A cultura pede a palavra

Escritores, cineastas, artistas de todas as cores e estilos, homens e mulheres de teatro, acima dos moralismos banais, não vamos nos intimidar: o bastão da inteligência está conosco. Temos de segurá-lo e devolvê-lo ao mundo. Talvez assim saiamos desta tenebrosa crise de valores



Sartre, não sem humor, costumava comentar que os intelectuais se caracterizam por se meter onde não são chamados. Queria dizer com isso, que gozavam de uma independência fundamental para o conjunto da sociedade, uma vez que nada os detinha na exibição de seus pontos de vista. Estávamos numa época em que a administração pública tinha de prestar contas à comunidade, não só por via eleitoral, mas, além dela, junto a uma opinião que, por sua própria natureza, devia se fazer crítica. Durante a ocupação, Picasso recebeu em seu ateliê em Paris um oficial nazista. Posto contra a parede ao lado de Guernica, o seu grande painel contra o bombardeio da cidade espanhola – o militar lhe interpelou: - O senhor fez isto? Respondeu sem pestanejar: - Não. Foi o senhor quem fez.

Hoje, no Brasil, sofrendo de um vazio de ideias, temos saudades daquelas pessoas e de sua coragem. Nem sempre vivemos num deserto. À época da ditadura de Vargas, levado à cadeia pelas intrigas de inimigos, Graciliano Ramos, valendo-se até de papel higiênico para escrever, nos legou Memórias do Cárcere, um documento de extraordinário valor existencial, literário e de questionamento político. Mais tarde, no início dos anos sessenta, um banqueiro, compreendendo que um país não se faz sem cultura, abriu-se ao financiamento do nosso mais inquietante e criativo cinema, com Glauber Rocha à frente. Criou-se uma produção cinematográfica impressionante para nós e para o restante do mundo. 

A entrevista concedida por Caetano Veloso ao programa de Pedro Bial na TV Globo, reabriu a necessidade de tais reflexões. Não se trata, neste momento, de pôr ninguém na cadeia, mas de mergulhar os “inimigos” no meio de uma cortina ideológica pela qual só se pode afirmar o que convém. Caetano possui personalidade e opiniões próprias. Não obedece a censuras. Fez carreira dizendo o que pensa. Se agora recusa a pecha de “liberaloide”, ninguém conseguirá dobrá-lo em função disso. É preciso recordar que o papel do Estado no quadro da cultura, como algo fundamental no interesse dos países, se deveu a André Malraux, sob o governo De Gaulle. Ele ocupou a pasta e estampou diante da opinião pública, o que se precisava fazer nessa área. Para começar, limpou a cidade de Paris, obscurecida pela pátina do tempo e pela poluição dos automóveis. Descobriu-se a sua verdadeira cor e a origem de seu patrimônio, uma pedra ligeiramente rosada e muito bonita. No Brasil, reconhecendo a importância de sua postura política, passamos a abordar as cidades, sobretudo o Rio de Janeiro, de maneira nova – com fachadas bem conservadas. Foi necessário um governo tomado por gente ignorante para, numa penada, extinguir do organograma ministerial a pasta da cultura. 

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A presença de Caetano Veloso e a independência do que afirmou no programa do Bial trouxe de volta a figura do intelectual descrito por Sartre. Se não tomarmos cuidado, naufragaremos, com os nossos governantes, no lodo da estupidez. Esqueceremos do que somos e do que já fomos capazes. Mesmo que não estejamos numa boa fase, entendemos que é preciso tomar a palavra e falar. Escritores, cineastas, artistas de todas as cores e estilos, homens e mulheres de teatro, acima dos moralismos banais, não vamos nos intimidar: o bastão da inteligência está conosco. Temos de segurá-lo e devolvê-lo ao mundo. Talvez assim saiamos desta tenebrosa crise de valores. 

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