A mensagem de Eugênio Aragão

"Aragão fala a Attuch da intervenção militar no Rio. Descreve-a como o suprassumo do amadorismo e do sintoma máximo de um governo à deriva. Mas, alerta: pode ser a fagulha que faltava a uma intervenção militar nacional de fato", diz o colunista Gustavo Conde; "Aragão está dizendo que pode estar em curso um golpe militar sim, que arrasaria com toda a democracia de uma vez 'para pôr ordem na casa', valor com apelo crescente e uniforme nas fileiras da sociedade empapuçada até de si mesmo", lembra Conde

Brasília - O novo ministro da Justiça, Eugênio Aragão, durante cerimônia de posse (José Cruz/Agência Brasil)
Brasília - O novo ministro da Justiça, Eugênio Aragão, durante cerimônia de posse (José Cruz/Agência Brasil) (Foto: Gustavo Conde)

A entrevista de Eugênio Aragão a Leonardo Attuch por vídeo conferência é um dos acontecimentos mais importantes do período recente. A verve de Aragão é avassaladora. O conhecimento jurídico que ele tem é fora do comum. Não é isso, no entanto, que define a qualidade assombrosa de sua análise. O que define esse patrimônio intelectual essencial ao país e à cidadania é uma coisa muto singela que atende pelo nome de 'caráter'.

Eugênio Aragão é o caráter encarnado. Ele abriu mão de premiações importantes, em função de seu caráter. Devolveu a honraria 'Ordem do Cruzeiro do Sul', concedida pela Aeronáutica, em solidariedade a José Genuíno, em desagravo à violência pusilânime que lhe foi cometida nos interstícios do golpe de estado de 2016.

Antecipou sua aposentadoria do Ministério Público Federal, depois de quase 30 anos de serviços prestados, como forma também de protesto contra esta instituição que lhe acolheu e pela qual lutou durante quase toda uma vida profissional. Tornou-se, a partir dali, um ativista político e cidadão das fileiras democráticas, uma das vozes mais contundentes e importantes do cenário pós golpe.

Aragão tem uma dicção poderosa. Não é trivial lhe extrair o sentido. Exige atenção e alguma humildade. Ele tem a tradição dos grandes oradores do Ministério Público, o que, a princípio, pode assustar. Mas o sentido que dali emana é dos mais densos e precisos da cena crítica, não só jurídica como filosófica. Aragão é um patrimônio. Óbvio que não é um totem, pelo contrário. É alguém que desafia os poderes e se coloca na linha de tiro.

Necessário dizer isso, porque sua voz, nesse momento grave de ausência de vozes políticas (só tem a do Lula que, às vezes, precisa de um descanso humano e merecido), se impõe como uma leitura desprovida de favores e concessões, intensa, plena de ethos e observações cirúrgicas. Há de se ter muita qualidade de leitura para absorver o melhor sentido do que diz Eugênio Aragão.

Dito isso, vou ao ponto. Aragão fala a Attuch da intervenção militar no Rio. Descreve-a como o suprassumo do amadorismo e do sintoma máximo de um governo à deriva. Mas, alerta: pode ser a fagulha que faltava a uma intervenção militar nacional de fato. Aragão postula que a população brasileira está em estado de 'burnout', síndrome psicológica de 'esgotamento subjetivo'.

A tese erige o argumento de que desde 2005, com a crescente criminalização da política e com o bombardeio enviesado de informações via imprensa majoritária, o cidadão não aguenta mais falar de política e de cidadania. Faz muito sentido (e é uma tese muito sutil, que demanda atenção redobrada, técnica e sensível).

Diz Aragão que, para se mobilizar uma população homegeneizada artificialmente como esta, será preciso muito mais que um fato específico como gatilho. Será preciso muito mais, inclusive, que uma acumulação de energia histórica e política oriunda do esfacelamento institucional que devastou o país.

Esse é um detalhe assaz importante. O ex-ministro da justiça está dizendo que a intervenção no Rio de Janeiro pode ser essa "fagulha" e que o próprio exército - que, por sua vez, age contra seus próprio princípios constitucionais e de conceito - sabe disso. É uma leitura que exige capacidade de projeção e leve desprendimento do tecido crítico que se alastra por mídias, redes e bares.

Aragão está dizendo que pode estar em curso um golpe militar sim, que arrasaria com toda a democracia de uma vez "para pôr ordem na casa", valor com apelo crescente e uniforme nas fileiras da sociedade empapuçada até de si mesma.

A morte de um soldado no morro poderia ser esse estopim. Essa tese, eu já defendia quando da primeira intervenção militar parcial no Rio, ano passado, salvo engano (são tantas): exército no morro é um convite à extrema violência e à pirotecnia desvairada. Ou: um passo para o estado de exceção.

Aragão, no entanto, é muito mais complexo do que imagina a vã filosofia. Ele constrói mais cenários do que toda uma equipe 'de situação' trabalhando confinada durante um mês. Traça a psicologia elementar de Temer, a precariedade técnica do governo, a relação da deriva nacional com a institucionalidade internacional e as timias políticas e de percepção que avançam junto aos desdobramentos eleitorais. Ele é uma máquina.

De sorte que seu pensamento deve ser observado com extrema atenção por todos os agente políticos diretamente envolvidos nesse embróglio estrutural que se apoderou do Brasil. Exemplo: o que ele fala da candidatura Lula é essencial. Ele a defende, ele a entende como 'favas contadas' e ele lê os votos virtuais do STF (ele conhece pessoalmente todos os ministros, talvez, à exceção de Alexandre de Moraes - o que não o impede de ler o perfil deste em especial com mais profundidade, provavelmente, do que seu próprio proprietário subjetivo): 5 votos contra a prisão de Lula plenamente estabelecidos.

Aragão não é iguaria para qualquer mortal. Como disse acima, ele exige 'foco', para dizer o mínimo. É um intelectual digno do nome. Cita frequentemente Thomas Khun, Lakatos e Paul Feyerabend, filósofos da linguagem e epistemólogos essenciais para se compreender a produção cientifica e a própria linguagem humana. Eu tive a sorte de ser doutrinado na ciência linguístiva através desses três gigantes do pensamento ocidental.

Esta entrevista a Leonardo Attuch mostra o quão importante é nos atermos ao debate público que se desenrola nas redes e nas mídias alternativas. Há muita coisa, há muita quantidade. Mas há, também, essa dimensão de qualidade. É uma entrevista para se assistir várias vezes, para se transcrever, para se guardar, para se desdobrar. Foi - e é - um momento importante do jornalismo e do pensamento brasileiros.

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