A Rússia tem a chave da soberania alemã

Uma Alemanha mais próxima à Rússia e à China talvez seja a palha que irá quebrar a espinha dorsal da hegemonia dos Estados Unidos

Angela Merkel e Vladimir Putin
Angela Merkel e Vladimir Putin (Foto: Sputnik)
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Por Pepe Escobar, para o Asia Times

Tradução de Patricia Zimbres, para o 247

Na semana passada, apontamos os passos históricos e geopolíticos necessários à compreensão de Por que a Rússia enlouquece o Ocidente.

E então, na sexta-feira passada, logo antes do início do Ano do Boi de Metal, veio a bomba, jogada com o aplomb de sempre, pelo Ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov.

Em uma entrevista concedida a Vladimir Solovyov, o popular apresentador de um talk show de grande popularidade - cuja transcrição na íntegra foi publicada pelo Ministério da Relações Exteriores - Lavrov afirmou que Moscou tem que "estar pronta" para um possível "rompimento com a União Europeia".

Esse sinistro rompimento seria resultado direto das novas sanções impostas pela União Europeia, em particular aquelas que "criam riscos para a nossa economia, inclusive nas áreas mais sensíveis". E então, o argumento final ao estilo de Sun-Tzu: "Se você quer a paz, prepare-se para a guerra".

O porta-voz do Kremlin Dmitri Peskov, mais tarde, fez questão de explicar que a fala de Lavrov foi citada fora de contexto: A mídia, como seria de se esperar, arranjou uma manchete "sensacionalista".

Portanto, a íntegra da resposta nuançada a uma pergunta sobre as periclitantes relações da União Europeia com a Rússia deve ser cuidadosamente examinada:

"Acreditamos que estaríamos prontos para isso. Somos vizinhos. Coletivamente, eles são nosso maior parceiro no comércio e nos investimentos. Muitas empresas da União Europeia operam aqui, e há centenas, se não milhares de joint-ventures. Sempre que uma atividade empresarial for benéfica a ambas as partes, ela terá continuidade. Estou certo de que nos tornamos totalmente autossuficientes na esfera da defesa. Temos também que atingir a mesma posição na economia, para sermos capazes de agir de forma apropriada, caso vejamos novamente (já vimos isso mais de uma vez) que as sanções impostas afetam uma esfera onde elas podem criar riscos para nossa economia, inclusive nas áreas mais sensíveis, como o fornecimento de peças componentes. Não queremos nos isolar do mundo, mas temos que nos preparar para tal. Se você quer a paz, prepare-se para a guerra".

É perfeitamente claro que Lavrov não está afirmando que a Rússia irá, unilateralmente, cortar relações com a União Europeia. A bola, na verdade, está no campo europeu: Moscou está afirmando que não irá exercer uma opção de primeiro ataque, de cortar relações com a eurocracia de Bruxelas. E isso, em si, seria bem diferente de cortar relações com qualquer um dos 27 estados-membros da União Europeia. 

O contexto ao qual Peskov se referia também é claro: o enviado da União Europeia, Josep Borrell, depois de sua desastrada viagem a Moscou, levantou a questão de que Bruxelas estaria contemplando a imposição de novas sanções. A resposta de Lavrov tinha a clara intenção de martelar algum senso nas cabeças duras da Comissão Européia (CE), administrada pela notoriamente incompetente ex-ministra da defesa alemã Ursula von der Leyen e por seu "chefe" de política externa Borrell.

No início desta semana, Peskov viu-se forçado a voltar de forma incisiva à saga vulcânica: "Lamentavelmente, Bruxelas continua a falar em sanções, e os Estados Unidos fazem o mesmo, com persistência maníaca. Isso é algo que jamais aceitaremos. É algo que não nos agrada, absolutamente".

Por falar em eufemismos diplomáticos.

Portanto, a cena está montada para uma reunião acalorada - para dizer o mínimo -  de chanceleres da União Europeia, que terá início na próxima segunda-feira, onde eles irão discutir - o que mais? - possíveis novas sanções, que provavelmente incluirão proibições de viagens e congelamento de bens de russos escolhidos a dedo, incluindo pessoas muito próximas ao Kremlin, acusadas pela União Europeia de serem responsáveis pela prisão, no início deste mês, do blogueiro direitista condenado por fraude (uma falcatrua contra Yves Rocher), Alex Navalny.

A maioria esmagadora dos russos vê Navalny - que tem uma aprovação de 2%, no máximo - como um agente da OTAN, de baixo escalão e perfeitamente descartável.  A reunião da semana que vem abrirá caminho para a cúpula de governantes de estados-membros, que ocorrerá em fins de março, quando a União Europeia poderia - e essa é a palavra operativa - aprovar formalmente novas sanções. Para tal, seria necessária uma decisão unânime dos 27 membros da União Europeia.

No pé em que as coisas andam, fora os estridentemente russofóbicos suspeitos de sempre - a Polônia e os Países Bálticos - nada indica que a União Europeia esteja atirando para acertar as próprias costas.

Lembrem-se de Leibnitz

Os observadores da União Europeia, obviamente, não vêm observando bem a forma pela qual a visão pragmática que Moscou tem de Bruxelas vem evoluindo nos últimos anos.

O comércio Rússia-União Europeia vai continuar, seja como for. A União Europeia precisa muito da energia russa, a e Rússia está disposta a vendê-la, petróleo e gás, dutos e tudo o mais. Isso é uma transação estritamente comercial. Se a União Europeia não quiser - por uma série de razões - não há problema: a Rússia vem desenvolvendo um fluxo contínuo de operações comerciais, que incluem a energia, com todo o Leste Asiático.

O sempre relevante clube de discussões de Valdai, um think-tank com sede em Moscou, por exemplo, vem acompanhando cuidadosamente o aspecto comercial da parceria estratégica Rússia-China:

"A política dos Estados Unidos continuará a buscar uma cisão entre a China e a Rússia. A Europa continua sendo um parceiro importante para Moscou e Pequim. A situação na Ásia Central é estável, embora necessite da construção da cooperação russo-chinesa".

Putin, lateralmente, também opinou sobre a saga União Europeia-Rússia, que é um subtexto da perene batalha entre a Rússia e o Ocidente: "Assim que começamos a nos estabilizar, a nos pormos novamente de pé - a política de contenção veio logo em seguida... E, à medida em que ficávamos mais fortes, essa política de contenção passou a ser exercida com intensidade cada vez maior".

Sugeri, na semana passada, a intergalácticamente distante possibilidade de um eixo Berlim-Moscou-Pequim. O analista de mídia e telecomunicações Peter G. Spengler, em um longo e-mail dirigido a mim, qualificou elegantemente essa sugestão como pertencente ao senso de possibilidade de Robert Musil, tal como descrito em sua obra-prima O Homem Sem Qualidades.

Peter Spengler também chamou a atenção para a Novissima Sinica de Lebnitz e, particularmente, para um ensaio de Manfred von Boetticher sobre Lebnitz e a Rússia, então representada pelo Tzar Pedro o Grande, no qual é enfatizado o papel da Rússia como uma ponte entre a Europa e a China.

Embora Leibnitz, afinal, nunca tenha se encontrado com Pedro o Grande, ficamos sabendo que "era sempre o objetivo de Leibniz encontrar aplicação prática para suas descobertas teóricas. Durante toda a sua vida, ele buscou um "grande potentado" que fosse aberto a ideias modernas, e com cujo auxílio ele pudesse realizar suas ideias para um mundo melhor. Na era do absolutismo, essa parecia ser a perspectiva mais promissora para um estudioso para quem o progresso da ciência e da tecnologia, bem como a melhoria da educação e das condições econômicas, eram as metas de maior urgência".

O Tzar Pedro, que era tão poderoso quanto aberto a todo o tipo de novos planos, e cuja personalidade o fascinava, além do mais, teria sido um contato extraordinariamente interessante para Leibniz. A Europa Ocidental havia entrado em contato mais estreito com a China por meio das missões jesuítas, e Leibniz havia reconhecido a importância da milenar cultura chinesa, e via também na Rússia o elo natural entre as duas esferas culturais, o centro da síntese futura entre o Oriente e o Ocidente. Face às profundas mudanças que então ocorriam no Império Russo, suas esperanças pareciam ter sido realizadas: cheio de expectativa, ele acompanhou as grandes transformações à medida em que elas surgiam na Rússia de Pedro I".

Mas evocar Leibniz no estágio atual é sonhar com esferas celestes. A prosaica realidade política é que a União Europeia é uma instituição atlanticista - subordinada de fato à OTAN. Lavrov talvez quisesse se comportar como um monge  taoísta, ou mesmo dar uma de Leibniz, mas isso é difícil quando se é forçado a lidar com um bando de idiotas.

É tudo uma questão de soberania

Atlanticistas hidrófobos afirmam que essa insignificância chamada Navalny está diretamente relacionada ao Nord Stream 2. Bobagem: Navalny foi construído (itálicos meus) pelos suspeitos de sempre para servir de aríete na destruição da Nord Stream 2.

A razão é que o gasoduto irá consolidar Berlim como o centro da política energética da União Europeia. E esse será um fator da primeira importância na política externa geral da União Europeia - com a Alemanha, pelo menos em tese, exercendo maior autonomia com relação aos Estados Unidos.

Então, aqui está o segredo "sujo": é tudo uma questão de soberania. Todos os atores geopolíticos e geoeconômicos sabem quem não quer uma aliança mais próxima entre a Alemanha e a Rússia.

Agora, imagine-se uma Alemanha hegemônica na Europa, forjando laços comerciais e de investimentos não apenas com a Rússia, mas também com a China (e esse é o outro "segredo" embutido no acordo comercial e de investimentos União Europeia-China).

Então, seja quem for o inquilino da Casa Branca, não há mais nada a esperar do Deep State dos Estados Unidos, além da pressão "maníaca" por um perene acúmulo de sanções.

A bola, na verdade, está no campo da Alemanha, muito mais que no campo do pesadelo eurocrático de Bruxelas, onde a prioridade máxima de todos se limita à perspectiva de embolsar uma gorda aposentadoria integral e isenta de impostos.

A prioridade estratégica de Berlim é o aumento das exportações - internamente à União Europeia e, principalmente, para a Ásia. Os industriais e as classes empresariais alemãs sabem perfeitamente o que a Nord Stream 2 representa: uma soberania alemã cada vez mais assertiva orientando o coração da Europa, o que se traduz como uma maior soberania para a União Europeia.

Um sinal imensamente significativo foi dado por Berlin em data recente, com a permissão para a importação da vacina Sputnik.

Será que o senso de possibilidade de Musil já está em operação? É cedo demais para dizer. A partir de 2014, o hegêmona lançou uma guerra híbrida vale-tudo contra a Rússia. Essa guerra talvez não seja cinética, e sim cerca de 70% financeira e 30% de informação.

Uma Alemanha mais soberana e mais próxima à Rússia e à China talvez seja a palha que irá quebrar a espinha dorsal da hegemonia dos Estados Unidos.

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