A maior lição do ataque de Bolsonaro a Merval

"A postura política de Merval Pereira não diminui a gravidade do ataque de Bolsonaro," escreve Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia. "O trabalho de perseguir, investigar e denunciar jornalistas costuma ser uma atividade corriqueira em ditaduras mas nada tem a ver com regimes democráticos".

Por uma questão de respeito pelos valores democráticos,  o jornalismo brasileiro tem obrigação de ser mais criterioso antes de reproduzir as barbaridades que Jair Bolsonaro costuma divulgar com regularidade. 

A alternativa é ajudar o presidente em seu esforço sem limites para enfraquecer a democracia e fortalecer um estado de exceção, reproduzindo um papel lamentável que a imprensa do país já assumiu em outros momentos da História. 

As circunstâncias do Brasil de 2019 são especialment graves. Bolsonaro não quer apoio da mídia brasileira, como os generais que deram o golpe de 1964.  Quer anexar quem estiver à venda e, ao mesmo tempo, esvaziar e até destruir quem fizer questão de preservar -- mesmo em forma de resíduo, para uso em feriados e datas festivas -- o produto químico fundamental da atividade, formado pela independência de investigar e a liberdade de publicar. 

Não é um projeto original e, como tantas iniciativas de Bolsonaro, a estratégia emprega métodos patenteados por Donald Trump. Conforme já mostrou o New York Times em extensa reportagem, Trump possui uma rede de informantes ocupados em apurar e divulgar informações destinadas a desacreditar jornais e jornalistas de grandes publicações do país, como Washington Post, a rede de TV CNN  e o próprio NYT. 

No último fim de semana, Bolsonaro avançou sobre a liberdade de imprensa através de um instrumento lamentável, a chantagem. Exigiu que os jornais publicassem uma notícia negativa contra Merval Pereira, um dos mais conhecidos jornalistas do país, referência do Globo e da Globo News. 

"Acabei de postar uma matéria sobre o Merval Pereira", disse o presidente, num encontro com repórteres que cobrem o governo. "Palestra de R$ 375 mil. Tá legal? Tá OK? 375 pau. Uma palestra no Senac. Faça a matéria. Se vocês não fizerem nenhuma matéria sobre isso nos jornais eu não dou mais entrevista para vocês. Tá legal? Tá combinado?" 

Como logo seria demonstrado, o grotesco erro de informação de Bolsonaro era digno dos métodos investigativos de seus heróis do porão militar, que torturavam primeiro para perguntar depois. 

Ainda que os valores recebidos por Merval fossem de fato imensos, a notícia se referia a um contrato pela realização de 12 palestras, ou R$ 31.250,00 por falatório. Uma bolada milionária, típica dos tempos de Lava Jato que ajudaram Bolsonaro a chegar aonde se encontra. O chefe da força tarefa, Deltan Dalagnol,   admitiu ter embolsado R$ 400 000 em apenas um ano, através de palestras fora do expediente, conforme diálogos divulgados pelo Intercept. 

O fato espantoso é que os jornais cederam a chantagem de Bolsonaro e, mesmo cumprindo a formalidade de ouvir o outro lado, publicaram a notícia que interessava ao presidente, como se fosse a coisa mais natural do mundo. "Tá legal? Tá combinado?" 

Não ocorreu a nenhuma publicação a possibilidade denunciar e mesmo recusar o jogo sujo do presidente-pauteiro e defender sua autonomia, traço essencial de todo jornal ou revista dignos deste nome. Em vez de publicar uma denúncia que atingia Merval, o correto seria denunciar o comportamento do presidente.   

Embora nenhum chefe de governo possa ser obrigado a atender jornalistas e responder perguntas, as entrevistas fazem parte de um ritual legítimo e respeitoso de prestação de contas por parte dos governantes. Não podem ser barganhadas como troca de favor.   

Esta operação espúria marcou uma nova etapa de uma campanha de pressões e ataques contra a liberdade de imprensa, que inclui veículos que, mesmo aplaudindo o assassinato economico promovido por Paulo Guedes e o projeto  liberticida da Lava Jato, não foram 100% domesticados pelo Planalto. Ainda que cachês milionários sejam assunto de interesse público, em especial num caso que envolve recursos do Senac, sustentado pelo sistema S, é óbvio que a origem da notícia exigia uma cautela redobrada e outro enfoque.  

Isso porque o trabalho investigar e denunciar jornalistas pode ser uma atividade corriqueira em ditaduras -- mas nada tem a ver com regimes democráticos. 

É uma deformação autoritária, da mesma família que levou Bolsonaro a ofender a memória do pai de Felipe Santa Cruz, o presidente da OAB. Incapaz de sustentar a versão absurda de  que Fernando Santa Cruz fora assassinado pelos próprios colegas de organização e não executado no porão militar, como informam as investigações oficiais, ao ser chamado a contar o que sabia o presidente bateu em retirada. Numa iniciativa que permitiu ao ministro Luiz Roberto Barroso determinar o arquivamento de um caso que que já se transformava em vexame absoluto, Bolsonaro mandou dizer através de advogados: "não  tive qualquer intenção de ofender quem quer que seja, muito menos a dignidade do interpelante ou de seu pai. No tocante à forma pela qual teria ocorrido a morte do pai do interpelante, limitei-me a expor minha convicção pessoal em função de conversas que circulavam à época". (Conjur, 26/8/2019). 

Nos Estados Unidos, um dos ataques duros contra o New York Times foi produzido menos de 24 horas depois que o jornal publicou um perfil da nova assessora de imprensa da Casa Branca. Logo depois que a reportagem surgiu on line, um site amigo de Trump publicou um artigo que reproduzia textos racistas que o editor de Política do jornal havia produzido nos tempos de universidade. Em pouco tempo, Donald Trump Jr retuitava o link do texto anti-New York Times para 3,8 milhões de seguidores. 

A postura política de Merval Pereira, barítono da Lava Jato e do anti-petismo, que tem uma responsabilidade inegável pelo estado de coisas em que o país se encontra, não diminui a relevância do ataque de Bolsonaro. 

Na verdade, o caso sublinha a periculosidade dos movimentos antidemocráticos deste governo. A história pode ajudar a entender isso. Um dos marcos do AI-5, que deu início à fase mais violenta da ditadura de 64, foi a instalação de censores na redação do Estado de S. Paulo, o jornal que, apenas quatro anos antes, fora um dos principais endereços civis do golpe militar que derrubou Goulart. Numa hora em que a imprensa adversária se encontrava fora de circulação, a brutalidade do regime dos generais atingiu publicações que, mesmo aliadas, guardavam algum espírito crítico. 

Essa é uma das lições mais importantes de toda ditadura. 

Alguma dúvida? 

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