A falsa autocrítica de João Doria

Frase marcante em coletiva de imprensa para virar manchete em portal de notícia não salvará vidas

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O governador João Doria sem dúvida é um bom marqueteiro. Mas não tem lá muito apego à coerência política. Em 2018, o slogan Bolsodoria foi seu grande carro chefe no segundo turno das eleições. Agora, percebendo que a direita brasileira precisa de um novo quadro nacional para jogar debaixo do tapete o lastimável resultado de ter colocado Bolsonaro na presidência, tenta se construir como o grande contraponto democrático no país, como se ele próprio não tivesse jogado água nesse moinho.

Agora, pressionado pela grande visibilidade que os casos de violência policial têm tido na mídia brasileira, faz novamente um grande giro. Durante as eleições, Doria disse que, se eleito, a PM de SP atiraria para matar. E de fato, a tarefa foi cumprida. Em meio à pandemia, em que as medidas de isolamento social esvaziaram as ruas, foi registrado um aumento “recorde” de 55% do número de mortes por intervenção policial.

Hoje, na coletiva de imprensa do governo estadual, o Secretário de Segurança Pública deu a pífia explicação de que esse aumento se deve ao fato de que os policiais estão chegando nos locais dos crimes mais rápido pela falta de trânsito, e por isso ocorrem mais confrontos com (sic) bandidos, e consequentemente mais mortes. E Doria, que pensa que a gente tem memória curta, diz que a violência policial não será tolerada em São Paulo.

Tudo balela, como a gente bem sabe. O aumento de mortes praticadas pela PM não tem nada a ver com agilidade no atendimento de ocorrências. Como se matar mais e mais rápido fosse alguma mensuração válida de eficiência. O governador que se julga um gestor tão capacitado teria dificuldade de encontrar especialistas que corroborassem essa avaliação. Menos pessoas na rua, na verdade, significa menos gente de testemunha e mais “oportunidade” para as práticas violentas de policiais.

Apesar da violência policial não ser novidade dos últimos meses, a bem da verdade é que cada vez ela está mais legitimada pelas instituições do Estado. No imaginário dessas corporações, ganhou-se um salvo conduto não formalizado, baseado numa agenda de segurança pública que não tem nada a ver com enfrentar a criminalidade. A perversa proposta da excludente de ilicitude do pacote anticrime de Moro, a insistente agenda pró-armamento de Bolsonaro, a comemoração grotesca de Witzel pela morte de um homem no desfecho de um sequestro, e, mais recentemente, a supressão dos dados referentes à violência policial feita pelo governo federal no relatório anual do Disque Direitos Humanos. É o anticientificismo penal combinado com uma política de genocídio da juventude negra e periférica.

Se João Doria quisesse de fato modificar esta realidade e ser coerente quando diz que não aceitará mais casos como os que assistimos diariamente nos noticiários – que agora resolveram cumprir o seu papel de denunciar esses casos – que ele apresentasse quais as medidas concretas que o governo do estado de São Paulo tomará. Frase marcante em coletiva de imprensa para virar manchete em portal de notícia não salvará vidas. É mais provável, infelizmente, que se trate apenas de mais uma operação de marketing de um governador cujas ações tem vínculo e coerência apenas com seu projeto político individual.

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