A praça Castro Alves é do povo, mas a orla é do Crivella e dos quiosqueiros

Precisamos viver a era pentecostal, a era do dízimo, a era dos contrários, das milícias, da radicalização e do fascismo descarado para que, depois um ir e vir de “recursos judiciais” - sempre eles - fosse julgado “procedente” o recurso da prefeitura (leia-se o bispo Crivella) a favor dos “espaços privativos” na areia

Calçadão VIP no Ano Novo do Rio de Janeiro
Calçadão VIP no Ano Novo do Rio de Janeiro (Foto: Victor Ferreira/Twitter)
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Por Denise Assis, para o Jornalistas pela Democracia

A praça Castro Alves é do povo. Na Bahia. No Rio de Janeiro, a praia corre o risco de passar por um processo de privatização. Estão aí os “chiqueirinhos Vips”, do réveillon, para dar a ideia.

Sob o ponto de vista dos turistas, as praias cariocas nivelam os frequentadores, dando-lhes a impressão de ser um “espaço democrático” que a todos igualam. Uma meia verdade. Aos visitantes escapa a sutileza de que as praias de Ipanema e Leblon – mesmo a de Copacabana – são divididas em “tribos”. Grupos que elegem determinados points para si. E, assim, o Posto 9 da Ipanema dos anos 1980 era o paraíso dos “descolados”, dos ativistas políticos e dos que se dedicavam a dividir cigarros “não convencionais”. Bem como na Barra da Tijuca, um pedaço de areia levou o nome do surfista mais badalado desta época: “Praia do Pepê”. 

Ali, só os corpos malhados em academias ou nas acrobacias sobre pranchas ousavam se exibir e serem tostados ao sol. Uma prova de que o espaço fora delimitado. Tudo, porém, num pacto tácito, sem a imposição de cercas ou divisórias.

Precisamos viver a era pentecostal, a era do dízimo, a era dos contrários, das milícias, da radicalização e do fascismo descarado para que, depois um ir e vir de “recursos judiciais” - sempre eles -  fosse julgado “procedente” o recurso da prefeitura (leia-se o bispo Crivella) a favor dos “espaços privativos” na areia, na noite em que cerca de três milhões de pessoas se comprimiram sob o céu de Copacabana para ver um espetáculo que dura em torno de 14 minutos, iluminar a orla. A empáfia já havia sido tentada no ano passado, quando alguns “espertos” iniciaram a prática na base da “bandalha”, à galega. 

Neste ano, depois de colocado em pé o ovo de Colombo, a Secretaria de Envelhecimento Saudável, Qualidade de Vida e Eventos do Rio apresentou-se como a responsável por organizar os “espaços vips na orla – pode ter coisa mais oportunista? E então, 51 quiosques foram autorizados a ter “cercados”. É evidente que aquele jornal carioca tratou de substituir o termo mais adequado: “chiqueirinhos vips”, por algo um pouco mais apropriado ao público com posses para dispor de R$ 800,00, por uma mesa dentro dos tais chiqueirinhos. Sim, chiqueirinhos. 

A turma de barraqueiros (os empreendedores que estão fazendo bombar a economia do Paulo Guedes) correram para também instituir os seus mini latifúndios, o que resultou em um labirinto de corredores estreitos, numa praia acostumada a ombrear o turista endinheirado com as famílias da Baixada Fluminense - que torrou o cartão de crédito para estar ali, todos de roupas novas, brancas, como pede a festa. 

A procura maior pelos tais espaços exclusivos, longe da “ralé”, foi de turistas brasileiros. Alguma dúvida? Vocês já viram turista estrangeiro fazer questão da estratificação? De pulseirinhas vips, uma praga presente até nas festas e reuniões petistas? 

A guerra de recursos que decidiu pela estratificação foi parar no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e foi resolvida rapidamente, claro, pois a data exigia urgência. A decisão foi do presidente da Corte, o ministro João Otávio de Miranda, que instado a opinar, deu parecer favorável, sob o argumento de Crivella de que a suspensão de tal prática causaria “grave lesão à ordem e segurança pública”. Com destaque para o fato de que o presidente do STJ “vetou cercadinhos em área de restinga”. Que fofo.

Melhor, só a fala do secretário responsável por aquela secretaria citada aí em cima. “É tradição na orla os quiosques fazerem festas. Baixamos um decreto para legalizar tudo”. Resolvido, então.

Mas não custa lembrar Gilberto Freyre, que no seu “Casa Grande & Senzala”, descreve assim, a relação entre os de baixo e os de cima, numa atitude obsequiosa dos senhores para com os seus escravos de casa: “A casa-grande fazia subir da senzala para o serviço mais íntimo e delicado dos senhores uma série de indivíduos – amas de criar, mucamas, irmãos de criação dos meninos brancos. Indivíduos cujo lugar na família ficava sendo não o de escravos, mas o de pessoas de casa. Espécie de parentes pobres nas famílias europeias”. E é nesta condição, a de “parentes pobres”, que os sem acesso aos “chiqueirinhos vips”, têm o direito – ainda – de assistirem ao show de fogos de Copacabana. Feliz 2020, com o acirramento da segregação.

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