A deusa Têmis e o Supremo

Uma nuvem escura pairava sobre o palácio, prenunciando tempestade próxima. A deusa Têmis desceu do seu pedestal na praça, caminhou célere para a sede do Supremo e foi para o gabinete da presidente convocando reunião de emergência da Corte. - Senhores, eu precisava falar-lhes – disse Têmis. – Perdi o respeito do povo, que antes me considerava a mais séria das instituições. E hoje todo mundo questiona as minhas decisões

Uma nuvem escura pairava sobre o palácio, prenunciando tempestade próxima. A deusa Têmis desceu do seu pedestal na praça, caminhou célere para a sede do Supremo e foi para o gabinete da presidente convocando reunião de emergência da Corte. - Senhores, eu precisava falar-lhes – disse Têmis. – Perdi o respeito do povo, que antes me considerava a mais séria das instituições. E hoje todo mundo questiona as minhas decisões
Uma nuvem escura pairava sobre o palácio, prenunciando tempestade próxima. A deusa Têmis desceu do seu pedestal na praça, caminhou célere para a sede do Supremo e foi para o gabinete da presidente convocando reunião de emergência da Corte. - Senhores, eu precisava falar-lhes – disse Têmis. – Perdi o respeito do povo, que antes me considerava a mais séria das instituições. E hoje todo mundo questiona as minhas decisões (Foto: Ribamar Fonseca)

O dia cinza, frio, criava um ambiente sombrio. Uma nuvem escura pairava sobre o palácio, prenunciando tempestade próxima. A deusa Têmis desceu do seu pedestal na praça, tirou a venda dos olhos e caminhou célere para a sede do Supremo, onde foi passando pela portaria sem ser incomodada e seguiu direto para o gabinete da presidente:

- Convoque, por favor, uma reunião de emergência da Corte. Eu preciso falar.

- Falar o quê?

- Prefiro falar quando todos estiverem reunidos, pois tenho muito para dizer...

Em cerca de uma hora todos estavam reunidos, surpresos e expectantes, curiosos quanto ao motivo da convocação.

- Senhores, eu precisava falar-lhes – disse Têmis após ocupar a tribuna. – Não aguento mais ser olhada com desconfiança e indignação. Perdi o respeito do povo, que antes me considerava a mais séria das instituições. E hoje todo mundo questiona as minhas decisões.

- Mas o que aconteceu? – um dos presentes arriscou a pergunta.

- O quê?? Eu que uso uma venda nos olhos e vocês é que não enxergam? Até os belgas e alemães estão vendo lá de longe o que acontece neste país, as arbitrariedades cometidas por um juiz de primeira instância, e vocês não sabem? Em que planeta vocês estão vivendo?

Os membros da Corte se mexeram incomodados em suas poltronas, mas ninguém ousou interrompê-la.

- Juristas e jornalistas do mundo inteiro criticam o comportamento do magistrado – a deusa continuou - que usa o poder do cargo para perseguir inocentes, à vista de todos, e o órgão superior da Justiça nâo vê nada, não toma nenhuma providência para conter as injustiças?

E após ligeira pausa, olhando direto nos olhos de cada um dos presentes, prosseguiu:

- Enquanto ele condena quem não tem contra sí nenhuma prova de corrupção, apesar da sua vida ter sido virada do avesso, vocês soltam quem foi flagrado carregando malas com dinheiro de propina. Que Justiça é essa que eu não conheço?

- Bem, nós...

Têmis ignorou a interferência e continuou:

- O pior cego é aquele que não quer ver. E vocês, lamentavelmente, parece que não querem ver mesmo nada, nem mesmo a farra que o Presidente faz com o dinheiro público para manter-se no cargo, permitindo que o povo faça mau juizo de mim.

- Escute, dona Têmis...

- Dona Têmis, um cacete! Só existe uma Justiça. Não pode haver dois pesos e duas medidas. Até admito que a Justiça possa ser cega, mas não pode ser burra, parcial e arbitrária. Quem não tem vocação para magistrado não devia fazer concurso. E esse moço, que parece estar mais preocupado em ser notícia do que em fazer justiça, não pode ver uma câmera que logo faz pose. Ele devia ser ator de novela, pois gosta de ser aplaudido por onde passa...

- E o que a senhora quer que a gente faça? – indagou outro integrante da reunião.

- Nada mais do que o seu dever como guardiões da Constituição, cumprindo e fazendo cumprir as leis. Vocês não podem mais continuar se fingindo de cegos, surdos e mudos. É preciso recuperar a confiança da população, hoje decepcionada e desiludida com a Justiça.

Os presentes se entreolharam.

- E digo mais: se vocês não tomarem nenhuma providência para conter os abusos desse moço e do Presidente eu vou embora. Desço do pedestal, tiro a venda e volto para a Grécia, para os braços de Zeus. Não suporto injustiças, violências ou ditaduras e se o país entrar nessa prefiro não estar perto.

- Mas a senhora não pode ir embora. O país não pode ficar sem Justiça...

- Ah, não? Então façam alguma coisa, porque o país já está praticamente sem Justiça.

Dito isso a deusa Têmis desceu da tribuna e voltou para o seu pedestal, mas antes de subir e colocar de novo a venda nos olhos deu uma espiada para o prédio do Supremo e viu pela janela os homens de preto em acalorada discussão. "Espero que depois disso eles se conscientizem da importância do seu papel no contexto da Democracia e façam Justiça", pensou, desenhando um leve sorriso no canto da boca.

 

 

 

 

 

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