A imprensa que alega informar

Chefes de executivos estaduais e municipais ligados a partidos vinculados a um seleto grupo são solenemente poupados pela imprensa nacional, por mais barbaridades que cometam à frente de seus estados e municípios

Chefes de executivos estaduais e municipais ligados a partidos vinculados a um seleto grupo são solenemente poupados pela imprensa nacional, por mais barbaridades que cometam à frente de seus estados e municípios
Chefes de executivos estaduais e municipais ligados a partidos vinculados a um seleto grupo são solenemente poupados pela imprensa nacional, por mais barbaridades que cometam à frente de seus estados e municípios (Foto: Reinaldo Del Dotore)

Há alguns dias, houve outro trágico acidente automobilístico em que mais uma pessoa perdeu a vida. Na cidade do Rio de Janeiro, um cidadão atropelou um pedestre com resultado fatal. O motorista também teve ferimentos, e está em estado grave, embora estável. As manchetes normais para um caso como este seriam algo como "Motorista atropela e mata pedestre na rua Tal".

Ocorre, porém, que o motorista, neste caso, é filho de um famosos cirurgião plástico brasileiro (um dos mais aclamados do mundo, aliás), e a vítima é apenas mais um anônimo, desimportante. O pai do motorista, é Ivo Pitanguy, que tem, em função de décadas de serviços prestados (e fartamente remunerados, a ponto de ele ter "comprado" uma ilha em Angra dos Reis), uma rede de contatos extremamente influentes. Então, o título da matéria publicada na Globo News foi: "Filho de Ivo Pitanguy está internado em estado grave após acidente com morte".

Ainda que sutis, as inversões e omissões presentes nesta manchete são eloquentes. Ao ler o título da notícia - e uma grande parcela de brasileiros, independentemente do grau de instrução, lê apenas os títulos -, a ideia que surge é: "o filho de Ivo Pitanguy envolveu-se em um acidente em que foi ferido gravemente e outra pessoa morreu, acidente possivelmente causado por um terceiro". Note-se que a manchete não afirma que o filho de Pitanguy teria sido apenas mais uma vítima ou teria sido o causador do acidente. No fundo, a manchete pouco informa, além do fato de o motorista estar gravemente ferido.

O que ocorreu: Ivo Nascimento de Campos Pitanguy, 59 anos, empresário, atropelou e matou um pedestre, José Fernando Ferreira da Silva. O empresário teve, nos últimos cinco anos, 70 multas, sendo 14 por embriaguez ao volante, e acumulou 240 pontos na carteira de habilitação, sendo 27 nos últimos doze meses. Ele, portanto, é contumaz em dirigir embriagado e, diga-se, nem sequer poderia dirigir, mesmo sóbrio, ante a legislação do trânsito.

Aí é que entra o papel da imprensa. O filho de Ivo Pitanguy, que faz parte do seleto universo dos efetivamente privilegiados e respectivo entorno, se não poderia ser diretamente protegido (as circunstâncias do caso não dão essa brecha), não deve ser atacado nas manchetes. Na pior das hipóteses, é providenciada uma manchete omissa como a que foi publicada na Globo News, que mais confunde do que esclarece.

Este caso é emblemático, e remete a diversas outras ginásticas anaeróbicas gramaticais que temos testemunhado por parte da imprensa. Recentemente, o Instituto Lula, em São Paulo, foi alvo de bomba caseira, que causou estragos materiais e só por muita sorte não causou ferimentos graves ou mesmo a morte de alguém. Esse ataque se deu no auge do surto de intolerância que assola o país contra membros e símbolos do PT. A manchete de um dos principais veículos de comunicação de São Paulo foi: "Instituto Lula alega ter sofrido atentado a bomba". Mais uma vez, a manchete direciona o leitor para uma interpretação parecida com "o Instituto Lula diz que foi bombardeado, logo, pode não ser verdade". Não é coincidência que, na esteira do episódio, tenham surgido diversos cidadãos com a "certeza" de que a bomba foi detonada por membros do próprio PT para angariar simpatia. (E é fantástico como em momentos como este pululam brasileiros que têm certeza absoluta a respeito de tudo, e, mais do que isso, são verdadeiros especialistas em tudo.)

Há centenas de casos semelhantes. Chefes de executivos estaduais e municipais ligados a partidos vinculados ao seleto grupo que citei no início são solenemente poupados pela imprensa nacional, por mais barbaridades que cometam à frente de seus estados e municípios. Acusações assacadas em processos investigativos são tratadas como provas definitivas, desde que, é claro, os acusados não sejam vinculados ao grupo acima, ou, pior, que representem alguma ameaça, ainda que tênue, a algum dos privilégios que têm.

Salvo raríssimas e honrosas exceções, quase todas elas habitando o mundo virtual ainda que haja boas publicações no papel, a imprensa (ao lado do Poder Judiciário) cumpre o papel que foi intuído já no século XIX: é mais uma das ferramentas criadas e geridas pelos muito privilegiados para a manutenção de seus privilégios.

A imprensa alega que informa, e o brasileiro médio acredita que está bem informado.

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