A prisão do ex-presidente Álvaro Uribe pode abrir uma nova fase para a Colômbia

A partir deste choque para a sociedade colombiana, pode ser uma oportunidade para repensar a estrutura política atual, onde se desenvolveu um “anti-esquerdismo”, que tinha na guerrilha das FARC seu grande símbolo e em Uribe, uma figura de popularidade ampla e intocável

(Foto: REUTERS/Leonardo Munoz)
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Recentemente foi anunciado que o ex-presidente da Colômbia, Álvaro Uribe teve sua prisão decretada, fato que se torna o episódio político mais importante da história recente do país, em paralelo ao processo de paz celebrado em 2016. Para entender a importância deste momento, é preciso fazer um breve retorno a conturbada história política local. 

Desde seu processo de independência, a Colômbia é palco de freqüentes conflitos, guerras civis e golpes de estado, governada por muitas décadas pelo partido conservador, centralizador e ligado desde sempre a igreja católica, e pelo partido liberal, que apresenta idéias de livre mercado e federalização, a partir das idéias que predominavam na Europa durante o século XIX, período de fundação dos partidos. 

O domínio das agremiações, fortemente elitistas e desconectados com as classes populares, gerou uma série de conflitos entre ambas pelo poder, desembocando por vezes em violentos protestos, como no período do “Bogotazo” em 1948, onde manifestações na capital Bogotá, inicialmente devido a morte de um líder liberal, fugiram do controle partidário e se espalharam pelo país como uma série de revoltas populares. 

A solução encontrada pelas oligarquias se deu com um golpe militar e posteriormente um governo de coalizão entre os dois partidos, que dividiam entre si o poder e estrutura do estado, na criação da chamada Frente Nacional, que durou até 1974. 

Embora tenha alcançado um período de estabilidade, a Frente Nacional continuou a ignorar os problemas sociais e econômicos que atingiam principalmente os mais pobres, resultando na formação de grupos guerrilheiros originados do partido liberal e de inspiração marxista, como as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as FARC. Além dos grupos guerrilheiros, o país também atravessava nos anos 1980 e 1990, um crescimento dos grupos narcotraficantes, principalmente diante da pressão dos Estados Unidos para conter a entrada de cocaína sul americana em seu território. 

Nesse contexto, sobe ao poder Álvaro Uribe, que contando com o financiamento norte americano, realiza intensa campanha midiática e militar contra as guerrilhas, associando-as com os narcotraficantes, no chamado Plano Colômbia, cujo objetivo era combater os cartéis de drogas. 

Este período foi decisivo para uma mudança de postura na política colombiana, que antes estava restrita ao partido liberal e o partido conservador, sendo que os sucessos militares reforçaram a imagem de Uribe como homem forte do país. Ao mesmo tempo, movimentos sociais e ativistas de esquerda passam ser perseguidos e desacreditados, ligados de forma falaciosa aos movimentos guerrilheiros e aos cartéis de drogas, em campanhas visando minar a oposição ao governo. 

O presidente organiza seu próprio partido e consegue se reeleger, além de garantir a eleição de seu indicado Juan Manuel Santos, que rompe com seu mentor e realiza uma negociação de paz com as FARC. Durante a realização de um referendo sobre o acordo de paz, Uribe mostra novamente sua força e consegue uma vitória do “não” ao acordo, que foi alterado e votado pelo congresso colombiano. Mais tarde, já em outro partido, elege um novo protegido, o atual presidente Ivan Duque.  

É  possível perceber a importância do ex-presidente, que moldou todo um período da política colombiana. Aqui reside a também, a importância de sua prisão, acusado de pressionar testemunhas que poderiam ligá-lo a grupos paramilitares. A partir deste choque para a sociedade colombiana, pode ser uma oportunidade para repensar a estrutura política atual, onde se desenvolveu um “anti-esquerdismo”, que tinha na guerrilha das FARC seu grande símbolo e em Uribe, uma figura de popularidade ampla e intocável. Este processo de reconstrução, embora longo, pode ter se iniciado com os acordos de paz e chegado a um ponto sem volta com a prisão.

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