A previdência dos militares e a defesa do interesse nacional

O que me incomoda nos militares não é seu salário, ou seus supostos privilégios. O que me incomoda nos militares é eles se omitirem diante da direta agressão aos interesses nacionais permanentes sob o governo Bolsonaro.

(Rio de Janeiro) A Tropa da Brigada de Infantaria Paraquedista desfila em continência ao Presidente da República.
(Rio de Janeiro) A Tropa da Brigada de Infantaria Paraquedista desfila em continência ao Presidente da República. (Foto: militares)

Discordo dos que se opõem a uma previdência especial para as Forças Armadas. Acho que as características da instituição exigem esse tratamento. Sou a favor inclusive de salários decentes para os militares. E concordo que 19 mil reais de aposentadoria para um general de quatro estrelas é muito baixo. O que me incomoda nos militares não é seu salário, ou seus supostos privilégios. O que me incomoda nos militares é eles se omitirem diante da direta agressão aos interesses nacionais permanentes sob o governo Bolsonaro.

Não estou exigindo pronunciamentos públicos, ameaça de sublevação ou de golpe. Quero uma coisa mais simples. Quero que o Alto Comando das três Forças ponha em discussão interna e tire conclusões de natureza nacionalista, como deve ser de seu dever, fatos escabrosos como a venda para estrangeiros do controle da Embraer, o retalhamento criminoso da Petrobrás, a entrega aos Estados Unidos da base de Alcântara, a ameaça de privatização da Eletrobrás, a venda da Casa da Moeda, a ausência de uma política  de retomada da economia e do emprego. São setores de inequívoco interesse nacional, portanto dentro do campo de preocupações naturais dos militares. 

Nos anos de Fernando Henrique escrevi que os militares se movem pela honra, ou pelo soldo. Mas ali via-se que perderam os dois, pois o governo lhes tirou o soldo e  não tiveram honra para exigir dele melhores condições materiais. Lembre-se que recrutas tiveram de ser mandados para casa almoçar porque não havia comida no quartel. Lula melhorou a vida dos militares, inclusive quanto a equipamentos modernos para as Forças Armadas, incluindo o projeto agora ameaçado de construção do submarino nuclear, caças para a Força Aérea e desenvolvimento de armamentos nacionais para o Exército.

Até hoje não entendi como generais da posição de Vilas Boas e Heleno, que como oficiais acompanharam os governos de FHC e Lula, puderam desenvolver tanto ódio de Lula, exceto pelo componente ideológico de que está impregnado o pensamento militar atual, sob forte influência  neoliberal norte-americana. Isso talvez  seja a nossa desgraça. Nossos generais não estudaram os clássicos brasileiros do desenvolvimento, que não entram nas escolas militares. Fizeram cursos ligeiros sobre economia calcados na visão norte-americana, como um resquício da guerra fria, em detrimento de uma visão nacional.

Espanta-me sobretudo a visão militar distorcida do período ditatorial. Eles negam a tortura, os excessos cometidos contra uma oposição radicalizada porém em posição assimétrica, mas fazem crítica inconsistente ao Presidente Geisel talvez por causa do crescimento  apoiado em dívida externa em seu período. Ora, a dívida externa dos anos 70 significou as bases financeiras para um  dos maiores avanços da economia brasileira em décadas, no período do II PND. O que houve, depois, a crise dos juros, era absolutamente imprevisível na escala alcançada e não tinha como Geisel adivinhar.

O legado da dívida está aí na infra-estrutura energética, com Itaipu, Tucuruí, outras hidrelétricas, grandes obras rodoviárias, expansão siderúrgica, crescimento via sistema tripartite na petroquímica, crescimento econômico, enfim. Houve besteiras, como o escândalo da Sunamam, mas, no geral, jamais uma dívida brasileira foi melhor aplicada. Infelizmente, com a explosão dos juros externos no governo Figueiredo, e por causa da reação pusilânime de Delfim Netto se submetendo ao FMI, tivemos que passar anos tentando administrar, com grandes sacrifícios internos, e no limiar da hiperinflação, o rescaldo da dívida externa.

É fato que não foi a dívida autorizada por Geisel, mas a forma de gerir a contrapartida dela em moeda interna a grande trapalhada daquele período. Para cada dólar obtido lá fora, o ortodoxo Mário Henrique Simonsen, em  lugar de expandir a disponibilidade interna de moeda correspondente ao ativo que seria criado e estimulando o crescimento, lançou títulos da dívida interna, supostamente para conter a liquidez. Conteve, sim, mas não a liquidez ou a inflação. Conteve  o crescimento da economia a altas taxas. E criou um imensa dívida interna, desnecessariamente, concomitante com a dívida externa.

Os militares atuais que criticam Geisel e exaltam o neoliberalismo de Simonsen não sabem as virtualidades do déficit público quando a economia entra em recessão. Ao contrário deles, não critiquei o Brasil Potência de Geisel, mas sim a “ciranda financeira” de Simonsen. A propósito, escrevi um livro com Maria da Conceição Tavares sobre economia política e política econômica do regime autoritário, editado em 1984. É “O Grande Salto para o Caos”. Gostaria que os generais o lessem. Evidentemente que não negamos a  tortura e o cerceamento das liberdades, mas reconhecemos as virtudes da economia sob Geisel. Como nacionalista, ele fez o que todo militar honrado deve fazer nesse campo, defendendo as bases materiais da Nação. Agora, sob Bolsonaro, os militares tendem a ganhar melhores soldos e muitos cargos civis; mas correm o risco de perder a honra!
 

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