A difícil arte de se fazer a paz

"Ao abrirmos o caminho da paz, estaremos garantindo não só o fim da infâmia fascista, mas a rápida reconstrução de nossa nação, sob pena de, se assim não o fizermos, convergirmos todos para uma convulsão social com resultados nefastos e imprevisíveis", aponta o historiador Carlos d'Incao

(Foto: Stuckert)

A direita brasileira passa por um rápido processo de degeneração e desagregação. Há uma verdadeira guerra civil no seu interior que tem como ponta do iceberg a divisão do fundo eleitoral e uma tentativa de fusão entre o PSL e o DEM.

Nas águas profundas desse processo autofágico da direita está a ingovernabilidade de um projeto econômico ultra neoliberal, o iminente isolamento internacional do Brasil sob o ponto de vista político, o desgaste da popularidade de Bolsonaro - um presidente sem liderança e capacidade de governar o país e, por fim, o fato concreto que nenhuma fakenew pode mascarar: a miséria cresce de maneira incendiária e começa a atingir as camadas médias da sociedade brasileira.

É muito tentador - sob o ponto de vista daqueles que tinham a convicção de que a eleição de Bolsonaro ocasionaria esse caos no país - se deleitar com o “circo pegando fogo” e ficar tripudiando sobre aqueles que foram ludibriados pelo Messias.

Mas esse posicionamento está errado.

Um dos grandes erros de Bolsonaro foi acreditar que sua vitória iria exterminar com a esquerda. Ensaiou uma nova edição do “Brasil. Ame-o ou deixe-o.”; e pensou que suas ações contrárias à conciliação poderia dar um resultado a seu favor. Quando assumiu, deixou claro que não seria o presidente de todos os brasileiros, mas apenas dos seus eleitores.

Essa é uma das mais fortes características fascistas de Bolsonaro: tentar eliminar a oposição. Na segunda guerra mundial, uma das forças motrizes que fizeram os soviéticos vencerem os nazistas foi justamente o fato de que não havia nenhuma outra opção senão lutar até a morte contra as hordas fascistas alemãs e seus aliados. Se entregar significava ser morto ou escravizado.

Quando os soviéticos começaram a vencer a guerra, houve aqueles que queriam responder as agressões nazistas na mesma moeda, mas foram detidos pela inteligência do alto comando do Exército Vermelho.

Caso o inimigo se rendesse aos soviéticos, seria apenas preso. Não seria fuzilado e nem escravizado. As cidades alemãs ou polonesas resistentes à contra-ofensiva soviética foram ocupadas sem violar civis e sem destruir de forma deliberada seus monumentos históricos. A ideia era mostrar que a derrota do nazismo era o início de uma nova era de paz e reconstrução.

Assim sendo, a vitória sobre o fascismo foi também realizada por um difícil (porém necessário) processo de implementação da saída para a paz dentro de uma guerra em andamento.

Caso não houvesse esse movimento, esse conflito bélico poderia ter sido muito mais longo ou poderia a Europa ter se tornado numa enorme Grécia, com uma guerra civil infernal, longa e altamente destrutiva.

Voltemos ao Brasil.

Agora que chegamos ao ocaso da direita bolsonarista é a hora da ofensiva das forças populares. O PT fez um excelente serviço em desenvolver um plano de geração de empregos e reestruturação da economia brasileira através de medidas simples e de baixo custo. Mas ainda resta um plano de pacificação da parcela do povo brasileiro que ainda está contaminado pelo ódio destilado pela grande imprensa e pelo próprio Bolsonaro.

A ideia é atuar junto a essa população com firmeza, mas deixando claro de que, ademais as diferenças políticas, é necessário acabar com as hostilidades de ambos os lados, cessar as palavras de ordem que acusam a esquerda de não desejar a defesa da soberania nacional e o desenvolvimento do país e, por fim, apontar que a paz é fundamental para reconstruirmos a nossa República.

Ainda mais fundamental é apontar que a esquerda brasileira é democrática e que não está em sua agenda o extermínio da direita mas sim a convivência plural entre todos, desde que não haja grupos que queiram cometer crimes de traição à pátria.

Construir a paz exige reunir firmeza com flexibilidade. Exige força nas palavras e nas ações sem destruir a integridade e os direitos dos oponentes, de modo que esses possam continuar a viver com suas convicções, desde que não arranhem os princípios da democracia e do Estado de Direito. Lembremos sempre que os inimigos não são os pequenos empresários, os trabalhadores e os profissionais liberais que votaram no Bolsonaro, mas sim o grande capital financeiro nacional e internacional, materializado no oligopólio formado pelos Bancos.

Lançar ações propositivas e um sistemático plano de paz com a população que votou na direita - sem abrir mão de princípios progressistas - são as chaves do sucesso para a vitória da esquerda e do Brasil.

Chega de tanto ódio, chega de ofensas, chega de ilusões armadas, chega de devaneios histéricos que acreditam que seremos um dia uma nação com pensamento único, seja ele progressista ou conservador.

Ao abrirmos o caminho da paz, estaremos garantindo não só o fim da infâmia fascista, mas a rápida reconstrução de nossa nação, sob pena de, se assim não o fizermos, convergirmos todos para uma convulsão social com resultados nefastos e imprevisíveis.

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