A questão da AIDS

"Quando um presidente diz que o portador do vírus é uma pessoa que custa caro ao estado, como disse Bolsonaro, está não só criando mais uma culpa nesta pessoa como autorizando oficialmente qualquer medida que vise a diminuir essas "despesas". É claro que a primeira delas é o fim ou na melhor das hipóteses, a diminuição de recursos para os programas de prevenção e combate", escreve Miguel Paiva

Trabalho com AIDS desde os tempos do governo Fernando Henrique quando o Ministério da Saúde tinha um programa de educação e prevenção contra o vírus HIV. Naqueles anos ainda estávamos longe das conquistas que essa luta conseguiu, mas o trabalho de educação funcionava muito bem. Foi nessa época que criei duas cartilhas, uma para prostitutas e a outra para homens acima dos 40 anos que foram distribuídas gratuitamente e certamente cumpriram seus papeis.

Já tem tempo isso, mas a ministra Damares, agora, trouxe uma delas de volta, a dos homens para acusar de pornografia o material que falava abertamente da dificuldade dos homens em abrir as próprias questões sexuais. A  dos homens acho que já foi feita no governo Lula, mas a das mulheres não só foi distribuída em grande escala como serviu de motivação para debates em todo o país. O programa virou referência no mundo inteiro e o Brasil passou a ser pioneiro no combate ao vírus e na prevenção da doença. Os números realmente baixaram.

Mas, com o passar do tempo alguns números voltaram a crescer. Os homens acima dos 40 anos voltaram a ser alvos da infecção, o apoio do Ministério da Saúde diminuiu, a demonização dos portadores do vírus recrudesceu e um programa que era exemplo passou a ser deficitário. Na prevenção, que através da informação muito se conseguiu, o silêncio e a desinformação passaram a ajudar a proliferação do vírus. 

A AIDS é uma doença que ainda não tem cura mas seu controle, se houver apoio do estado, é perfeitamente satisfatório. Para isso é preciso que o governo e todos os seus departamentos pensem do mesmo jeito e combatam principalmente a narrativa destruidora, preconceituosa e nociva que agora vem se espalhando vinda de Brasília.

Quando um presidente diz que o portador do vírus é uma pessoa que custa caro ao estado, como disse Bolsonaro, está não só criando mais uma culpa nesta pessoa como autorizando oficialmente qualquer medida que vise a diminuir essas "despesas". É claro que a primeira delas é o fim ou na melhor das hipóteses, a diminuição de recursos para os programas de prevenção e combate.

Continuamos retrocedendo, andando a passos largos em direção à barbárie. Coisas como essas independem de posição política. São questões claras de civilidade e sobrevivência das pessoas. Mas esse é um detalhe que foge ao interesse dos governantes. O bem estar da população não é mais um objetivo e sim um empecilho para o projeto perverso que estamos vivendo. O vírus neoliberal passa a ser muito mais letal que o HIV.

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