A equação Mourão

"Alguns dos três principais fatos da semana, que foram o fiasco de Jair Bolsonaro em Davos, a descoberta das ligações entre sua família e o Escritório do Crime, a milícia suspeita de matar a ex-vereadora Marielle Franco, e o veto da Arábia Saudita às importações de carne brasileira, apontam para o fim precoce de uma administração que já se revela falida", diz o jornalista Leonardo Attuch, editor do 247. "Em 2018, na disputa presidencial, a elite brasileira teve a opção de escolher entre um professor universitário e um político profissional, que passou 28 anos proferindo discursos de ódio. Escolheu-se a segunda opção. Agora, cabe ao país encontrar a porta de saída"

A equação Mourão
A equação Mourão (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Alguns dos três principais fatos da semana, que foram o fiasco de Jair Bolsonaro em Davos, a descoberta das ligações entre sua família e o Escritório do Crime, a milícia suspeita de matar a ex-vereadora Marielle Franco, e o veto da Arábia Saudita às importações de carne brasileira, apontam para o fim precoce de uma administração que já se revela falida. Tudo aponta para um presidente incapaz de representar uma nação do peso que tem o Brasil, envolvido com milícias e que já causa prejuízos à burguesia nacional. A questão agora é como removê-lo do cargo ou, em outras palavras, como desenhar a equação Hamilton Mourão.

Comecemos pela economia. Para os setores do agronegócio e do sistema financeiro que promoveram sua ascensão, Bolsonaro já se tornou absolutamente desnecessário. Mais do que isso, virou um estorvo. O veto às exportações era pedra cantada desde que o clã Bolsonaro e o chanceler Ernesto Araújo anunciaram a transferência da embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para a Jerusalém. Ciente do desastre, o vice Mourão já havia dito que Ernesto Araújo – na prática, um pau mandado do deputado Eduardo Bolsonaro – seria incapaz de formular a política externa. E também que o Brasil não pode "falar e depois desfalar".

Na economia, também não devem ser menosprezadas falas como a do Nobel de Economia, Robert Schiller, que disse que "o Brasil merece melhor", e a péssima repercussão da passagem de Bolsonaro por Davos. São danos irreparáveis à imagem de um país que ainda é uma das grandes fronteiras de expansão capitalista no mundo e que, até outro dia, era cantado em prosa e verso como potência do século 21. Ser representado por alguém que almoça sozinho no bandejão de Davos – seja por populismo, seja por falta de amigos – não ajuda em nada o Brasil.

O problema mais sério, no entanto, diz respeito à operação "Os Intocáveis", que se volta contra o Escritório do Crime, a milícia de Rio das Pedras, comandada pelo ex-policial Adriano da Nóbrega, que empregou a mulher e a mãe no gabinete de Flávio Bolsonaro. Numa de suas primeiras reuniões como presidente interino, o vice Mourão recebeu o embaixador da Alemanha Georg Witschel, que lhe falou da apreensão da Alemanha e da Europa com um Brasil presidido por alguém sem nenhum compromisso com o respeito aos direitos humanos. Se vierem a público mais revelações sobre o envolvimento da milícia bolsonarista com o assassinato de Marielle, o caldo entornará de vez.

Em 2018, na disputa presidencial, a elite brasileira teve a opção de escolher entre um professor universitário e um político profissional, que passou 28 anos proferindo discursos de ódio. Escolheu-se a segunda opção. Agora, cabe ao país encontrar a porta de saída.

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