A que mulheres as pautas feministas atingem?

(Foto: Fatima 247)
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Tenho pensado, enquanto militante de esquerda e estudado, enquanto graduanda em jornalismo e interessada na área de comunicação política em quais mulheres (e homens também, mas não vem ao caso) nossas pautas ditas “feministas” têm atingido. Me preocupa muito constatar que falar sobre representatividade feminina,  sobre mulheres ocupando espaços na política não tem sido uma pauta somente dos setores mais progressistas da política, e essas temáticas estão sendo difundidas, trabalhadas e colocadas em jogo também por mulheres conservadoras. E por vezes chega a ser perigoso, quando caímos nos discursos vagos e não conseguimos difundir de fato os ideais progressistas junto com os ideais feministas. 

Historicamente o feminismo serviu e ainda serve para ajudar as mulheres a ocuparem espaços - e esses espaços podem ser físicos e também metafóricos - que a vida, e a sociedade desde os primórdios constituídas por homens nunca cedeu à elas. A luta pelo direito ao voto, o direito de poder sair de casa sem estar acompanhada de um homem, poder entrar no mercado de trabalho e escolher ou não continuar a cuidar exclusivamente da casa, a conquista de poder - enfim - se candidatar a cargos públicos, a licença maternidade, a licença maternidade tão tardia para mulheres políticas, a lei Maria da Penha - que é um sinal de que ainda anda tão frágil nossas conquistas. Tudo aqui citado e um tanto de coisas não ditas foram construídas e constituídas através de muita luta travada durante décadas por mulheres, na maioria dos casos autodeclaradas feministas. 

Lembro de um dia, num grupo de estudo sobre comunicação e feminismo, me sentir totalmente desconfortável com a frase dita por uma mulher “ainda não ganhamos várias das nossas batalhas pois perdemos tempo nos preocupando em explicar para os que não sofrem com o machismo o quanto combatê-lo é importante”. O desconforto se deu por dois motivos. O primeiro por acreditar não ser perda de tempo explicar aos homens - e também às mulheres que ainda  não sofreram na pele e não conseguem sentir empatia pelas outras - o quanto nossa pauta é importante e o segundo por lamentar que sim, ainda tenhamos que explicar à eles a nossa dor e o porque lutamos. Seria mais fácil se todas e todos nascessem com empatia sobrando para entender o outro, ou no caso, a outra. 

Voltando a temática do texto, questiono - sem muitas soluções - a que mulheres nossas pautas têm atingido atualmente? Quando digo nossas, coloco você, cara leitora, na mesma trincheira que eu, a trincheira dos que lutam por dias melhores e acreditam num mundo com menos desigualdade social, racial e de gênero. Muitas vezes nosso feminismo tem pautado coisas que são caras para nós, mas que não dialogam com a realidade de muitas mulheres. Talvez enquanto pautamos o direito a homens e mulheres ocuparem de forma igual a Câmara dos Deputados existam mulheres que lutam para poderem se emancipar financeiramente conseguir quem sabe largar a exclusividade do cuidado com a casa e ocupar o mercado de trabalho. Talvez enquanto a gente dialoga com alternativas para a legalização (ou descriminalização) do aborto - e coloco aqui a pauta como não só de interesse das mulheres e sim de saúde pública - existam mulheres que foram criadas socialmente e religiosamente para acreditar que o ato é pecado, e essas não têm tempo para conhecer a pauta como nós temos, pois estão trabalhando para sustentarem sozinhas seus filhos e nas horas vagas tentando fazer o melhor com criação das crianças para que essas possam “ser alguém na vida”. 

Tenho pensado, e como já mencionei, questionado, pois não cabe a mim aqui apontar certezas ou soluções, que muitas vezes nossas pautas dialogam com mulheres muito parecidas com nós e esquecem de dialogar com aquelas que não pensam ou não têm tempo de pensar parecido com a gente. Tenho sentido falta de apontarmos mais alternativas para as mulheres que não têm creches para deixar seus filhos, uma questão de educação. E não têm tratamento gratuito no Sistema Único de Saúde para tratar a doença que infelizmente agora possui, problema de saúde pública. E tem faltado falar de violência contra a mulher de uma forma clara, para além das redes, com ações práticas e dicas de como proceder, de como acreditar que o violador estará sendo realmente culpabilizado. Tem faltado falar para a mulher que ainda ocupa exclusivamente o papel de mãe e está presa em sua casa, sem poder sair, sem poder conhecer as pautas, sem educação, privada da alfabetização, sem poder ter direito à licença maternidade porque não tem trabalho, uma questão de economia. É preciso fazer entender que na vida tudo é uma escolha e que ser mulher não proíbe de escolher a vida que se quer ter. É preciso libertar cada uma para libertar todas. 

Delegada Sheila, deputada estadual de Minas Gerais eleita em 2018 fez do seu trabalho - e logo, a  proteção às mulheres - sua pauta. Palestras em escolas e universidades sobre o fim da violência contra mulher ou sobre a Lei Maria da Penha foram frequentes. A delegada também usou de uma pauta feminina - e sim feminista - para se eleger. Sheila foi eleita pelo PSL, ex-partido de Bolsonaro. Ela falou, e atingiu várias mulheres com o discurso de proteção à elas mas é a favor das armas. Tábata Amaral, deputada federal eleita pelo estado de São Paulo, que tem defendido pautas de interesses liberais na Câmara dos Deputados, lança nesta semana o projeto “Vamos juntas” que visa ampliar a participação das mulheres nos espaços políticos. Ampliar a participação de que mulheres? Basta ser mulher nesse espaço para atingirmos de fato a emancipação? Tábata diz querer mais mulher na política mas vota a favor da reforma da previdência social que é extremamente injusta com as mulheres trabalhadoras. 

Essas mulheres citadas também conversam com outras mulheres. Também partem para a lógica do convencimento de ideias. A diferença entre nós e elas e que nós defendemos verdadeiramente os interesses femininos, que na verdade não são femininos, são de educação, de saúde pública, de economia, de moradia, são de construção de um país mais igual. Nós defendemos mas elas não. É preciso que nos atentemos ao fato de que só estaremos livres quando todas estiverem livres. Para isso é necessário conversar com cada mulher que aprendeu com a vida que aborto é crime, que segue acreditando que lugar de mulher é cuidando da família e que principalmente com a rotina exaustiva de trabalho ocasionada por um sistema capitalista que esmaga nossos sonhos, ainda não teve tempo de pensar o quão desigual é o mundo para homens e mulheres e o quanto as mulheres e homens trabalhadores são oprimidos pelo sistema.  Essas mulheres tem tido tempo de conversar com a gente? Se não pra elas, pra quem é o nosso feminismo? A que mulheres nós estamos atingindo?

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