A roleta russa de Bolsonaro

Mesmo o candidato da extrema-direita não vencendo as eleições, a esquerda progressista precisa ficar atenta a esse fenômeno que, diga-se, não é exclusivamente brasileiro. Mas há alguns fatores típicos de nosso país que tem o potencial de impulsionar essas forças extremistas, entre eles: desigualdade social abismal que voltou a crescer no governo neoliberal de Temer

A roleta russa de Bolsonaro
A roleta russa de Bolsonaro (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Jair Bolsonaro tem incapacidade de pensamento mais elaborado, sem lógica construtiva e falta de conhecimento em assuntos básicos como educação, saúde e meio-ambiente que ficam notórios em suas respostas ou falta delas. Esse é um dos seus pontos fracos, correto? Não totalmente.

Um exemplo: Bolsonaro concedeu uma entrevista à Rede TV, no dia 06 de julho, na qual, entre outros assuntos, opinou sobre o caso de uma criança de uns 10 ou 12 anos que aparece em um vídeo carregando uma arma de fogo de grosso calibre e cantando rap:

Pergunta: "Como salvar essa criança"?

Resposta: "Primeiramente, parabéns ao Estatuto do Desarmamento que criou isso, desarmou os cidadãos de bem e deixou muita gente e até a garotada de má índole armada (...). Um cachorro de 3, 6 meses, um ano, não morde a gente (...), esse garoto, como ser-humano, raciocina, avalia riscos, ele sabe que não tem qualquer punição pra ele (...), então ele parte pra isso estimulado por outros marginais (...). Aí o policial vai fazer uma incursão por ordem superior e vai acabar atirando porque esse moleque tá com fuzil na mão... e vem o pessoal de direitos humanos, a OAB, todo mundo contra o policial, dizendo que é um estudante ou alguém excluído da sociedade que não teve chance na vida". O deputado se referiu, em um determinado momento, a uma "educação pesada na base" (...) e acrescentou posteriormente "mas é muito difícil".

É uma criança de 10 anos que vive num meio violento e que tende, por isso, a reproduzi-lo. Fase que, segundo Piaget, a criança começa a pensar com autonomia, a pensar por si própria, a questionar o certo e o errado que lhe foi ensinado e buscar a legitimação das regras; o respeito a regras nessa fase depende do diálogo e de acordos mútuos. 

Não sou especialista em educação, mas abandonar uma criança à própria sorte num ambiente hostil e dentro da “lógica” do deputado é institucionalizar uma roleta russa utilizando o tambor de um revólver carregado com duas balas: uma do tráfico e a outra do Estado. E mais: o ser-humano possui má índole de nascimento! Se transportarmos esse raciocínio ao período nazista vamos chegar à conclusão que as favelas são os guetos e seus moradores, os “não-arianos”. A mensagem é clara: bandidos estão nascendo nos guetos e é preciso exterminá-los na infância. Nada mais fascista!

É o tipo de pensamento que deveria deixar qualquer pessoa, mesmo não sendo pedagogo mas com um mínimo de humanidade, indignada; entretanto, o que mais assusta é que há aqueles que apoiam tal pressuposto. Exemplificando: fiz uma referência sobre essa abordagem de Bolsonaro em minha página na Rede Social e alguns dos comentários foram: “tem mais é que a polícia matar, quero ver se um moleque desses atirar num parente seu!” São casos isolados? Definitivamente, não. Não é possível afirmar que os cerca de 20% daqueles que se dizem votar no deputado pensem assim, mas também não é possível achar o oposto. 

Mesmo o candidato da extrema-direita não vencendo as eleições, a esquerda progressista precisa ficar atenta a esse fenômeno que, diga-se, não é exclusivamente brasileiro. Mas há alguns fatores típicos de nosso país que tem o potencial de impulsionar essas forças extremistas, entre eles: desigualdade social abismal que voltou a crescer no governo neoliberal de Temer, domínio da grande mídia por um pequeno número de famílias com alta capacidade de manipulação da opinião pública, sistema bancário oligopolizado com domínio do sistema financeiro nacional, elite industrial voltada para seu próprio umbigo, oligarquia agrária e ódio da classe média ao pobre (como afirma Jessé Souza).

A esquerda precisa de um discurso que vá direto ao encontro dos anseios da população que se sente abandonada pelo Estado – o fato da mídia martelar incessantemente sobre a corrupção só reforça essa sensação –, fazendo propostas concretas e claras, reforçando os laços com o povo nas ruas, em sindicatos, na mídia alternativa e onde mais for possível. O fato é que espaços vazios podem ser preenchidos por qualquer coisa, inclusive, por discursos de ódio. É preciso que os setores progressistas adotem posturas mais propositivas e menos reativas: referências constantes a Bolsonaro só abrem brechas para mais manifestações extremistas de apoio ao deputado (são os espaços sendo ocupados).

Sobre a entrevista, faltando alguns minutos para terminar – que me pareceu durar mais do que as duas décadas da ditadura militar –, não pude mais continuar assistindo, senti ânsia.

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