A previdência e os planos do Banco Mundial

O objetivo é repetir o mesmo que o imperialismo já consegue realizar em países africanos: produzir determinado grão em terra de propriedade dos monopólios, com maquinário, insumos importados pelo monopólio, esses grãos são colhidos por trabalhadores sem quaisquer direitos recebendo migalhas abaixo do nível que garanta a sua sobrevivência

A previdência e os planos do Banco Mundial
A previdência e os planos do Banco Mundial (Foto: Jaélcio Santana)

O novo presidente do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), Carlos von Doellinger deu uma entrevista à revista IstoÉ Dinheiro (29 de março de 2019, link: https://www.istoedinheiro.com.br/a-reforma-do-estado-vai-remover-um-cancer-que-esta-tomando-o-organismo/) na qual se apresenta de forma bastante clara a estratégia imperialista para os destinos do Brasil.

Servidor aposentado pelo IPEA, von Doellinger já foi secretário-adjunto do Ministério da Fazenda, presidente do Banco do Estado do Rio de Janeiro, além de consultor do Banco Mundial e do programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Ou seja, o IPEA passa para as mãos direta do Banco Mundial.

O novo presidente apresenta a fórmula para que o Brasil cresça em ritmo chinês! E isso não é exagero nosso, ele disse literalmente: "O Se você resolve isso, o potencial é chinês"; o que destoa das seguidas quedas na expectativa de crescimento do país em apenas três meses do mandato fascista-neoliberal de Bolsonaro-Guedes.

Qual a questão a ser resolvida: "Hoje, é o problema fiscal. Aliás, a Reforma Fiscal sempre esteve por trás de tudo.". Ou seja, além do saque gigantesco da poupança dos trabalhadores em si que significa a proposta de reforma da previdência, atrás dela o objetivo mais estratégico é a reforma fiscal. Três dos impostos que alimentam a previdência fazem parte do regime tributário.

E eis o fundo do impasse político que se trava dentro do Congresso na questão da Previdência. Afinal, os imperialistas estão dizendo claramente que esta é apenas o primeiro passo para uma reestruturação radical do Estado Brasileiro: " ajuste fiscal, a Reforma Tributária, a Reforma Fiscal de uma forma geral, que tem relação com a simplificação, com a redução de impostos, que tem como objetivo reduzir o ônus da carga tributária e reduzir o custo de transação, com menos encargos acessórios, além da desestatização. Ao lado da Reforma da Previdência, podemos chamar essas de reformas do Estado. Elas vão ser enviadas sequencialmente para não atropelarem o Congresso. Já temos o texto da Reforma da Previdência, depois será enviada a PEC do Pacto Federativo, que já está pronta, mas que ainda não foi apresentada porque estamos aguardando o momento político certo", diz von Doellinger.

As oligarquias regionais, os setores locais da burguesia atrelados secularmente de forma parasitária ao Estado nacional, estão sendo atacados pelos bancos internacionais que querem retirar quase tudo para si.

Esses setores da burguesia nacional entraram no golpe na expectativa de arranjar melhor acordo, eles aceitam atacar os trabalhadores, esfola-los até a última gota de sangue, mas essa destruição total das suas próprias bases econômicas e políticas que o imperialismo está realizando, num momento em que, ele mesmo imperialismo se apresenta dividido e portanto enfraquecido no cenário mundial, permite a eles melhores condições de barganha e por isso a crise política tem se acentuado no último período.

Mas afinal, onde está o potencial para o crescimento econômico em ritmo chinês, segundo a promessa do funcionário do Banco Mundial que agora dirige o IPEA? "O Brasil continua sendo a grande fronteira para os investidores. Aqui você tem disponibilidade de terras. E capacidade de aumentar muito a produção, usando vantagens competitivas, seja na agricultura, na pecuária, na mineração, na indústria de um modo geral e nos serviços de todo tipo". (Indústria de modo geral está sendo destruída pela política neoliberal e se intensificou desde o golpe de 2016...).

Ou seja, segundo Carlos von Doellinger o principal está na disponibilidade de terras, agricultura, mineração, pecuária, portanto, está na extração de renda fundiária, o que unifica todos esses ramos, incluindo o petróleo, logicamente.
Traduzindo, o imperialismo está prometendo que destruindo os serviços públicos (saúde, educação, infra-estratura, etc), reduzindo o fisco, os investidores entrarão no Brasil para utilizar os recursos naturais e levar toda a riqueza produzida para fora.

O objetivo é repetir o mesmo que o imperialismo já consegue realizar em países africanos: produzir determinado grão em terra de propriedade dos monopólios, com maquinário, insumos importados pelo monopólio, esses grãos são colhidos por trabalhadores sem quaisquer direitos recebendo migalhas abaixo do nível que garanta a sua sobrevivência, então esse grão vai por ferrovias de propriedade dos monopólios, para portos controlados pelos monopólios e são vendidos para os países que o monopólio necessita. E nada, ou quase nada da mais valia produzida no território circula no mercado interno. Tudo é extraído pelo imperialismo. Algo que nem nas colônias do século XV era possível de se pensar tal grau de exploração colonial.

Não por acaso, nesta mesma semana que von Doellinger deu essa entrevista, o sítio do Banco Mundial publicou um artigo em que a autora Laura Tuck explica as sete razões para que a questão da terra e dos direitos de propriedade esteja no topo da agenda global "7 reasons for land and property rights to be at the top of the global agenda", no link: http://blogs.worldbank.org/voices/7-reasons-land-and-property-rights-be-top-global-agenda, ou seja, no topo das prioridades do imperialismo.

Este artigo foi publicado por ocasião da vigésima Conferência anual do Banco Mundial "Terra e pobreza", que tem se realizado desde 1999, que ocorreu nesse final de março nos Estado Unidos, onde cerca de 1.500 representantes de governos e estados de vários países se reuniram para discutir e definir uma política agrária para o mundo.

Em vários outros artigos: "500 anos em 5: o projeto de recolonização do Brasil", "Mercados de Terra, imperialismo e reorganização do regime político", "Militares entreguistas e mercado de terras", "A crise do imperialismo e o fascismo", "Fascismo, golpes de estado e recolonização", publicados tanto no jornal O Homem Livre, como também no portal Brasil247 tenho apresentado a relação intrínseca em que existe entre a corrida mundial por terras, iniciada "oficiosamente" em 2008 e o golpe de estado de 2016 no Brasil.

Essa relação vai ficando cada vez mais nítida e a presença de Carlos von Doellinger no IPEA, e a revelação de que a contrapartida da reforma da previdência é a entrega das terras brasileiras aos bancos internacionais já não assusta mais, apenas reafirma a análise que tem sido feita até aqui.

Nesse sentido, é importante dizer que a briga entre as alas burguesas dentro do regime político atual não pode ser superada, o projeto do imperialismo chegou numa etapa onde setores nacionais tradicionais precisam ser subordinados completamente, ou seja, essa fase passa pela liquidação dos Sarneys, Jucás, Calheiros, e tudo o que está na mira da Lava Jato, e mesmo diante da crise política e diante da resistência apresentada por este setor o imperialismo não poderá retroceder na conclusão desse projeto estratégico que remonta de décadas, e que se tornou de vida ou morte após a crise de 2008 devido ao colapso total do sistema capitalista aliada a crise militar no Oriente Médio.

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