A falsa isenção humana e o Direito à Informação

Por aqui a concentração da mídia nas mãos de poucos grupos empresariais sempre teve como finalidade manter o monopólio da informação na propriedade da oligarquia nacional

A imprensa no mundo é vendida como quarto poder, se coloca e afirma que sua construção é isenta e imparcial diante dos fatos e análises apresentadas.

A todo momento são lançados inúmeros editoriais em redes de televisão e jornais escritos da mídia corporativa que invocam essa suposta isenção, fazendo com que a maior parte da população acredite na “imparcialidade” vendida por “especialistas”, como se os fatos e análises não possuíssem tendências, partidarismos e interesses políticos e econômicos.

No Brasil não é diferente, mas por aqui a concentração da mídia nas mãos de poucos grupos empresariais sempre teve como finalidade manter o monopólio da informação na propriedade da oligarquia nacional, para que o discurso político econômico seja uníssono na defesa dos interesses desta elite financeira.

Segundo Venício Artur de Lima, sociólogo e professor emérito da UNB, “noBrasil existe uma corrupção da opinião pública, porque pouquíssimos grupos empresariais controlam a informação pública e, portanto, o acesso ao debate público".

A interdição da pluralidade de representantes da sociedade no debate público,faz com que a mídia nacional paute apenas aquilo que representa os interesses do grupo econômico que lhe sustenta e, ao vender a ideia de isenção e de conhecimento técnico e específico de seus jornalistas e analistas, faz com que a maior parte da população passe a crer nas narrativas apresentadas por essas poucas empresas jornalísticas. Afinal, não tem sido permitida a concorrência nesse ramo empresarial!

É preciso lembrar a todo instante que seres humanos não são isentos, todos sãoconstruídos a partir de seu ambiente, de sua história pessoal, do acesso à informação e da construção do seu conhecimento e da sua individualidade diante do outro e de sua comunidade. As opiniões e comportamentos, assim, são formados a partir da existência do indivíduo e de sua relação estabelecida com o mundo.

A linguagem é um signo e a comunicação é uma das formas de conexão com ooutro. A informação é tida como um valor e nesse diapasão se fez também como um valor econômico, pois como ela for transmitida e trabalhada conseguirá levar populações inteiras a guerras ou a defender interesses de poucos em detrimento de muitos. Por este motivo a Constituição cidadã de 88 consagrou como garantia fundamental o Direito à informação, com a finalidade de propiciar aos brasileiros a liberdade de escolha, a liberdade de imprensa e a  consequente multiplicidade de visões e perspectivas, para propiciar à população a possibilidade do pensamento livre, plural e democrático.

No entanto, a ausência de regulação da mídia no Brasil, impediu ademocratização do debate público, manteve a concentração do setor com as grandes empresas de jornalismo. Nesse contexto, podemos entender o que ocorreu a partir de 2005, com a construção de uma narrativa única da imprensa brasileira sobre a corrupção nos governos de esquerda, que tiveram como objetivo destruir as lideranças progressistas e desenvolvimentistas no país, para o retorno da velha oligarquia ao poder.

O farsesco processo do mensalão foi uma das demonstrações mais evidentesdo uso da informação como instrumento de manipulação de massas no interesse dos “donos” do país, o qual, por meio da mídia tradicional oligárquica mais uma vez, trouxe o fim do Estado Democrático de Direito, desta vez com a instalação de uma ditadura protofascista disfarçada de Democracia.

É possível observar essa manipulação da informação quando não são noticiadosno país os massacres das lideranças campesinas, indígenas, sindicais, comunitárias e políticas, ou, quando jovens negros e negras das periferias são assassinados e tratados como traficantes e criminosos para justificar sua eliminação, simplesmente, por serem indesejados, desumanizados.

Porém, quando se está diante do jovem, branco, rico, traficante e criminoso anotícia é dada como se fosse apenas um mero suspeito, o qual merece uma investigação criteriosa e um sistema judicial justo. Afinal, trata-se de um ‘cidadão de bem’, um ser humano que talvez tenha cometido um pequeno erro, um deslize perante a lei.

Quando, e, se, aparecem notícias dos assassinatos de lideranças da luta pordireitos, igualdade de oportunidades, por cidadania, direito à existência e tantas outras lutas, essas são dadas sem ênfase e desaparecem rapidamente. Não há cobrança das instituições para a resolução, ao contrário, a mídia tradicional protege esses que ocupam cargos públicos para manterem o status quo da oligarquia e continuem a impedir a luta por direitos e democracia.

Como exemplo, tem-se a demonização do MST – Movimento dos Sem Terra –que constantemente tem suas lideranças assassinadas por pistoleiros pagos por grileiros e latifundiários, que possuem grandes propriedades improdutivas e utilizam trabalho escravo. No entanto, a mídia corporativa retrata os campesinos como criminosos, terroristas e invasores, enquanto seus assassinos são acobertados por um sistema judicial ineficiente e que, muitas vezes, opera para proteger aqueles que fazem parte da “primeira” classe, e dispõe do público como se privado fosse.

Também a omissão da informação pode ser utilizada para garantir que aperspectiva da criminalização do Movimento dos Sem Terra seja mantida no  ideário da população, é o que se constata quando a mídia corporativa esconde que a Agricultura Familiar - resultado da luta pela terra – a qual produz alimentos com qualidade e saudáveis, é a responsável por 70% da comida na mesa dos brasileiros, impossibilitando assim que as pessoas conheçam a realidade e passem a apoiar a luta pela terra e a Reforma Agrária no país.

Portanto, a forma como a informação é transmitida – escrita ou oralmente – ouomitida, determinará a análise e a condução do indivíduo junto a sociedade. Como diria Nietzsche, “A partir do momento em que o homem está no mundo, todo seu olhar será dado a partir de uma perspectiva. Se tudo já existia antes dele e se continuará a existir depois, mesmo isto, só pode ser pensado a partir deste homem, isto é, perspectivamente”. (...) Todo pensamento parte de um olhar específico, parcial. Nenhum “conhecimento” pode dar conta de toda a experiência”.

Assim, o que se tem na imprensa tradicional brasileira é a apresentação de umaúnica perspectiva, sem espaço para a diversidade, pois a multiplicidade de visões e diferentes perspectivas sobre os “fatos”, considerando a parcialidade e incompletude do saber de cada indivíduo, traria aos espectadores a possibilidade de se aproximarem do conhecimento sobre o fato noticiado e, a partir dessa diversidade de perspectivas, estabelecer a sua própria visão, consequentemente, se posicionando afetivamente, socialmente e politicamente, o que, por óbvio, contraria os interesses da classe dominante.

A multiplicidade de perspectivas e visões não interessa à oligarquia nacional (eglobal) que, ao contrário, desejam pensamentos e análises uníssonas para criar narrativas e “verdades” absorvidas sem nenhuma análise crítica do telespectador ou leitor.

O Brasil vive neste momento uma gigantesca campanha de manipulação damídia tradicional uníssona e apoiadora do neoliberalismo econômico, quando editorialistas e jornalistas constroem no imaginário da população a ideia da polarização da política a partir da esquerda e centro-esquerda, e, ainda, equiparam os militantes do Partido dos Trabalhadores e Trabalhadoras aos seguidores de Bolsonaro, demonstrando, de maneira evidenciada, a intenção de construir uma terceira via, para impedir que o projeto de um país para todos retorne e que a política neoliberal de interesse da oligarquia nacional e internacional seja mantida e ampliada.

A construção da ideia de polarização e rivalidade entre o ex-Presidente Lula eBolsonaro – não colocar o cargo de Bolsonaro foi proposital e parcial – é querer comparar aquilo que é incomparável, é flertar com o fascismo crescente em nossa sociedade, como se, em algum momento, fosse possível controlá-lo. Tal comparação é perpassada por um comportamento de deslealdade intelectual junto aqueles que possuem o direito fundamental à informação, garantido pela  Constituição Federal de 88. É, simplesmente, conduzir os cidadãos à guilhotina do neoliberalismo.

Não é possível comparar alguém que defende a tortura, a violência do Estado, ahomofobia, o racismo e um Estado Ditatorial com um Democrata, uma pessoa que governou o país para todos, fez a inclusão social, implantou as políticas afirmativas e sempre defendeu o Estado Democrático.

Quando a informação é única e manipulada, o resultado será sempre acondução dos cidadãos em prol dos interesses daqueles que se encontram no comando financeiro e político do país, em total desconsideração aos interesses nacionais e do povo.

Fica, portanto, evidente que manter a concentração da imprensa com poucasempresas não garante ao cidadão o direito fundamental à informação e a libertação nacional só será possível se o país contar com uma imprensa plural, dispensando a falsa ideia de isenção da mídia.  Somente com a variedade de perspectivas e conhecimento os seres humanos serão capazes de se libertar, e decidir seu destino, de sua comunidade e de seu país.

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