A infantilidade e ingenuidade dos progressistas brasileiros

A cegueira desses “progressistas”, alimentados por farta cobertura das agências “internacionais”, que não são nada mais nada menos do que agências de propaganda política das nações imperialistas, produzem verdadeiros textos patéticos sobre corpos caindo de aviões e a fuga para a liberdade

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(Foto: Reprodução)


Poderia chamar as pessoas que vou comentar de esquerda pequeno burguesa ou mesmo de esquerda cirandeira, entretanto essas adjetivações teriam em si um preconceito, então chamei de progressistas, pois o que leva a infantilização de seus discursos é a falta de uma formação política mais forte que os leva na onda da grande imprensa, essa sim, burguesa, que enche a cabeça das pessoas com relatos comoventes dos três mortos no aeroporto de Cabul e das manifestações contra o Talibã. 

Se essas pessoas no lugar de ficarem emocionadas (ou simularem emoções) com alguns fatos tivessem o cuidado de ler relatórios do governo norte-americano, como os escritos pelo Sr. John Sopko, que não é um fanático religioso mas sim o “Special Inspector General for Afghanistan Reconstruction (SIGAR)”, um alto funcionário do establishment do país do norte, que passou quase uma década no Afeganistão, como os relatórios “What We Need to Learn: Lessons from Twenty Years of Afghanistan Reconstruction” ou “Corruption in Conflict: Lessons from the U.S. Experience in Afghanistan”, veriam algo bem diferente sobre o país em questão. Não estou falando de relatórios de países muçulmanos ou até de talibãs, estou falando de relatórios de alguém que acredita no governo norte-americano e foi alguém responsável pela fiscalização pelo congresso norte-americano da “reconstrução” do Afeganistão do que ele tem mais críticas do que elogios. Também para não dizer que estou falando de uma visão masculina e machista sugiro que leiam o artigo de duas mulheres acadêmicas de primorosa educação ocidental, Sahar Ghumkhor e Anila Daulatzai, uma que mora na Austrália e a outra mora no Reino Unido, mas ambas têm suas origens étnicas em países muçulmanos do Oriente Médio e escreveram o artigo “Monsters, Inc: The Taliban as Empire’s bogeyman: The dominant narrative on the Taliban takeover of Afghanistan erases the decades of imperial violence Afghans suffered”.

No último artigo citado o primeiro parágrafo já dá outro sentido sobre a grande “intervenção humanitária” dos USA e seus aliados: 

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“No 20º aniversário da chamada “guerra ao terror”, que começou com a invasão do Afeganistão em 2001, é marcado pela retirada das tropas dos Estados Unidos e o “retorno” do Taleban a Cabul. Em alguns aspectos, estamos de volta a 2001, e em outros, é impossível voltar atrás, pois a guerra contra o terrorismo dos Estados Unidos matou mais de 800.000 pessoas e desabrigou mais 37 milhões.” 

Se não estão satisfeitos esses relatos e confiam mais em organismos internacionais, então leiam o que está escrito no Relatório preliminar de atividades do Tribunal Penal Internacional: “Report on Preliminary Examination Activities (2016)” que descreve somente casos dos crimes de guerra que conseguiram chegar a esse tribunal nos anos 2003 e 2004, chamando a atenção que para os norte-americanos esse tribunal não tem jurisdição pois o governo americano se acha acima das leis internacionais.

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198. As a result of its examination, the Office has determined that there is a reasonable basis to believe that, at a minimum, the following crimes within the Court’s jurisdiction have occurred: 
a. Crimes against humanity and war crimes by the Taliban and their affiliated Haqqani Network; 
b. War crimes of torture and related ill-treatment by Afghan government forces, in particular the intelligence agency (National Directorate for Security), and the Afghan National Police;
c. War crimes of torture and related ill-treatment, by US military forces deployed to Afghanistan and in secret detention facilities operated by the Central Intelligence Agency, principally in the 2003-2004 period, although allegedly continuing in some cases until 2014. 
... 208. Multiple sources have reported on the prevalence of torture in Afghan government detention facilities, including the Afghanistan Independent Human Rights Commission, UNAMA, and a fact-finding commission appointed by the President of Afghanistan in 2013. This conduct reflects a pattern of alleged criminality dating back to the beginning of the conflict in 1978, for which a state of total impunity persists. At present, an estimated 35-50% of conflict-related detainees may be subjected to torture in Afghan detention facilities. ... 
Members of US armed forces appear to have subjected at least 61 detained persons to torture, cruel treatment, outrages upon personal dignity on the territory of Afghanistan between 1 May 2003 and 31 December 2014. The majority of the abuses are alleged to have occurred in 2003-2004. 
Members of the CIA appear to have subjected at least 27 detained persons to torture, cruel treatment, outrages upon personal dignity and/or rape on the territory of Afghanistan and other States Parties to the Statute (namely Poland, Romania and Lithuania) between December 2002 and March 2008. The majority of the abuses are alleged to have occurred in 2003-2004

A cegueira desses “progressistas”, alimentados por farta cobertura das agências “internacionais”, que não são nada mais nada menos do que agências de propaganda política das nações imperialistas, produzem verdadeiros textos patéticos sobre corpos caindo de aviões e a fuga para a liberdade. A cegueira é tão grande que nem se preocuparam saber quem caiu do avião, pois se tivesse empatia verdadeira, não cinismo político, saberia que o único identificado era simplesmente um jovem jogador de futebol do Afeganistão que tem nome e idade, não é um saco de batatas que foi jogado de um avião. Zaki Anwari, 19. Como era um jogador da seleção juvenil de futebol afegã certamente não seria perseguido pelo Talibã, mas provavelmente tenha ouvido a notícia de quanto o jogador Messi ganhará no seu próximo contrato com o PSG (de 35 e 40 milhões de euros por temporada), ele simplesmente sonhou em chegar ao rico futebol europeu.

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Provavelmente se jogadores da terceira divisão do campeonato de qualquer estado brasileiro, que nem tem a mínima ideia que se segurar num avião e se manter durante algum tempo vivo é impossível, se tivesse a chance de sair exilado do Brasil para com sua situação regularizada na Europa não pensaria duas vezes em se segurar na roda de um avião. Esse ato de suicídio involuntário seria causado não porque houvesse ao seu encalço algum talibã barbudo, mas sim porque fugir do futebol profissional num país pobre, ele está fugindo da fome e da miséria e não do fundamentalismo religioso. 

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Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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