodução social e as mudanças politicas publicas ligadas aos processos que ligam: análise de risco e regimes de emergência, com enorme riscos ao que resta dos direitos da cidadania em qualquer quadrante do planeta. 

Estamos no limiar de mudanças nos regimes de controle da vida social, sob o impulso de metamorfoses nos sistemas e modos de governar, com a redefinição das mediações e significantes. No primeiro esboço dos diagramas ou esquemas de interpretação teremos a afirmação da política como guerra, em todos os planos que afetam a vida da espécie humana no planeta. O que inclui a visão de uma guerra contra o vírus ou a cruzada para denegar o vírus. 

O mapa se esboça e instala a contingência nas nervuras do real, despertando medos, desencadeando a movimentação dos sujeitos corporificados em meio a todos os tipos de ações que afetam o espaço dos fluxos. O “horror extremo” se instala na fronteira que divide discurso médico e discurso capitalista, o tema da fé é o obstáculo principal para que se desenvolva um encontro e confronto com o real dos desafios do contágio e sobre o futuro da economia. O convite para o contágio precipitado é parte do desejo humano demasiado humano, de tentar enganar o anjo da história, que mais uma vez anuncia sua presença antes que os falsos profetas nos lancem no abismo.  

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