A crise da União Europeia e a ascensão do autoritarismo no século XXI

O processo de chegada de pessoas com culturas e modos de vida diferentes em um momento de crise econômica, gerou um sentimento de insatisfação, em que os imigrantes eram vistos como invasores disputando empregos e superlotando os sistemas de assistência social

Brexit
Brexit (Foto: Neil Hall/Reuters)
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O processo de constituição da União Europeia é longo e nunca esteve livre de polêmicas, mas sempre se manteve em constante desenvolvimento, chegando a adotar uma moeda única em determinado grupo de países membros. 

Porém, este processo de integração passa agora por uma crise que tem como seu principal marco o referendo que definiu a saída do Reino Unido do bloco, conhecido como “Brexit” e está marcada pela ascensão política de grupos de xenófobos. 

Embora se possa definir uma série de fatores como responsáveis pela crise, os mais relevantes podem ser apontados como sendo de ordem econômica e cultural, intimamente conectados. 

A partir de 2008, com a crise financeira internacional, a União Europeia passou por um longo período de instabilidade econômica, com baixo crescimento e graves problemas fiscais em alguns de seus membros, como Grécia e Itália. Isso gerou consequências como desemprego e recuo em políticas de bem estar social junto à população. 

Em paralelo, ocorria no Oriente Médio uma série de confrontos que desestabilizaram a região, gerando uma onda de imigrantes de países muçulmanos buscando melhores condições de vida no continente europeu. Esta questão não é recente, pois como Samuel Huntington afirma em seu “O choque de civilizações e a recomposição da ordem mundial”, já nos anos 1990, dois terços dos imigrantes eram de origem muçulmana e com uma taxa de natalidade superior ao dos nativos. Além disso, as comunidades muçulmanas davam poucos sinais de se integrar a cultura local, mas pelo contrário, tendiam a reforçar sua própria identidade cultural. Segundo o autor, se observava um preconceito seletivo, bem menor com relação a imigrantes das regiões pobres da Europa.

Em tempos mais recentes, de acordo com Andrya Mickaelly da Silva Santos no seu artigoA Inglaterra e a retórica do Ukip contra a imigração: A influência dos nacionalistas para o Brexit”, a crise dos refugiados tomou grandes proporções, principalmente a partir de 2013, quando a crise na guerra da Síria se intensificou e grandes grupos de refugiados começaram a chegar às ilhas gregas, levando a União Européia a decretar crise sobre o tema. Esta situação provocada em grande parte devido à desestabilização do Oriente Médio pelas potências ocidentais ocorre em um período de grande recessão econômica, como relata Carlos Frederico Pereira da Silva Gama, no artigo “O Reino Unido deixa a União Européia em um mundo parcialmente globalizado em crise”, publicado no periódico BOCA da Universidade Federal de Roraima (UFRR), destacando que, quando se consuma o “Brexit”, o mundo ainda não havia se recuperado da última grande crise econômica, ao mesmo tempo em que as democracias liberais e as relações internacionais se deterioravam. 

Este processo de chegada de pessoas com culturas e modos de vida diferentes em um momento de crise econômica, gerou um sentimento de insatisfação, em que os imigrantes eram vistos como invasores disputando empregos e superlotando os sistemas de assistência social. 

Andrya Mickaelly da Silva Santos, em outro momento, na mesma obra, ressalta que a identidade é um processo contínuo de construção onde vários elementos da vida do ser humano vão moldando seu ser, absorvendo elementos do lugar onde vive, na troca com outras pessoas, formando assim sua identidade cultural, construindo seu “eu” e permitindo um reconhecimento do seu papel em determinada sociedade. Pode-se dizer que nesse sentido, parcelas significativas dos europeus passam a enxergar principalmente nos muçulmanos, um “outro”, a ser combatido para se reafirmar sua própria identidade. Como conseqüência, este sentimento tem sido explorado por líderes populistas de extrema direita para conseguir apoio popular, ascender ao poder e colocar em prática projetos de poder autoritários.

Pode-se afirmar, portanto, que este encontro de culturas diferentes em um contexto de crise econômica, desemboca no fortalecimento de partidos e líderes populistas e autoritários de extrema direita, cuja principal plataforma se baseia em ataques contra a imigração e a União Europeia com suas políticas humanitárias e fronteiras abertas entre os países membros, por exemplo. 

O “Brexit” mostrou que o risco de uma dissolução do bloco europeu é real, colocando em perigo a própria democracia, já que os populistas de direita europeus geralmente se caracterizam por ideias arbitrárias e culto ao uso da força na resolução de divergências.

Diante deste cenário, é preciso uma união pragmática entre diversos setores da população europeia, no sentido de frear o avanço das organizações de extrema-direita e a propagação de suas ideias. Esta união deve deixar de lado as diferenças em nome da defesa de um bem maior. A própria história da Europa nos mostra as consequências de deixar que líderes autoritários se coloquem no poder sem resistência e limites, principalmente explorando sentimentos de preconceito cultural contra segmentos minoritários da sociedade. 

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