A integração das mídias de favela durante a pandemia: uma saída para a crise brasileira

Por Mariana Mollica

A questão fundamental que se coloca para o Brasil, com o avanço da pandemia, que já infectou até a data de hoje mais de 730.000 e matou cerca de 35.000 pessoas no mundo, é a seguinte: como diminuir a incidência do alastramento do Covid-19 em um país com extensão continental, altamente populoso e com tamanha pobreza e desigualdade social?  

A chave é: informação! Conhecimento pra matar a fome, que já se alastra sorrateira e cruelmente, com tanta força como a peste... Não é evidente a relação entre o saber e a fome. É preciso saber que praticamente todos os governos do planeta, menos o brasileiro, estão injetando dinheiro imediatamente, muito dinheiro, tanto na saúde, quanto destinado diretamente à própria subsistência da população, como condição para permitir a quarentena. Ficar em casa é um direito, mais do que um dever! Sem esse conhecimento básico, a população tende a aderir ao discurso mortal do presidente de que é preciso sair para ganhar o pão, quando na verdade, se sair para trabalhar a doença impedirá o sujeito de viver, tanto quanto para sustentar família e para acesso ao sistema de saúde lotado e colapsado. 

Mas como fazer a boa e confiável notícia, das decisões do congresso e dos órgãos oficiais de saúde, chegarem sem deturpação à população de baixa renda, para que ela possa efetivamente se proteger e pressionar o Estado? O país hoje está dominado pelas fakenews, proferidas pelo próprio governo e espalhadas por seus seguidores, numa rede ampla de disparo de mentiras. Somado a isso, assistimos o aumento do fundamentalismo evangélico, profetas da ignorância – parafraseando o samba da mangueira - que repercute em cada beco e viela da periferia ou em rede nacional de TV, as criminosas inverdades que fanatizam e alienam o povo. Além da luta pela prevenção contra a doença, como a população vai avaliar as decisões políticas que atingem diretamente sua vida, para exigir a renda mínima necessária que garante o direito ao confinamento?

As políticas que tem fracassado no Brasil foram formuladas, sempre, de cima para baixo, sem que os setores populares sejam parte da solução do problema. Ou seja, os grandes detentores do poder financeiro, os empresários hiper-ricos, os monopólios internacionais e os representantes políticos desses setores - com forte apoio da imprensa comercial - formulam políticas baseadas em seus próprios interesses e se apoiam basicamente em estatísticas. As narrativas hegemônicas da grande imprensa convencem a opinião pública de que o pior pra ela é o melhor pra ela, com manchetes do tipo: “A violência nas favelas do Rio impedem a circulação dos moradores” ou “Favelados moram com toda a família em um único cômodo e não tem meios adequados para confinamento”.

Chega-se, assim, a políticas do tipo: “Policiais entram atirando para impedir a violência na favela”; “O Brasil não pode parar!”... Programas políticos que vão na contramão das orientações dos organismos científicos de segurança, saúde, educação e que levam à pauperização, à devastação e mesmo ao extermínio da população periférica brasileira.

Em geral, não se escuta o morador da favela para entender de onde vem a violência, quais são suas reais restrições e que medidas a própria comunidade cria para combater as adversidades. As iniciativas locais, que dão certo, deveriam ser exatamente a base para que o poder público formulasse políticas em prol da população.

O crescimento das mídias populares nos dão a oportunidade, em meio à pandemia,  de ouvir as favelas e regiões mais pobres do país, numa tentativa de encontrar no laço com as comunidades, um meio de frear o alastramento da doença. O Portal Favelas é exatamente uma iniciativa protagonizada pela própria população periférica, que veio à tona através de uma proposta inovadora de Rumba Gabriel, uma liderança comunitária do Jacarezinho. Conversando com lideranças de outras comunidades, Rumba elaborou a criação de um Portal que pudesse integrar as experiências de comunicação popular já existentes em diversas favelas do Rio de Janeiro (jornais, TV’s, rádios, sites, blogs), numa grande articulação entre as diversas comunidades e, também, que possa servir como uma janela de visibilidade para fora delas. Já existem inúmeras experiências de construção de mídias populares na Cidade e mesmo no Estado do Rio de Janeiro, mas em sua maioria, não trabalham em sistema de rede, não estão articuladas entre si, não conversam umas com as outras, não compõem um sistema integrado contra-hegemônico de comunicação.

Além de mostrar o que já é produzido pelas mídias populares, o Portal Favelas tem o sentido também de incentivar a criação de novos polos de produção e difusão de informação, ali onde ainda não existem. Ainda que informar sobre os graves problemas de violência e segurança seja uma preocupação urgente, o Portal Favelas visa sobretudo mostrar a produção de arte, de cultura, de educação, de esporte, de empreendedorismo, de cidadania que proliferam nas regiões populares. Com a chegada da quarentena, como meio de preservação da vida, os cuidados com a saúde se tornaram a mais importante função do Portal neste momento. A linha editorial, a linguagem e a forma de interpretar a realidade, dizem respeito a uma aquisição de pertencimento a determinado território e legitimação de um lugar histórico e simbólico, tradicionalmente silenciados pelo Estado brasileiro, num processo de subjetivação e emancipação política.

Quais são as iniciativas internas para a criação das próprias saídas para os problemas que assolam as favelas? O que dizem os próprios moradores sobre seu sofrimento e seus desafios? Como a solidariedade construída nesses territórios nos ensina a avançar, enquanto sociedade, em meio à crise global?

Milton Santos, grande geógrafo brasileiro, pensador negro reconhecido internacionalmente, afirmou na década de 80, que excluídos do Estado de bem estar social estão  submetidos a uma ilusão promovida pelo mercado através da mídia hegemônica, que ele denominou de globalização como farsa. O povo se ilude com a possibilidade de adquirir, por meios individuais, a partilha dos privilégios econômicos da elite global. A tese de Milton Santos propõe uma outra globalização, a ser construída pela tomada das novas tecnologias, por parte de sujeitos segregados do consumo de bens e do mercado, ao redor do mundo, de forma a produzir emancipação subjetiva da opressão, através da integração dos territórios periféricos. Afirmar o que é próprio e transmitir o seu valor tende a provocar uma des-identificação ao saber eurocêntrico, ao padrão imperial norte americano e ao discurso colonial inscrito na base da sociedade brasileira, que se perpetua.

É preciso, de acordo com os organizadores do Portal Favelas, uma ferramenta tecnológica que permita, em tempo real, o registro da violência de Estado, em todos os territórios da cidade e não só em uma ou outra favela, um ou outro espaço isolado, como a mídia trata. Um registro da violência policial que desumaniza os corpos e deve ser implementado imediatamente no país. No momento de evidente subnotificação dos casos de Covid-19, urge que a tragédia escondida seja transformada em revelação da estrutura necropolítica do projeto hediondo da elite econômica brasileira, que reitera o modo como o Estado tradicionalmente tratou os explorados e os verdadeiros donos dessa terra.

Diferente dos crimes do nazismo que foram registrados - muitos dos assassinos punidos e os restos do holocausto transformados em obras de arte em museus - para que a marca histórica fosse transmitida para todo o mundo; no Brasil não houve responsabilização nem dos crimes coloniais, de extermínio dos índios e açoite dos escravos, nem dos crimes cometidos pelas ditaduras, que se impuseram ao longo de nossa história. O que não é inscrito simbolicamente, nos mostra a psicanálise com Lacan e com Freud, retorna no real.

A repetição de uma tirania monstruosa, sem espaço para a palavra, impede o luto, a elaboração da perda e também a implicação da sociedade frente aos crimes que testemunha. Registrar, quantificar, escrever, nomear a tragédia, que agora se abate sobre nós, é um dever das gerações que testemunham este momento de nossa história.

O Portal Favelas pode ser considerado um modo de fazer valer o projeto de Milton Santos, que propõe uma transformação nos modos globais de gestão e agenciamento do capitalismo, através de uma mudança na apropriação das novas tecnologias de mídia pelas populações periféricas, de maneira a modificar o cenário global de desigualdades econômicas e sociais.

A pandemia do Covid-19 tornou urgente um trabalho que vinha sendo construído a passos mais lentos e levou o grupo de editores do Portal Favelas a fazer decolar o projeto, que já está implantado e ganha força com a necessidade de reagir de forma inteligente, resolutiva e eficaz, como chave para abrir o cofre da insanidade mental que parece se proliferar mais rápido que o vírus.

Com a situação de calamidade pública decretada, agravada pelo Estado de exceção ampliado no país hoje, as soluções que surgem das próprias classes populares, é um meio não apenas de produzir solidariedade e redes de apoio aos moradores, mas de politização da situação que a periferia enfrenta, para que ela possa, justamente, se levantar e barrar um governo que trabalha contra o povo, algo que a maioria não conseguiu até agora enxergar.

Uma parceria entre o Portal Favelas e o Brasil e TV 247, já iniciada nos meses de implantação do projeto, começa a se efetivar de forma mais ativa. Jornalistas do 247 iniciarão no mês de abril, uma série de entrevistas e conversas com os jornalistas e comunicadores populares do Portal Favelas, tanto nos programas contínuos, quanto em lives de 30 minutos, que ocorrerão ao longo da grade da semana.

A comunidade 247 e ouvintes de todo o país terão a oportunidade de conhecer o que está se passando nas várias favelas do Rio de Janeiro; tanto em relação aos meios de combate ao COVID-19, que tem sido adotados pelos moradores e as iniciativas solidárias para amenizar o vasto sofrimento que se alastra pelas periferia das grandes cidades. Este debate também será uma oportunidade de convidar a comunidade de membros e leitores a associar-se ao Portal Favelas, trazendo suas ideias, sua contribuição singular, permitindo a ampliação e integração dessa proposta a outras regiões e outras favelas do país; uma ajuda para alavancar essa inovadora e revolucionária iniciativa, que surge como um raio de sol em meio ao medo, à escuridão, ao caos e à incerteza.

Conheça o Portal Favelas clicando aqui.

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