A leitura dos clássicos deve ser obrigatória?

No texto sobre José Carlos Ruy, a invocação do adjetivo e substantivo “clássico” para a sua humanidade possuía o sentido de uma experiência vital, indispensável, para todos que não queremos passar os dias como um vegetal. Esse, primeiro, acredito ser o significado de “clássico”: um conhecimento fundamental sobre humanos, para humanos, pelos humanos

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O youtuber Felipe Neto, que entende tanto de literatura quanto eu de jogo de sinuca, postou num twitter: 

“Forçar adolescentes a lerem romantismo e realismo brasileiro é um desserviço das escolas para a literatura. Álvares de Azevedo e Machado de Assis NÃO SÃO PARA ADOLESCENTES!”  

Ainda nesta semana, diante do súbito falecimento do amigo e camarada José Carlos Ruy, chamei a atenção para o seu caráter de clássico. E por quê? A sua pessoa me fez publicar o seguinte parágrafo:  

 “De um ponto de vista grandioso, o nosso Ruy, que se despede hoje sem aviso, era um clássico! Um homem que escrevia sobre filosofia, literatura, história, política, sem temer a dimensão dos intelectuais criadores e temas sobre os quais falava. Ele escrevia sobre Machado de Assis e sobre Engels, sobre Marx e sobre Shakespeare, com a maior propriedade sem pose. Repito: José Carlos Ruy era um clássico! Mas ele era também um clássico da amizade, pois era aquele amigo que procuramos quando sentimos e caímos no maior desassossego”. 

É que no texto sobre Ruy, a invocação do adjetivo e substantivo “clássico” para a sua humanidade possuía o sentido de uma experiência vital, indispensável, para todos que não queremos passar os dias como um vegetal. Esse, primeiro, acredito ser o significado de “clássico”: um conhecimento fundamental sobre humanos, para humanos, pelos humanos. Conceito, mais que conceito, da humanidade sem fronteiras. Ainda que seja onipresente o mundo das necessidades primárias, como deixar de lado os clássicos? Seria cair na mais triste miséria.  

Mas a provocação do youtuber, bem sucedido sem dúvida pelas discussões que desatou, teve o desdobramento de se questionar se os clássicos deveriam ter lugar nas escolas, e de que modo. Os mais autoritários, até mesmo brutais, disseram que o seu ensino deveria ser obrigatório, pois se os estudantes não podem escolher se devem ou não aprender geometria, como poderiam optar pelo estudo ou não de Machado de Assis? Onde é que nós estamos!

Quem desse modo argumentou, esqueceu, primeiro que não é igual aprender matemática e ler a maravilha de Drummond, Bandeira, João Cabral ou Graciliano Ramos. O gozo do espírito é bem mais complexo que aritmética, maior que resolver problemas com o teorema de Pitágoras ou de Tales. Em segundo lugar, a educação profunda não se dá pelo cumprimento de uma ordem exterior, sob a ameaça da reprovação. É por esse caminho extremo, estúpido, que se faz a ojeriza aos clássicos. Por esse caminho a educação se torna punição, e vira uma educação pelo sofrimento. Os professores que obrigam os clássicos são antes sargentos de exército que fazem sofrer porque igualmente sofreram como recrutas, ou se tornam semelhantes a abusadores de jovens porque um dia também foram abusados. 

Lembro que na minha geração os adolescentes perderam o prazer da leitura de Camões, que só aparecia para nós retalhado, amputado em orações para análise sintática:

“Vereis amor da pátria, não movido
De prémio vil, mas alto e quase eterno:
Que não é prémio vil ser conhecido
Por um pregão do ninho meu paterno”.  

E vinham as perguntas que eram sentenças condenatórias do nosso crime: Onde está o sujeito? Qual o predicado? O professor de português que nos aplicava essas provas era um feitor sádico, perverso. Um animal inominável. Para o seu ensino, caem como luva os versos de Ascenso Ferreira: 

“A escola que eu frequentava era cheia de grades como as prisões.
E o meu Mestre, carrancudo como um dicionário;
Complicado como as Matemáticas;
Inacessível como Os Lusíadas de Camões!” 

Então surgem os que douram a pílula amarga, que julgam amarga. Percebem? Os carrascos passam óleo na guilhotina para que desça mais suave e fina sobre os pescoços. Isto é, passam a tratar os clássicos de modo mais palatável, adaptado quase a nível de deficientes mentais, que seriam os alunos (o mesmo ódio ao aprendiz). Para isso, os argumentos são pérolas:   

“Uma das estratégias para aproximar os estudantes desse tipo de literatura é a leitura de adaptações. É uma forma de se aproximar da obra, do enredo e da mensagem que o autor quis passar Devem ser consideradas também as adaptações de obras literárias produzidas para cinema, teatro e TV como atalhos de acesso ao original”

Na verdade, a pretexto de um didatismo que pressupõe incapacidades, penso que não se deve adaptar um clássico para leituras mais simplificadas. Será o mesmo que furtar uma riqueza, na vã presunção de que um adolescente não entenda a imensa diversão que é ler Cervantes, por exemplo. E teríamos um crime de falsificação. Adaptar um clássico é o mesmo que esconder dos jovens o melhor do escritor, porque não se acredita que um adolescente seja tão inteligente quanto o indivíduo que adapta. Imaginem, é exatamente o contrário. Note-se que o problema não é só de forma, de linguagem, dos dribles, firulas e recursos de linguagem de um Machado de Assis,  é da visão de mundo enformada na sua prosa, inseparável.

Retomo aqui a observação de que um autor deve ser apresentado à turma a partir de um problema, vivido por todos. Ora, se querem saber, nada como o conto Missa do Galo, de Machado, para todos os adolescentes. Eles entenderão até a última linha, vírgula e pontinho das reticências. Eles vão respirar todos os movimentos implícitos e insinuados da conversa da mulher solitária com um jovem. Eles são esse jovem. Eles sonham com essa noite ideal em que os espere uma senhora sozinha. Elas compreendem esse jovem e essa mulher. O conto tem todos os elementos de promessa de sexo e conflito com o pecado antes de uma missa devota. 

Para a leitura coletiva, o professor poderia começar a narração, fazer uma leitura prévia, e pedir para que ela continue em volta. Digo começar com o professor porque nas escolas se perdeu o necessário e fundamental hábito de leitura em voz alta, todos os dias. Então é comum que um jovem estudante não saiba o valor de um ponto, de uma exclamação, de uma vírgula, de uma pausa – o valor ponderado de uma palavra em determinado contexto. Como poderão entender a maravilha de Manuel Bandeira, na infância com o coração a bater, se não souberem que a moça nua lhe fez o primeiro… ALUMBRAMENTO?

Lembro por fim dos clássicos apresentados por um mestre da educação pública, o professor Arlindo Abuquerque, no Colégio Professor Alfredo Freyre em Água Fria. Ele nos escolhia como o público ideal para ouvir Jean-Jacques Rousseau. Acreditam nisso, meninos pobres em uma escola pública a ouvir um mestre em voz alta nos contar sobre o prazer de andar a pé?

“Je n'ai pas besoin de choisir des chemins tout faits, des routes commodes; je passe partout où un homme peut passer; je vois tout ce qu'un homme peut voir; et, ne dépendant que de moi-même, je jouis de toute la liberté dont un homme peut jouir”.

Depois voltava para o livro de Marcel Debrot, Le français au gymnase. Com frequência, muitas vezes repetimos um mesmo texto, pois ele nos mandava ler este gozo: “Sur la liberté de la conscience”. Eram anos de ditadura, sabíamos, e comentava-se, aos murmúrios, que o professor em 1964 fora espancado, preso, porque fizera parte da direção do Serviço Social contra o Mocambo. O texto no livro de Marcel Debrot vinha sempre a calhar, e era em estado de êxtase que o mestre nos fazia ler “Sobre a liberdade da consciência”.

— Vejam a beleza. Repitam esta frase. O título é uma coisa extraordinária — e silabava em ritmo lento: “sur la liberté de la conscience”.

O estímulo à leitura dos clássicos é isto, despertar consciências para o valor permanente da humanidade.

E aqui concluo, por enquanto. Se algum mérito for encontrado nestas linhas, a graça não é minha. Eu me apoiei na poderosa muleta da música de Bach enquanto escrevia o texto. Um outro clássico para me ajudar a ser menos medíocre. Se não consegui, não consegui, ou mal consegui, quem sabe é Jesus, alegria dos homens. 

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