A ilusão da desconcentração do setor financeiro brasileiro criada com o caso Nubank

“O caso da enorme valorização do banco digital Nubank comemorada por alguns como se fosse um bom indicador de descontração bancária que deve ser analisada também por outros quesitos para além de valor de mercado, como ativos totais, depósitos totais e nº de operações de crédito”, diz o colunista Roberto Moraes

Nubank
Nubank (Foto: Paulo Whitaker/Reuters)
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Ainda sobre o caso da enorme valorização do banco digital Nubank comemorada por alguns como se fosse um bom indicador de descontração bancária que deve ser analisada também por outros quesitos para além de valor de mercado, como ativos totais, depósitos totais e nº de operações de crédito.

Há quem não queira perceber e nem se importar se os dados indicam também um crescimento do protagonismo do setor privado bancário que os dados sobre valor de mercado dos maiores bancos no país mostraram (vide postagem abaixo: Caso Nubank e o setor bancário mostram aumento do protagonismo dos grupos financeiros privados no Brasil). Mas vamos pensar juntos algumas questões.

A diversificação bancária é relativamente muito pequena em relação ao que havia antes. Em termos de operação bancária (indicador do setor para além do valor de mercado destas corporações), os cinco maiores bancos ainda possuem 81,8% em relação ao total. O que há é um aumento crescente da participação de grupos financeiros privados estrangeiros no setor. 

O aporte do Nubank é apenas um pequeno exemplo. É ilusão essa tal desconcentração com Itaú comprando XP e outras corretoras. Assim como o BTG fazendo o mesmo e também adquirindo controle de mídia financeira.

No campo das maquininhas de cartão, a Folha de SP tem sua subsidiária PagSeguro como líder e que aparece na lista acima como 10º maior entidade financeira do país em termos de valor de mercado. Antes dela, aparece a Stone que hoje tem parceria com o grupo Globo. Os cartões esse ano têm previsão para movimentar cerca de R$ 2,3 trilhões.

Além disso, é preciso reconhecer que há uma mudança importante na forma de intermediação financeira que é auxiliada enormemente pelas plataformas digitais e pela Appficação dos bancos. Os donos (acionistas dos bancos) são em boa parte gestores de fundos financeiros. 

Esses bancos-plataformas captam no mercado, pela via digital, os excedentes das pessoas, famílias e empresas, mas também atuam como os fundos num circuito de capitalização, aquisições e controle da produção e das corporações misturando a economia real ao mundo das inovações financeiras. E daí para garantir maiores rendimentos extraem renda do andar de baixo da pirâmide social, onde vivemos.

Não há nada de natural nisso. Há sim uma intenção deliberada de reduzir o estado e criar facilidades para o mercado assumir as políticas também no campo financeiro que se soma à decisão do tal Banco Central independente. Independente de quem para ser dependente de quem?

O que se vê é uma oligopolização com os grandes grupos de diferentes setores se juntando no andar superior das finanças, o andar dos donos dos dinheiros. O que está em curso com auxílio e aumento da dominação tecnológica é, ao contrário, maior concentração.

A tecnologia reduz enormemente os custos de captação e o uso do Big Data e IA reduzem drasticamente a inadimplência porque quase elimina o risco do crédito, ao se conhecer melhor o tomador de crédito. Isso amplia os lucros dos bancos digitais e também dos bancos tradicionais que rapidamente estão também se adaptando aos esquemas digitais dos aplicativos, sem agências bancárias nos municípios.

E o resultado disso, não é a redução dos juros que no Brasil segue sendo um dos maiores do mundo, gerando maiores lucros o que atraiu o fundo financeiro do Warren Buffett para o Nubank e leva a nova concentração agora no setor financeiro privado. Tudo isso se dá junto com a política deliberada de desmonte da capacidade de regulação do Estado e o protagonismo neoliberal do mercado.

Para fechar, diante dos que comemoram ilusoriamente o sucesso do Nubank, é bom ter a informação de que ele possui apenas 5 mil empregados, enquanto o Bradesco e Itaú - ambos, já demitindo bastante empregados e fechando agências - possuem, cada um, quase 100 mil trabalhadores bancários. (Itaú 96,5 mil trabalhadores e Bradesco 89,6 mil trabalhadores no final de 2020)

Afinal, se os trabalhadores estão sendo demitidos, os juros não baixam como lá fora e os lucros dos novos donos destes bancos digitais não param de crescer, quem afinal, está ganhando com tudo isso? É preciso superar essa naturalização vendida pelos sardenbergs e leitões.

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