A dialética da complexidade

Nunca tivemos uma república democrática, laica e regida pela isonomia das leis. Mas sim o modelo de uma grande família, com o chefe, seus parentes e agregados - como no sistema de parentela. E o familismo amoral como regra. Daí o império das oligarquias locais, estaduais e federais

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Um famoso antropólogo francês elaborou uma teoria chamada teoria da complexidade, querendo dizer que os fenômenos humanos e sociais não seriam passíveis de serem estudados por métodos generalizantes, como ocorre nas ciências naturais. O objeto específico de estudo das ciências humanas é muito complexo e exige um outro tipo de método de estudo. Mais profundo e individualizante, dada as nuances do fenômeno estudado.

Que dizer do nosso país? enquanto objeto de estudo? - A dialética da feijoada, como já propôs um ensaísta? - A dialética da malandragem (pragmática), como disse Antônio Candido, Roberto Schwarz e Roberto Goto? - Afinal, qual o método que pode abarcar a complexidade da sociedade brasileira?

País de extração católica, ibérica, patrimonialista e messiânica, nosso país parece resistir as análises weberianas que tratam do processo da modernização, a partir do modelo da racionalidade instrumental, baseada na moral puritana do trabalho e no mito do self-made-man. Ou no triunfo puro e simples do auto interesse, do lucro, da cálculo e da acumulação.

A teoria do Brasil, para usar a expressão do saudoso Darcy Ribeiro, deveria contemplar o elemento báquico, dionisíaco, lúdico, festivo e bioenergético de suas origens étnicas e culturais. Isso deveria nos distanciar da civilização burguesa e cristã reformada da Europa, e nos aproximar dos povos mediterrâneos, árabes ou semitas, de sangue africano, nômade e dedicado à mercancia. Não à terra, ao trabalho sedentário, à produção de utilidades.

Pior é sugerir a imagem da Casa Grande patriarcal e do homem cordial como modelo de Estado e Sociedade no Brasil. Então nós nunca tivemos uma república democrática, laica e regida pela isonomia das leis. Mas sim o modelo de uma grande família, com o chefe, seus parentes e agregados - como no sistema de parentela.

E o familismo amoral como regra. Daí o império das oligarquias locais, estaduais e federais.

O advento da democracia participativa e da sociedade civil e da moralidade cívica deveria ter mudado essas "raízes ibéricas do Brasil". O curto  interregno da democracia participativa no país não foi suficiente para mudar o quadro atávico das instituições e da sociabilidade brasileira.

Diria o outro as reformas só avançam no Brasil a partir de coalizões centralizadoras, típicas de governos autoritários. Então, no ambiente de liberdades públicas e do chamado estado democrático de direito, elas não prosperariam? - O arremedo de democracia representativa, da divisão dos poderes e do voto popular é a incubadora das crises institucionais, que opõem o parlamento ao Executivo e permite o judiciário legislar?

Onde anda a cultura cívica de outrora dos ensaios de "orçamento participativo" de prefeitura democráticas e populares? - Tomado de assalto pelo nacionalismo de direita das classes médias, amedrontadas pelo fantasma da proletarização? Substituída pelo fundamentalismo e a teologia da prosperidade das igrejas pentecostais e neopentecostais?

Será que precisamos nos preparar para uma guerra civil, antecedida pela batalha ideológica da fé e do anticomunismo?

O fantasma do golpe.

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