A ira de Deus e o Carnaval da Mangueira

Eu não sei se todos esses pseudos defensores do cristianismo já leram a letra do samba, mas tenho a certeza de que a maioria deles se encaixa em outro verso da obra que diz: “Eu tô que tô dependurado em cordéis e corcovados. Mas será que todo povo entendeu o meu recado?”

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O carnaval ainda nem começou e o enredo da Estação Primeira de Mangueira já está sob avaliação. No “júri”, muitos “cristãos” que, como de praxe, sempre indignam-se seletivamente e costumam invocar convenientemente a ira divina, sobre todo aquele que ousa denudar a hipocrisia contida na fé que eles afirmam professar.

Com o enredo “A verdade vos fará livre”, uma versão mais próxima da realidade, do que o “Conhecereis a verdade e ela vos libertará”, que saia da boca do atual presidente da república durante a campanha presidencial, a verde e rosa da zona norte carioca vai trazer para a avenida, um Jesus preto, de origem pobre, excluído, marginalizado, esquecido e subjugado pelos poderosos. Particularmente, mas sem nenhuma oposição a quem faça, acho perigoso usar a imagem de Cristo no carnaval.

Isto, porque sabemos da dificuldade cognitiva que acomete, as vezes por conveniência, boa parte da nossa sociedade tradicional e terrivelmente cristã. Eu não o faria, mas entendo que a arte precisa ser crítica, guardando o devido respeito a fé das pessoas. A respeito da fé, não há, pelo menos no enredo e na letra do samba-enredo da escola, nada que ofenda ou macule o cristianismo. Pelo contrário, os compositores foram muito felizes na criação da letra, onde um trecho do samba diz: “Favela, pega a visão. Não tem futuro sem partilha, nem Messias de arma na mão”.

Eu não sei se todos esses pseudos defensores do cristianismo já leram a letra do samba, mas tenho a certeza de que a maioria deles se encaixa em outro verso da obra que diz: “Eu tô que tô dependurado em cordéis e corcovados. Mas será que todo povo entendeu o meu recado?” A resposta à pergunta feita por Jesus na letra do samba, é óbvia. Não. Mesmo assim, muita gente insiste em dizer-se seguidora de Jesus, apoiando e defendendo quem ele jamais apoiaria ou defenderia a ideologia.

Muitos destes que invocam a ira de Deus sobre o carnaval, abençoaram e conduziram aos púlpitos e aos altares de suas igrejas, um candidato que semeou ódio e preconceito a vida inteira, o apresentando para as ovelhas como alguém escolhido por Deus para governar a nação. Ou seja, tais defensores da fé cristã anexaram ao evangelho o armamento da população, a pena de morte, a opressão às minorias, à violência como justiça divina, a segregação social e racial, e abraçaram a causa de um candidato que prometeu governar para os mais ricos, e que nunca escondeu o seu profundo desprezo pelos mais pobres.

Pobres estes, que sempre tiveram prioridade na pauta do discurso de Jesus. Tanto do Jesus bíblico, quanto do Jesus enredo da Mangueira. A ira de Deus não é invocada contra as injustiças sociais, promovidas por ideologias políticas que querem manter sob o cativeiro da indigência e da falta de dignidade, milhões de cidadãos brasileiros. Desempregados, com fome, em situação de rua, ou imersos num mar de angústia, incerteza e desesperança. Isto não provoca reações indignadas de certos cristãos.

A ira de Deus não é invocada contra uma política de segurança genocida, que mata inocentes, em sua maioria pretos e pobres da periferia, e afirma que está protegendo a sociedade. A ira de Deus não é invocada contra governantes, como, por exemplo, Wilson Witzel, desgovernador do Rio de Janeiro, que oferecem água suja de fezes para o povo consumir, podendo adoecê-lo grave e mortalmente, mesmo este povo estando pagando caro pelo seu consumo. Tudo para justificar e acelerar o processo de privatização da companhia responsável pelo tratamento da água e do esgoto no estado.

Para desespero dos fundamentalistas hipócritas, o Jesus da gente tema do enredo da Mangueira, está mais próximo do Jesus que morreu na cruz para salvar a humanidade. Talvez, por isso, muitos já estejam tentando calar a sua voz e desqualificar a sua representatividade no desfile. A estes, eu sugiro que invoquem a justiça divina em prol de causas mais relevantes e para a solução de problemas mais sérios. Tem muito mais gente precisando sentir o peso da mão de Deus, do que os carnavalescos de uma escola de samba.

A ira é dos hipócritas e intolerantes. Deus é apenas o escudo usado por eles para revesti-la de poder e permitir que eles definam o que é o bem e o que é o mal, de acordo com o evangelho de suas próprias consciências e da voz de um Deus que eles criaram à imagem e semelhança deles mesmos.  Que perigo!

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