A dicção de Lula se fortaleceu

A qualidade do enunciado político que Lula é capaz de produzir e tal que deixa muito pouco espaço para a emergência de outro discurso, ou mesmo, para enunciados terceirizados supostamente portadores de sua mensagem

Lula
Lula (Foto: Gustavo Conde)

Nesse frenesi que é escrever sobre o país e a democracia todo o santo dia, um pequeno detalhe me veio à mente. A realidade muda todos os dias, óbvio. A leitura da realidade, nem tanto. A reflexão equilibrada é aquela que consegue mediar essas duas instâncias com o mínimo de objetividade e caráter. 

Tal é a densidade de mudanças nessa última semana pós julgamento, que ficou até difícil organizar as ideias. Às vezes, a história acelera. É assim mesmo. Foi uma semana que valeu por uns seis meses ou mais.

Teve idas e vindas, toalhas jogadas, declarações a esmo de todos os lados do espectro político e a habitual indigência intelectual da direita seguida de seu mais fiel seguidor, o golpe.

Rezam as boas práticas de redação que quando o terreno é assim tão movediço, a prudência deve restituir alguma cifra de espera na vertigem dos textos. Traduzindo: há momentos em que é melhor esperar um pouco antes de sair atirando.

Curioso como essa timing reflexivo e mobilizador tem a ver com Lula. Porque foi exatamente ele quem nos forneceu a senha para desacelerar: ele se resguardou no momento pós julgamento, com extrema elegância e profundo respeito pela democracia - esta singela instituição momentaneamente suspensa de suas atividades normais.

Só há, infelizmente, um efeito colateral. Um efeito colateral perigosíssimo e ao mesmo tempo pedagógico: quando Lula se cala, as múltiplas ramificações ideológicas à sua volta tomam a palavra. E isso nem sempre dá muito certo.

A qualidade do enunciado político que Lula é capaz de produzir e tal que deixa muito pouco espaço para a emergência de outro discurso, ou mesmo, para enunciados terceirizados supostamente portadores de sua mensagem.

Resumindo: quando falam por Lula, a coisa fica feia.

Lula, no entanto, é tão insuportavelmente inteligente, que reserva esses momentos de silêncio controlado e deliberado para ver quem é quem. O cabra é bom.

Em suma: agora – nesse exato momento em que escrevo - ele retoma o raciocínio e volta a dar as cartas no cenário político, fortalecido pela pesquisa do Datafolha.

O que vocês acham que prevaleceu esse ínterim? O julgamento ou a pesquisa? Óbvio que a pesquisa. O julgamento já morreu, foi debochado mundo afora. É um evento da ordem do risível e do ridículo. É lei. Mas ser apenas lei não basta, não num mundo clivado por demandas sociais infinitas.

Retomado o discurso, o jogo recomeça. E peço que atentem para mais uma singela percepção deste humilde missivista: Lula virá turbinado. Será um Lula 3.0, atiçado para receber uma terceira votação consagradora, investido de novas cifras de dicção política para infernizar a vida de seu inimigo sem face, essa quimera erigida na lama do judiciário e da Rede Globo.

Só Lula para enfrentar esse monstro. Só Lula para compreender como enfrentar esse monstro. Só Lula para subverter a ordem da realidade e instalar outra coisa no lugar. Ele chegou até aqui e não vai parar mais.

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