A Globo não deu, Lula não falou

"Não houve o discurso do Lula. Pelo menos a Globo não deu, achando que ainda estava na época da ditadura, quando o que a Globo não dava, não existia", diz o sociólogo Emir Sader sobre o silêncio dos veículos de comunicação da família Marinho em torno do discurso de Lula

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Foi um 7 de setembro normal. Sem desfile militar desta vez. Com fala de milico do presidente. Balanços das vítimas da pandemia, com culpa dos que vão às praias e não do governo. Sem os que tem que circular de ônibus e trens, não por opção ou para passear, mas para trabalharem ou buscarem trabalho, que é onde a pandemia realmente se propaga e se concentram os mortos.

Não houve o discurso do Lula. Pelo menos a Globo não deu, achando que ainda estava na época da ditadura, quando o que a Globo não dava, não existia.

Existiam os discursos oficiais dos milicos e do Delfim, no máximo havia fotos dos subversivos que teriam resistido à prisão e caíram baleados. Ninguém era torturado, não havia prisões arbitrárias, nem julgado indevidamente.

A Globo tinha se acostumado ao que ela não refletia, da sua maneira, a realidade. Mas ela produzia a realidade, gerava a realidade. A realidade oficial, que era a que interessava projetar.

Na sua esquizofrenia atual, a Globo não noticiou o discurso do Lula, apenas o do Bolsonaro. A Globo não deu, o Lula não falou.

Lula não falou durante 24 minutos em redes de TV, seu discurso não foi reproduzido pelo Valor, pelo Estadão, pela Folha. Nada disso aconteceu, porque a Globo decidiu que não se deu.

Sob o impacto do extraordinário discurso do Lula, que abordou, - como nem ela , nem os outros meios de comunicação tradicionais abordam – todos os grandes problemas que vitimizam o país. Com o diagnóstico e a via de superação desses problemas.

Nada disso existiu. Devemos ter sonhado com o Lula falando o que queremos ouvir, o que gostamos de ouvir e o que eles não gostam e não querem ouvir. Será por isso que a Globo desconheceu a fala do Lula?

Ou será por que não saberia o que dizer, o que criticar, o que agregar, como desqualificar, ainda mais diante do besteirol oficial do presidente de turno? Ou será por que não se refez ainda do choque do Lula dizer tantas verdades? 

Mas a Globo não dá, ainda assim o discurso do Lula existe, o Lula existe, como o maior líder político do Brasil, cuja palavra tem a credibilidade que a Globo perdeu, lá atrás, na época em que reinava soberana, na ditadura militar?

O que andou pela cabeça dos chefões da Globo? Como comunicaram que o discurso do Lula não existiu aos redatores, apresentadores e comentaristas? Os apresentadores não poderiam dizer que o Lula falou, porque o Lula não falou. Os comentaristas não poderiam comentar o discurso que não existiu. Ninguém seria entrevistado para falar sobre um discurso que não se deu. 

A realidade não existe se não cabe no discurso estreito da Globo. Lula foi convidado a dar entrevista para a Globo, mas se negou. Então não falou ontem, não disse nada, os outros meios de comunicação, do Brasil e do exterior, deram eco ao que não aconteceu. Deveriam ter consultado a Globo, antes de reproduzir um discurso que não houve.

Mas a realidade teima em existir, mais além da vontade e das necessidades da Globo. Lula falou, fez um discurso extraordinário, que teve uma repercussão formidável, que trouxe ânimo e horizontes para todos os que não apenas estão contra esse presidente, mas contra todo o seu governo.

O dia amanheceu, apesar da Globo. A fala do Lula repercute e ocupa o espaço central da luta política pela restauração da democracia. Lula se lançou como candidato, apesar dos que acham ainda que podem decidir o que existe e o que não existe.

Lula falou, a Globo não deu, mas milhões ouviram e se sintonizaram com a fala do Lula. A Globo existe, mas já não é mais aquela.

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