A mediocridade como política de governo

O Brasil deve ser o único país do mundo cujo ministro da Educação atenta contra a própria pasta. Nem bem tomou posse no provisório cargo, e Abraham Weintraub já desferiu ataques contra a formação acadêmica, prometendo acabar com disciplinas de Sociologia e Filosofia, estabelecidas como políticas permanentes de Estado

A mediocridade como política de governo

O Brasil deve ser o único país do mundo cujo ministro da Educação atenta contra a própria pasta. Nem bem tomou posse no provisório cargo, e Abraham Weintraub já desferiu ataques contra a formação acadêmica, prometendo acabar com disciplinas de Sociologia e Filosofia, estabelecidas como políticas permanentes de Estado. De saída, mostrou todo seu alinhamento ideológico a um governo retrógrado e autoritário. Na verdade, seu gesto vai além, pois revela medo e ódio ao pensamento crítico e divergente, característica de governos fascistas aos quais não pode haver oposição. Sua intenção não ficou sem resposta. Mais de cinco mil sociólogos, inclusive das universidades de Harvard (EUA), Cambridge (UK) e Sorbonne (FR) lançaram manifesto em apoio ao estudo da Sociologia no Brasil. Provavelmente, se perguntado, o douto presidente desqualificaria as seculares instituições, os cientistas e professores.

Mas o desprezo do ministro pela Educação não para por aí. Em coletiva de imprensa, ele se jactou do novo formato do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb). De acordo com ele, para avaliar sete milhões de estudantes, seriam suficientes R$ 500 mil. Valor 1000 vezes menor que o real, que será de R$ 500 milhões, retificados posteriormente pela pasta. Pior que o erro na prestação da informação foi a metodologia anunciada. Este ano, ao invés de a avaliação ser universal, será por amostragem, o que prejudica um importante método de aferição do desenvolvimento da educação, pois limita a percepção da realidade e compromete municípios e estados na construção e aplicação de políticas para a área. Ou seja, o invés de se investir na pesquisa sobre as condições que fazem 70% dos estudantes do Ensino Médio terminarem o período não aptos a compreenderem um texto básico, tem-se um ministro que não se envergonha de desinvestir nesse processo.

O último desvario de Weintraub foi promover um corte linear de 30% nas receitas das universidades federais e institutos federais de educação. O motivo não podia ser mais revelador do primarismo deste governo e do ódio ao desenvolvimento educacional, acadêmico, científico e tecnológico. A fúria do ministro foi contra o que ele chamou de “balbúrdia”, seja lá o que ele quis dizer com isso. De acordo com o governo, as instituições responsáveis por 95% da produção científica do Brasil são antros de perdição em festas dionisíacas. É um mistério para a sociedade a conciliação entre esse suposto hedonismo aventado pelo ministro, e a produção das universidades. Mais uma vez, Weintraub revela seu absoluto desconhecimento na área em que comanda. Pior, para justificar o disparate, disse que os valores retirados das universidades seriam revertidos para o Ensino Básico. Porém, na mesma semana, o Brasil ficou sabendo que, da Educação Infantil ao Ensino Médio, o contingenciamento será de R$ 2,4 bilhões.

O corte na verba das universidades será de R$ 2,2 bilhões. A Universidade Federal do Paraná (UFPR), a mais antiga do Brasil, terá menos R$ 48 milhões. Já da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), serão retirados R$ 37 milhões. Bolsonaro e seu ministro devem explicar ao Brasil que tipo de desenvolvimento pretendem alcançar com uma política de desinvestimento na Educação. Na verdade, a medida do presidente é coerente com sua declaração, em março, durante um jantar nos EUA. Segundo ele, “O Brasil não é um terreno aberto onde nós pretendemos construir coisas para o nosso povo. Nós temos é que desconstruir muita coisa. Desfazer muita coisa”. Provavelmente o seu ódio pretenda destruir as 18 universidades, os 173 campus e os 360 institutos federais construídos pelo Partido dos Trabalhadores.

Resta saber do que é feita a autoestima dos brasileiros diante de um ataque tão profundamente deletério contra a construção de um país soberano. Somente pela educação é que se alcançará a dignidade de uma sociedade bem formada e capaz de vencer a cegueira da ignorância. Esse ódio é secular, é contra as senzalas. Os governos do PT colocaram mais de cinco milhões de filhos de pobres nas universidades e isso é inadmissível para a elite mais truculenta do mundo, a brasileira, para quem Bolsonaro presta serviço. Pesquisa da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior no Brasil (ANDIFES) aponta que, entre 2010 e 2014, de cada três estudantes universitários, dois são das classes D e E. A presença dos filhos da senzala nos bancos acadêmicos, de famílias com renda de 1,5 salário mínimo passou de 44% para 66,19%. Sem uma urgente e contundente reação estudantil, o Brasil está condenado a ser um país onde apenas as elites terão acesso aos espaços de decisão política e isso faz toda a diferença no acesso aos bens produzidos das fontes energéticas brasileiras. Reação já, ou provincianismo eterno.

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