A fiel imagem do desleixo e da submissão

O Brasil está à deriva desde 2016. Em janeiro, a nação passou a enfrentar uma procela inexpugnável, sem uma imediata reação popular, organizada e altiva, com a ocupação de espaços públicos para denunciar os ataques à soberania nacional e a ascensão de uma ideologia autoritária e persecutória às minorias

A fiel imagem do desleixo e da submissão
A fiel imagem do desleixo e da submissão (Foto: Ueslei Marcelino - Reuters)

Talvez o terno e a gravata tenham enganado a todos, como um aval de pretensa seriedade de quem vai dentro dele. Porém, a imagem do presidente em trajes alheios à liturgia do cargo, vendendo o desleixo como se simplicidade fosse, é fiel aos quase 50 dos 100 primeiros dias de governo. Há poucos anos a 6ª economia mundial, rico em água, centenas milhões de hectares agricultáveis, diversos minerais, entre esses o petróleo, o Brasil está à deriva, desde 2016. Em janeiro, a nação passou a enfrentar uma procela inexpugnável, sem uma imediata reação popular, organizada e altiva, com a ocupação de espaços públicos para denunciar os ataques à soberania nacional e a ascensão de uma ideologia autoritária e persecutória às minorias.

Enquanto a parte progressista da sociedade está imersa numa disputa de narrativas com quem se posicionou, por interesse ou por engano, ao lado do governo Bolsonaro, gigantes ondas surgem de todos os lados. Na contramão de nações desenvolvidas, o governo afirma que o Brasil não precisa de empresas estratégicas e quer privatizar todo o patrimônio nacional. Também apresentou um projeto anticrime que é uma autorização para assassinar pretos pobres. Note-se que, a cada 23 minutos um jovem pobre, de 19 a 25 anos, é assassinado. Em consonância ao projeto liberalizante em voga, o Tribunal Superior do Trabalho (TST) criminaliza greve em defesa das empresas brasileiras, eficientes, lucrativas e pertencentes a todos os brasileiros. Infelizmente, as medidas tomadas nos últimos 50 dias não favorecem o Brasil nem a maior parte da sociedade, notadamente a classe trabalhadora.

Uma das últimas notícias que nos chega é estarrecedora e deixa ainda mais cristalina a relação da palavra desleixo com a imagem do presidente. Segundo anúncio de um almirante das Forças Armadas dos EUA, o Brasil é, desde a quinta-feira (7), inimigo de Cuba, Venezuela e Nicarágua, países com os quais manteve, até então, muito boas relações diplomáticas. Além de inédito, desde a participação do Brasil na 2ª Guerra Mundial, a decisão foi à revelia da avaliação do Congresso Nacional. Medida unilateral de um dos Poderes da República, que não reflete a condição de soberania do País. O governo também não se pronunciou acerca de uma recente declaração do assessor político americano, Steve Bannon, segundo a qual, o Brasil deve se afastar da China, o maior importador do Brasil, principalmente do agronegócio.

Sem a China, o Brasil aprofundará ainda mais sua crise econômica e o desemprego. Submeter o País a uma ideologia bipolar, em detrimento de uma multipolar, construída ao longo de décadas, limita a nação aos interesses de uma economia mais forte e complexa que a brasileira. Segundo Bannon, o afastamento se justifica porque os chineses não consideram o capital humano brasileiro, mas apenas os seus recursos naturais e seu potencial agrícola. Ora, essa é justamente a justificativa pela qual os EUA querem o Brasil dependente de sua subsidiada e altamente avançada agropecuária, do ponto de vista tecnológico. Caso os EUA estivessem interessados em qualquer capital humano abaixo de suas fronteiras do Sul, não estariam tão empenhados em investir bilhões na construção de um muro que os isolam das Américas Central e do Sul.

Outra medida nada promissora para o Brasil foi tomada, desta vez, pelo chanceler Ernesto Araújo. Ele determinou a exclusão do curso sobre a América Latina, na formação dos diplomatas brasileiros. Em meio a tudo isso e, a partir de um laranjal sem fim, o presidente demonstra absoluto conhecimento acerca do potencial do Brasil e do seu papel de global player, como afirmou Barack Obama. Posar de pijama e chinelo não aludiu à simplicidade, mas à simploriedade de quem não tem condições de governar país da complexidade do Brasil. As decisões do governo e o aconselhamento de um assessor internacional, umbilicalmente ligado à eleição deste, submetem os interesses de mais de 200 milhões de habitantes ao desenvolvimento da nação americana. O País vem perdendo protagonismo internacional, desde 2016. A julgar pelas recentes medidas e o comportamento servil de Bolsonaro, o papel do Brasil será o de coadjuvante.

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