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Paulo Henrique Arantes

Jornalista há quase quatro décadas, é autor do livro "Retratos da Destruição: Flashes dos Anos em que Jair Bolsonaro Tentou Acabar com o Brasil". Editor da newsletter "Noticiário Comentado" (paulohenriquearantes.substack.com)

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A Copa da Xenofobia é opção da Fifa

Copa da Fifa nos Estados Unidos expõe tensão entre festa global do futebol e política migratória marcada por relatos de xenofobia

O presidente dos EUA, Donald Trump, e o presidente da FIFA, Gianni Infantino, na Casa Branca em Washington, D.C., EUA, em 6 de maio de 2025 (Foto: REUTERS/Kent Nishimura)
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Era óbvio que os Estados Unidos de Donald Trump não se tornariam um país respeitador de estrangeiros por causa da Copa do Mundo. O erro crasso da Fifa — ou, mais provável, sua vista grossa à xenofobia americana — aconteceu em 2018, quando foram escolhidos os países-sede do bilionário evento futebolístico. Naquela época, estava em curso o primeiro governo Trump, e a maneira desumana de tratar imigrantes e mesmo visitantes já estava consagrada na outrora acolhedora América. A entidade mercenária que comanda o futebol não deu a mínima.

“Caberia à Fifa ter escolhido um país mais afinado com as vocações universalistas. Isso deveria ter sido colocado na mesa quando da escolha dos países-sede da Copa de 2026, não agora. Cada país tem o seu sistema de controle. Por mais que pensemos na Copa do Mundo como uma festa, isso não afeta o sistema de controle fronteiriço dos Estados Unidos”, afirma o professor de Direito Internacional da Faculdade de Direito da USP, Wagner Menezes, membro do quadro de árbitros da ONU.

Em 2018, Trump queria construir um muro na divisa entre Estados Unidos e México e separava crianças de seus pais na fronteira, para resumirmos. A perseguição a muçulmanos em território americano, iniciada no 11 de Setembro, recrudescia sem qualquer pudor. Nada disso importou para a Fifa, apesar dos alertas. Os mercenários que ditam as leis do futebol preferiram prestigiar as enormes garantias estruturais e financeiras dos americanos, contrabalançando-as com as candidaturas de México e Canadá mediante um discurso expansionista de fancaria.

O tratamento discriminatório conferido à delegação iraniana e o impedimento de entrada no país do árbitro somali Omar Artan são de fato estarrecedores, mas há muito mais acontecendo na “grande confraternização esportiva global”. Há relatos de constrangimento a jornalistas africanos, árabes e latino-americanos, mediante checagem desproporcional e aleatória de equipamentos, revistas em celulares e laptops. A abordagem desses profissionais é comumente agressiva, e muitas áreas abertas à imprensa lhes são vedadas.

O Comitê para Proteção dos Jornalistas (CPJ) e os Repórteres Sem Fronteiras (RSF) emitiram alertas especiais para quem cobre a Copa nos Estados Unidos. As instituições advertiram que credencial de imprensa não garante proteção, jornalistas podem sofrer interrogatórios migratórios, aparelhos eletrônicos podem ser confiscados, mensagens e redes sociais podem ser examinadas e há risco de deportação ou negativa de entrada mesmo com documentação regular. A RSF recomendou desativar o reconhecimento facial do celular, apagar dados sensíveis, sair de contas pessoais antes da entrada nos Estados Unidos e manter contatos jurídicos de emergência em papel.

As emissoras brasileiras que cobrem a Copa do Mundo — em especial a mais poderosa delas, a Rede Globo — compõem esse cenário com notável hipocrisia, exaltando um empolgante clima de confraternização entre seleções, torcedores e nações. Tangenciam a xenofobia americana, com relatos sumários e pontuais, como se a prática discriminatória se resumisse a casos isolados. Além de tudo isso, os brasileiros têm de engolir uma seleção desprovida de personalidade, formada por moleques precocemente tornados celebridades, mas cujo futebol passa longe da bola redonda que jogamos um dia.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.