A forra de Datena

Com esse comportamento um tanto malandro, Datena foi à forra contra BolsoNero, sobre quem havia jurado em maio de 2019 que jamais voltaria a entrevistar

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Acabei de gastar preciosos 54 minutos e dois segundos da minha vida para ouvir a intragável entrevista que o Psicopata da República concedeu ao apresentador José Luís Datena, da TV Bandeirantes, na tarde desta sexta-feira, 15 de janeiro. Confesso que senti engulhos, mas resisti.

É inacreditável a cara de pau do despresidente, que mentiu descaradamente e repetiu incontáveis vezes suas inverdades.

A maior delas, reiterada à exaustão: "o Supremo me proibiu de adotar qualquer medida em relação à pandemia". E detalhou: "o Supremo disse que a competência é privativa de prefeitos e governadores". 

Mentira da grossa! 

Na verdade, o STF reconheceu que o governo federal tem "competência concorrente" com municípios e estados para adotar iniciativas de combate à pandemia. Ou seja, reafirmou o que estabelece a Constituição, que todos - presidente, governadores e prefeitos - têm igual responsabilidade, cabendo à União legislar sobre normais gerais, respeitando a autonomia dos demais entes da Federação. Estabelece a Constituição, por exemplo, que  compete aos municípios legislar sobre "assuntos de interesse local", em complemento a normas gerais estabelecidas pela União. Mas o Mitômano-Mor alçado à presidência da República embaralha as cartas com evidente propósito de tirar proveito da ignorância que prevalece na sociedade sobre filigranas jurídicas para lavar as mãos e dizer que as tem atadas pelo Supremo. 

E foi mais longe ao dizer que agora, sim, estaria desafiando o Supremo - como se, em palavras textuais, estivesse se autoacusando de estar cometendo crime de responsabilidade -, já que estaria tomando iniciativas, ainda segundo seu próprio dizer, "interferindo" em assuntos de Manaus e do Amazonas "no tocante a 'cuestões' " referentes à tragédia que seu governo permitiu que se desenvolvesse na capital amazonense.

É inacreditável! Um presidente da República tem dever de lealdade às instituições, de maneira que não pode subverter fatos e mentir na tentativa de hostilizar prefeitos, governadores e ministros do Supremo. É um ataque evidente às instituições, digno de um processo de impeachment por crime de responsabilidade - mais um dentre as centenas que já cometeu. E pensar que uma presidenta foi golpeada, por esse recurso extremo da Democracia, em razão de singelas "pedaladas"...

A verborragia presidencial não poupou João Dória e botou na frente de seu canal disparador de perdigotos nojentos também o presidente da Câmara Rodrigo Maia. Exercitou às náuseas seu caráter homofóbico ao chamar o político paulista reiteradas vezes de "calcinha apertada", questionando sem pejos nem enleios a sexualidade do governador - como se nada mais importante tivesse com que se preocupar -, a quem se referiu como "moleque" e disse, como se falasse diretamente a ele, "você não é homem". Para o preconceituoso Bolsonaro, só há valor em "ser homem".

Interessante foi observar o comportamento de Datena enquanto o despresidente descarregava sua metralhadora giratória verbal com seus intermináveis disparates. O apresentador da Band manteve-se impassível, exibindo cara de poucos amigos durante todo o tempo.

Passada a trovoada de ofensas a Dória, a Maia, ao Supremo, à mídia e até aos deputados estaduais paulistas aliados ao governador, a quem chamou de venais ao mencionar que teriam sido todos "comprados" por ele, começou o sutil espetáculo de Datena. O jornalista da Band simplesmente jantou Bolsonaro, mas com muito jeito, com a elegância de quem degusta um prato de fina culinária. 

Com toda fleugma - inusual num apresentador de TV ao estilo "mundo cão" -, usou uma suposta fala de João Dória, que teria chamado o presidente da República de "facínora", como mote para a própria entrevista. Não foi, no entanto, mostrado vídeo ou áudio em que o governador se dirigisse ao presidente com essa ofensa direta, de modo que tudo ficou em torno exclusivamente da palavra do apresentador. 

Datena acabou deixando suficientemente clara a impressão de estar "terceirizando", na pessoa do político paulista, a realização de seu próprio desejo de carimbar na testa de BolsoNero a marca de "facínora". Repetindo insistentemente que Dória teria usado essa palavra para se referir ao presidente no final de uma entrevista coletiva concedida quase simultaneamente, Datena, sem exagero, utilizou umas trinta vezes a expressão "presidente facínora", no melhor estilo repetir à exaustão até colar, vez ou outra alternada com "presidente bandido".

Datena aproveitou para criticar, com a mesma serenidade, mas sem rodeios, a atuação do ministro Pazuello, indagando ao presidente se não era hora de o afastar do cargo ou se, caso contrário, ele só estaria mantendo o ministro para atender desejo dos militares. Chegou a mencionar o fato de que o próprio BolsoNero teria extravasado seu descontentamento com a atuação do ministro militar da saúde, afirmação refutada pelo presidente. O apresentador também deixou explicitado que não gosta do ministro Paulo Guedes.

Datena foi sereno e cordial todo o tempo - ao contrário do destemperado presidente, mas Bolsonaro em momento algum pareceu ter percebido que seu entrevistador o chamara para uma armadilha (isso considerando que a entrevista tenha sido mesmo iniciativa da produção do programa, como disse de passagem o jornalista, embora o mais provável é que tenha sido do presidente).

Com esse comportamento um tanto malandro, Datena foi à forra contra BolsoNero, sobre quem havia jurado em maio de 2019 que jamais voltaria a entrevistar. A promessa, afinal descumprida, deu-se por conta de referências desabonadoras à equipe da TV Bandeirantes feitas um mês antes pelo presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães, durante a célebre e dantesca reunião ministerial de 22 de abril, de que a emissora paulista "queria dinheiro".

Esse foi o lado divertido da entrevista em que Jair Mentiras BolsoNero deu mais um longo espetáculo de horrores.

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