A cena uruguaia e alguns alertas à nossa esquerda

Num momento em que a política de pacificação trabalhada por anos a fio pela Frente Ampla, negociando plataformas de Governo e projetos sociais com o Congresso de direita, já se encontrava nos seus estertores, Daniel Martínez era o nome errado na hora errada

(Foto: Reuters)

De nada é este colunista para arvorar-se dono da razão e dizer o que, a partir de agora, deve fazer a esquerda na América Latina e, principalmente, no Brasil, onde as coisas caminham a passos largos para o estabelecimento de um regime fascista. Mas, longe e reiterar o que já foi afirmado em textos anteriores ou entrar em confronto com o que vêm defendendo os analistas mais respeitados deste campo político, gostaria de relembrar alguns aspectos em que a esquerda em nosso continente pode perder espaço em virtude de suas próprias contradições.

Um exemplo é o cenário das eleições uruguaias, em que o partido chamado Frente Ampla, que em verdade reúne diversas organizações de luta contra a ditadura uruguaia, luta pelos direitos humanos e de articulação para um Governo social-democrata, teve seu candidato, o ex-prefeito de Montevideo Daniel Martínez, derrotado por Lacalle Pou, candidato da direita tradicional que flerta com algo à João Dória. Num momento em que a política de pacificação trabalhada por anos a fio pela Frente Ampla, negociando plataformas de Governo e projetos sociais com o Congresso de direita, já se encontrava nos seus estertores, Martínez era o nome errado na hora errada. Optasse a Frente pela polarização com Pou, a margem estreitíssima de vantagem deste último na contagem de votos certamente lhe renderia o resultado oposto.

Fato é que o caso uruguaio, onde se tem uma esquerda mais organizada e até certo ponto mais séria e menos arranhada por contradições internas infindáveis (quem é Ciro? Quem é Lula? Quem acha que o Lula pode ter roubado, mas é inocente segundo a lei? Quem acha que ele é tão absolutamente inocente quanto emana o bem para as pessoas quando cumprimenta o porteiro e a moça de servir café? Quem acha que a Lava-Jato cumpriu certo papel em prol do Brasil? Quem acha que ela é um plano maligno da CIA para o roubo o petróleo? Quem acha que os Governos do PT fizeram muito pelos pobres, mas esqueceram as minorias? Quem acha que bandeira identitária é secudária e mais cara à juventude burguesa que curte parecer esquerda?....). Enfim, neste estágio se encontra a esquerda brasileira, alguns degraus abaixo da uruguaia, que, ainda assim, perdeu.

Perdeu porque, também, cedeu à direita para seguir conversando em cenário de pacificação nacional, o que gera dividendos no sentido da estabilidade do regime democrático, mas em todos os casos resulta num esgarçamento econômico que se torna desmoronamento político devido à não polarização. Em outras palavras: ao não conscientizar o povo e prepará-lo para defender o regime popular caso seja preciso, o Governo popular cai quando a direita “pactuada” rói as cordas. Vide Bolívia. Vide Lenin Moreno. Ponto para Chávez e Maduro.

Esse cenário, entretanto, interessa muito a diversas forças da esquerda nos campos político, da militância e da informação. Para muitos líderes nesses três segmentos, ser oposição é razoável, mantém-lhes cargos de prestígio, presidindo organizações como MST e UNE para congregar meia dúzia de convertidos, mantendo a coesão de sua base sem a menor intenção de oxigená-la, quizá já pensando no degrau acima, o mandato parlamentar. Estes, por sua vez, mantém uma rede de funcionários nomeados de diversas cidades de seu Estado, ligados ao prefeito A, sindicalista B, vereador C, muito mais visando aos votos que eles irão angariar em suas bases eleitorais e às doações que vão receber para as campanhas, que para fazer o mandato efetivamente funcionar em prol do povo. Parte da mídia, por sua vez, mantém os simpatizantes petistas, lulistas etc sentados no sofá dando-lhes audiência enquanto vendem o futuro brilhante que está por vir assim que “as instituições acordarem”, coisa e tal.

Por fim, pregam certos deputados e vereadores contra a reforma trabalhista, mas PJotizam metade do gabinete e, mais, muitas vezes recorrem à boa e velha “rachadinha” (um trabalhador é nomeado, recebe, mas repassa parte do salário para outras pessoas, que atuam como funcionários fantasmas) para empregar mais assessores do que lhes permite o regimento da Casa Legislativa, a fim de aumentar a capilaridade do mandato, pensando mais em onde mais buscar votos, do que efetivamente na melhora da qualidade das ações parlamentares. O PJ, então, virou figurinha recorrente em mandatos, organizações, mídia, todos incluídos no organograma da esquerda defensora da carteira assinada (afinal, defender é bom, mas na vida real “dá muito trabalho, encargos previdência, saúde... sai muito caro um trabalhador CLT”) mas praticante das novas relações de trabalho.

Não, isso não está somente na direita. Isso encontra-se espalhado na esquerda e é melhor ao leitor buscar saber como funciona o mandato dos seus deputados e vereador. Isso, no fim das contas, joga a favor do bolsonarismo, porque, afinal, “já que a esquerda não briga por mim, por que eu vou brigar por ela?”. Também nesse microcosmo opera a derrocada da esquerda brasileira, provocando desilusão até aos defensores de primeira hora. E sem entusiasmo, ninguém se movimenta. É o que as ruas brasileiras mostram.

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