A morte de ninguém e o triunfo de alguém

Não havia Ciência, Filosofia, Psicanálise... por onde ele não havia passado, mesmo que ligeiramente. Quanto mais sabia, menos conhecia. O saber é uma mera ilusão de poder, pois saber é empanturrar-se do Discurso do Outro e esvaziar-se de si mesmo e do real das coisas mundanas. Ao poço sem fundo do saber do Outro se lançou o personagem...

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Outrora procurava por si mesmo e a verdade das coisas do mundo descobrir.

Não havia Ciência, Filosofia, Psicanálise... por onde ele não havia passado, mesmo que ligeiramente. Quanto mais sabia, menos conhecia. O saber é uma mera ilusão de poder, pois saber é empanturrar-se do Discurso do Outro e esvaziar-se de si mesmo e do real das coisas mundanas. Ao poço sem fundo do saber do Outro se lançou o personagem ...

Faltou-lhe, dentre tantas coisas desse mundo, assistir ao final da “Aula” inaugural de Roland Barthes (1915-1980) no Collège de France, onde é retratada toda a sua grande obra, para a qual Barthes sintetiza: "Nenhum poder, um pouco de saber e o máximo de sabor...".

Cheio do Outro e vazio de si, tornou-se passivamente um sábio zumbi efeito deletério do desejo do Outro, um pobre morto obsessivo, alheio e ventríloquo tabula rasa (Latim) preenchida pelo texto desejante do Outro do saber e do poder.

Certo dia, já exausto de procurar obstinadamente a essência das coisas, sucumbiu-se com todo o seu repertório intelectual. Sequer era aquele altivo militante universitário de esquerda, reformador do mundo. O discurso da direita nazibolsonista tampouco lhe ojerizava mais. Todo o seu conhecimento adquirido se foi, como uma bolha de sabão que se desfaz ao leve vento.

Nada lhe fazia mais sentindo. Nem ele mesmo. Não tinha mais coisas a procurar, nem coisas nem ele existiam mais, pois sentia que toda a essência da vida era completamente sem essência alguma.

Assim, depois também da morte de seu Deus, tornou-se um zumbi sem nome, sem quaisquer objetivos vitais ... Totalmente morto, embora ainda vivesse biologicamente.

Abandonou todas as suas atividades acadêmicas, o trabalho, a família e os poucos amigos com os quais mantivera calorosos debates sobre as teorias do conhecimento. Desejava também a morte biológica, seu desejo era desaparecer da face da Terra. Mas como?

Não encontrava sequer forças para tirar a sua própria vida, apenas perambulava em círculos, diuturnamente, comendo e bebendo tão somente aquilo que os transeuntes solidários filantrópicos lhe ofertavam.

Talvez num de seus últimos lampejos de claridade mental, embora já tivesse assassinado Deus do mundo e do céu, contraditoriamente a ele recorreu. Por via das dúvidas, dirigiu-se a um culto sagrado mais próximo que encontrou em busca de um pastor da fé.

- Meu senhor, eu vim em busca de uma benção final, sei que já estou morto! Mas enquanto o meu corpo ainda viver, preciso ser enterrado para o livramento desse mundo terrível do qual eu já não pertenço faz tempo. Na verdade, nunca pertenci, nem ele a mim. Busco a última redenção e o meu sepultamento.

- Como assim meu jovem senhor, última redenção? sepultamento?

- Eu já disse isso ao senhor. Como assim? Eu necessito apenas de uma derradeira purificação, de alguma forma. Alguma verdade deve existir na religião de Deus. Não que eu a creia, todavia, na menor dúvida é melhor tentar alguma redenção expiatória. Sei que já morri e nada fará com que eu ressuscite. Portanto, livre-me logo desse meu fardo existencial, eu imploro!

- Mas o que faz o senhor se sentir assim, sem esperanças e morto?

- Não preciso de esperanças, meu pastor! Para quê? A sensação cadavérica que sinto é irreversível, não há motivo algum para mudar isso. A morte já sou eu mesmo. Preciso mesmo da sua extrema unção e de meu sepultamento.

- Vamos orar senhor! Você está cometendo um grave pecado, herege!

E o devoto profissional passou a orar subitamente...

- É, o senhor não entendeu o meu suplício realisticamente aterrador e final.

Desta feita, o “herege” se retirou da Casa de Deus imediatamente.

Sem rumo, todavia determinado pelo seu desejo thanônico, seguiu a sua vaga direção. Não conseguia mais pensar em nada, estranho que ainda andasse... Desfaleceu-se no passeio de uma rua escura.

Morto vivo, vivo morto... acordou com os primeiros raios solares em sua face pálida, suja e peluda. Não sentia mais fome nem sede de nada.

Quem lhe dera que fosse ao menos um zumbi, pensou, pois sentia ainda alguma coisa humana viva em si, mesmo que morta. Pela primeira vez, vinha-lhe a ideia de atentar contra o seu corpo ainda parcialmente vivo. O barulho dos automóveis que trafegavam ao seu lado despertava-lhe um impulso de se jogar frente a eles.

Porém, não tinha sentido algum um morto ser morto novamente. Conseguiu alguma força para se lançar, mas faltava-lhe o sentido de perecer assim.

Tornou-se totalmente incrédulo em Deus e no Diabo. A natureza das coisas não existia mais, absolutamente. Não havia mais cores, mais luz nem trevas. As estrelas e o sol se apagaram.

Nada mais existia, apenas parcos resíduos mnêmicos anímicos e um corpo em decomposição...

O saber, o tempo e a morte...

Estranhamente, mesmo sem assistir àquela “Aula” inaugural de Barthes, sem sabor nem sabedoria “deixou-se” morrer simbolicamente, o seu odor já nauseabundo.

Desaparecia assim o objeto do desejo discursivo do Outro, pois a ele se entregara tacitamente.

De fato, esse personagem era somente ninguém, apenas aquilo que o Outro um dia sussurrou-lhe.

Diziam apenas que ele era apenas um brasileiro contemporâneo, embora também pudesse ser uma brasileira moderninha. Ninguém deste Brazil sabia falar sobre o seu sexo.

Nem ele soube.

O seu corpo foi totalmente carcomido assim como o seu desejo singular sempre fora.

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