A República dos PhDeuses

Embora as instituições públicas tenham voltado a sofrer intensos ataques após o golpe parlamentar-jurídico-midiático, parte expressiva dos concursados públicos, principalmente do âmbito federal, está cada vez mais se achando a última bolacha do pacote

Embora as instituições públicas tenham voltado a sofrer intensos ataques após o golpe parlamentar-jurídico-midiático, parte expressiva dos concursados públicos, principalmente do âmbito federal, está cada vez mais se achando a última bolacha do pacote
Embora as instituições públicas tenham voltado a sofrer intensos ataques após o golpe parlamentar-jurídico-midiático, parte expressiva dos concursados públicos, principalmente do âmbito federal, está cada vez mais se achando a última bolacha do pacote (Foto: Luciano Rezende Moreira)

Vivemos um período da história no mínimo curioso. Embora as instituições públicas tenham voltado a sofrer intensos ataques após o golpe parlamentar-jurídico-midiático, parte expressiva dos concursados públicos, principalmente do âmbito federal, está cada vez mais se achando a última bolacha do pacote.

É uma daquelas contradições mortais. Um membro decepado do corpo, inevitavelmente, degenera.

Um bom exemplo desse fenômeno é a exaltação de vários setores do funcionalismo público federal (sobretudo o judiciário), onde a meritocracia é posta como um dogma universal. Prevalece o discurso do "vi, vim e venci". Para essa turma, não há vida fora do Lattes e muito menos reconhecimento para quem não passou por uma banca de concurso público.

A seguir essa lógica, os políticos em geral e, claro, Lula em especial, seriam os menos qualificados. Os cargos comissionados, então, servem apenas para a política do compadrio e para o fisiologismo. Cargos eletivos, uma conquista histórica dos trabalhadores de todo o mundo, são tratados como uma espécie de teta dada pelo Estado para acomodar aqueles que não tiveram o mérito de alcançar um posto na administração pública, direta ou indireta, através de um concurso público.

Por acaso uma eleição não é um concurso público? Em vez de uma banca com três ou cinco membros, Lula teve seu currículo avaliado várias vezes por mais de uma centena de milhões de brasileiros.

Seu plano de trabalho, que nada mais é que seu plano de governo, foi sabatinado nos mais variados fóruns, pelos mais notáveis especialistas em cada grande área do conhecimento tentando lhe reprovar em algum deslize. Ao contrário da maioria dos doutores que passaram por algum constrangimento em suas bancas de defesa ou nas entrevistas de seus concursos, isso tudo para Lula é algo quase que diário. E exposto para milhões de pessoas, especialistas ou não.

Diferentemente da imensa maioria dos concursados que apenas é avaliada profissionalmente, Lula e tantos outros políticos também têm suas vidas pessoais julgadas e analisadas. Muito mais que atestado de bons antecedentes, na política e para Lula prevalece o velho provérbio: "À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta".

Talvez seja no meio jurídico, precisamente entre aqueles que historicamente são chamados de doutores mesmo sem terem doutorado, que esse fenômeno é mais evidente. Não raramente assistimos a desembargadores, juízes federais ou promotores, do alto de seus postos públicos, jactando-se de seus currículos quase sempre viciados em atender algum tipo de pontuação específica que lhes traga algum benefício.

Pois são esses doutores, entre outros mais, movidos por um corporativismo que lamentavelmente foi fortalecido pelo "republicanismo ingênuo" dos governos petistas, que se arvoram em dar as cartas na mesa do jogo político, instalando um novo tipo de ditadura togada.

São milhares de sem-votos, na maioria gente muito jovem que nunca fez política nem no seu Centro Acadêmico, que de repente começou a gostar de brincar de ditar os rumos do Brasil.

Gostem ou não, as políticas levadas a cabo pelos governos petistas e, antes, nos governos tucanos de FHC, foram legitimadas pelas urnas. Quem legitima a ação da Lava Jato quando os procuradores deixam de fazer os seus trabalhos para agirem politicamente?

Há de se perguntar: a quem interessa esse gerencialismo tosco que estraçalha a democracia em nosso país, criminalizando a política e criando uma falsa contradição entre políticos e técnicos concursados? A julgar pelo consórcio que se formou a fim de tomar a cadeira presidencial de Dilma, são os mesmos que historicamente defendem o voto censitário alijando os pobres e analfabetos de votarem.

A saída para a crise atual é política. Não há saída fora dela. Não interessa ao povo brasileiro essa sobreposição artificial entre o "técnico" sobre o político. Mesmo porque, a julgar pelo próprio trabalho da Lava Jato, quase nada se salva, tecnicamente falando.

Há lugar para todos em nossa República, até para aqueles que se acham "deuses", desde que não queiram brincar como tais. É o que se espera, inclusive, dos juízes que julgarão Lula no próximo dia 24, do alto de seus tronos.

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