A dor é uma só

Cada um com sua dor e que a dor do outro seja tão compreendida quanto a nossa própria. Porque, na real, a dor carioca é uma só. Ou melhor, como disse um amigo escritor, nossa dor é fluminense

Cada um com sua dor e que a dor do outro seja tão compreendida quanto a nossa própria. Porque, na real, a dor carioca é uma só. Ou melhor, como disse um amigo escritor, nossa dor é fluminense
Cada um com sua dor e que a dor do outro seja tão compreendida quanto a nossa própria. Porque, na real, a dor carioca é uma só. Ou melhor, como disse um amigo escritor, nossa dor é fluminense (Foto: Bia Willcox)

Há muito o Rio de Janeiro vem se transformando num espécie de trem fantasma. O sol que brilha no Rio tem um ponto escuro e obscuro que vem crescendo continuamente. Estamos nos tornando os grandes reis da dor. (Sim, Sting nos traduziu antecipandamente esse hoje carioca).

Estamos nos habituando com a dor - vivemos com ela, numa espécie de anestesia.

E de repente, a cidade do Rio, não-oficialmente bipartida, se vê divida em sua dor. Nas redes sociais, viu-se mais uma comoção em torno do esfaqueamento e morte de um médico que pedalava na Lagoa e, em paralelo, uma infinidade de críticas sócio-ideológicas às manifestações de choque e repúdio ao assassinato do ciclista: "Não vejo a mesma indignação quando se morre nas comunidades e favelas fora da sona sul" , Quando há um assassinato na zona sul da cidade o carioca da zona sul se mobiliza", "Morreram 2 jovens na ilha no mesmo dia da morte do ciclista e a mobilização nas redes foi bem menor".

Entendo a crítica e o alerta para essa diferença de reações. É uma crítica ao pra lá de conhecido playboysismo, egocentrismo e elitismo da zona sul que não permite enxergar com a mesma indignação e choque os massacres e injustiças que acontecem pra lá do túnel Rebouças. É a velha crítica ao que todos nós conhecemos bem: as diferenças econômicas e sociais que determinam o grau de importância que algum fato passa a ter na cidade (e claro, não deveriam num mundo ideal).

A possibilidade de se identificar com a vida e as questões do outro traz proximidade. E a proximidade, física ou não, faz com que a empatia seja maior.

Empatia é a dor do outro, pelo outro. Alguns são mais e outros menos empáticos. Claro que há mais envolvidos com os problemas alheios que outros - mais solidários até. Questão de personalidade.

Mas há algo que não se pode negar: sofremos mais com o que está mais próximo de nós e de nossa realidade.

É mais fácil me ver "lascada" numa situação de alagamento no Rio do que numa avalanche no Nepal. Fato.

Comover-se mais com uma tragédia de um vizinho de bairro num lugar onde frequentamos é pra lá de natural. Diria que é humano.

Assim como há os que tenha se consternado mais com a morte do brasileiro Marco Archer na Indonésia do que outros. Assim é. Sempre.

Uma questão de identificação, de sobrevivência e de medo.

Isso não deve ser um fator que acentue as diferenças na cidade. Chamar à realidade do todo é importante, mas não é hora de bipartirmo-nos mais do que já estamos.

Cada um com sua dor e que a dor do outro seja tão compreendida quanto a nossa própria. Porque, na real, a dor carioca é uma só. Ou melhor, como disse um amigo escritor, nossa dor é fluminense.

E quiçá uma dor brasileira.

"Mesmo nossa própria dor não é tão
pesada como a dor co-sentida com outro,
pelo outro, no lugar do outro, multiplicada
pela imaginação, prolongada em centenas de ecos". Milan Kundera

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