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A metástase da curiosidade

Por Flávio Ricardo Vassoler

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Há pouco, num ponto de ônibus da avenida Paulista, deparo com um senhor cabisbaixo, que mira o meio-fio como se nada mais existisse. Sentado com desleixo na extremidade do banco, o senhor começa a esfregar o rosto com sofreguidão, como se a mão curvada pelo reumatismo e repleta de nódoas, qual uma borracha, quisesse apagar a monomania da memória.

 

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Quando faço menção de me aproximar – o senhor está bem? –, ele me faz estacar com um soslaio rude e incisivo.

 

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Com uma mescla de comiseração e perplexidade – o olhar do velho doeu como um beliscão –, me sento na ponta oposta do banco, abro meu bloquinho de notas e começo a esboçar algumas ideias, logo ficando absorto pela escrita.

 

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Súbito, uma voz algo rouca me iça do imaginário:

 

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– Você é escritor?

 

Minha curiosidade passara para o senhor, que agora me interpela.

 

– Sou.

 

– E você geralmente escreve sobre o quê?

 

Minha curiosidade redargue como um bumerangue:

 

– Me interessam, por exemplo, estados de espírito como o do senhor, há pouco. O senhor esfregava o rosto como quem rumina uma dor – ou, talvez, como quem quer se livrar de um fardo.

 

– Quer dizer, então, jovem, que, pra você, quem vê cara vê coração?

 

– É uma trilha cheia de pegadas…

 

O senhor coça o queixo flácido.

 

– Quer dizer, então, jovem, que, para escrever, você se põe no lugar da pessoa?

 

– Eu tento.

 

– E sofre como ela?

 

– Não poucas vezes.

 

– E se vê no lugar dela?

 

– Muitas vezes.

 

– E sente alívio quando não é você quem vai ser fuzilado?

 

– Boa pergunta! O senhor também escreve?

 

Ele saca do bolso da camisa xadrez uma folha dobrada, se levanta (não sem dificuldade) e joga o papel na minha direção. A folha cai junto ao meu pé, e, quando me abaixo para pegá-la, o senhor se afasta do ponto de ônibus sem mais, como quem dá de ombros e embaralha despedida e desdém.

 

Faço menção de ir até ele, mas o conteúdo da folha me paralisa com um tiro de misericórdia: “Massa amorfa e densa, com extensão longitudinal de 9 cm, alojada no pulmão esquerdo. Carcinoma com prováveis irradiações metastáticas”.



*Ilustração de Luanna Falcão. Siga seu Instagram: @luanna.artworks

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